Pravda.ru

Sociedade » Incidentes

Entrevista com Noam Chomsky por Edu Montesanti: Raízes do Racismo nos EUA

04.06.2020
 
Entrevista com Noam Chomsky por Edu Montesanti: Raízes do Racismo nos EUA. 33349.jpeg

ENTREVISTA COM CHOMSKY, NOAM. Montesanti, Edu: Raízes do Racismo nos EUA

Raízes do Racismo nos EUA: Edu Montesanti Entrevista Chomsky

O brutal assassinato de George Floyd (46) na cidade de Minneapolis, estado de Minnesota em 25 de maio por quatro policiais brancos após o cidadão negro ter efetuado compra com nota de vinte dólares falsa em um estabelecimento comercial, escancara ao mundo, uma vez mais na história dos Estados Unidos, não apenas o profundo e violento ódio racial mas também as graves desigualdades sociais existentes na sociedade estadunidense, desde as raízes da formação de seu Estado.

Estado Nascido sobre Discriminação Racial e Exploração

"Um dos motivos da Revolução Americana [1765–1783] foi o fato de os britânicos barrarem a invasão do 'país indígena'", recorda o ativista político, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, considerado o pai da linguística moderna Noam Chosmky, em mais uma entrevista a Pravda Brasil de sua casa em Tucson, Arizona, onde reside com a esposa brasileira Valéria.

"Os colonos queriam conquistar e estabelecer-se naqueles territórios, assim como grandes especuladores de terras como George Washington". 

A cultura da violência está profundamente arraigada aos mais diversos segmentos da sociedade norte-americana, imposta pelas elites locais desde a vida política do país, doméstica e externa (apoiada no "excepcionalismo" americano observado por Chomsky na entrevista a seguir), até o sistema educacional, passando pela mídia - incluindo a indústria do cinema.

"Não é assim que a história e a sociedade dos EUA têm sido retratadas no sistema educacional, na mídia e nas instituições culturais", pontua Noam Chomsky ao avaliar o comportamento internacional e domésticos da política norte-americana, e a discriminação racial especialmente contra os negros.

 Escravidão por Outro Nome 

A própria discriminação é acentuadamente alimentada pelas classes dominantes a fim de utilizar o "excedente" social, através das massas de desempregados, como mão de obra barata. Perversa lógica do sistema capitalista desenvolvida, especialmente, a partir da Revolução Industrial inglesa iniciada em meados do século XVIII.

"Os EUA instituíram o sistema mais cruel de escravidão na história da humanidade. A escravidão baseada na raça ao contrário da maioria das outras, por isso a marca da escravidão persiste", aponta Chomsky, mais respeitado analista da contemporaneidade ao jornalista brasileiro e autor Edu Montesanti.

Noam Chomsy relembra o pacto Norte-Sul de 1877 que, segundo ele, introduziu nos Estados Unidos a “escravidão por outro nome”. Um "dispositivo destinado a criminalizar a vida negra" no país.

  "Saneamento Público" 

No imaginário coletivo, justifica-se o bem conhecido "saneamento público" inerente ao capitalismo sobre os considerados "cidadãos de segunda classe": nos Estados Unidos, principalmente negros e hispanicos, exatamente as principais vítimas do novo coronavírus no epicentro mundial de contágio e mortes de COVID-19, em proporções muito superiores ao número de infecção e morte entre cidadãos brancos.

Os negros, particularmente, têm sido hospitalizados em número 2,7 superior ao de brancos e latinos por coronavirus, de acordo com recente estudo de Health Affairs, que inclui classes menos favorecidas em geral como mais vulneráveis a contágios e mortes pela pandemia nos Estados Unidos.

Floyd: Soa o Apito da Panela de Pressão nos EUA

George Floyd nasceu em  Fayetteville, Carolina do Norte. Cresceu em Houston, no Texas, onde jogou futebol americano e basquete, além de ter atuado em uma banda de hip hop. Ali mesmo, envolveu-se em um assalto a mão armada em 2007, condenado dois anos depois a cinco anos de prisão.

Havia-se mudado a Minneapolis em 2014, onde trabalhou como caminhoneiro e, posteriormente, segurança de um restaurante até perder o emprego por causa da pandemia.

Com Floyd algemado e deitado sobre o chão e via pública com a cabeça para baixo, o agente policial Derek Chauvin, auxiliado por três colegas, manteve um dos joelhos sobre o pescoço da vítima por exatos oito minutos e quarenta e seis segundos, até  que o texano morresse ali mesmo, na rua, asfixiado.

Após imagens de vídeo do crime gravadas e publicadas em redes sociais por transeuntes - alguns dos quais tentaram socorrer Floyd, impedidos por um dos policiais que ajudaram Chauvin no assassinato -, protestos majoritariamente pacíficos tem tomado as ruas de todos os Estados Unidos, como nunca visto no país norte-americano desde 1968 quando o pastor e pacifista negro, Martin Luther King Jr. (1929-1968), foi assassinado a tiros em Memphis, estado de Mississipi.

Trump entre a Cruz e a Espada

O presidente Trump tem, repetida e agressivamente, clamado pela prisão e penas duras a manifestantes, enquanto não demonstra nenhum interesse por justiça pelo crime pelo qual não fez, até agora quase duas semanas após o assassinato, um pronunciamento direto que condenasse contundentemente tal ato, nem menciona buscas por solução a um dos assuntos historicamente mais graves dos Estados Unidos, exatamente a discriminação racial.

Para Chomsky, longe da classe politica, "pequenas sementes da solução" residem na reação popular de hoje ao brutal assassinato de Floyd que, segundo o renomado analista, "reflete a crescente conscientização sobre a patologia racista entre, pelo menos, algumas partes da população".

Se em alguns casos tem havido excesso de manifestantes, o que não tem sido a marca dos protestos, em diversos outros a polícia americana tem respondido com violência às manifestações populares pacíficas, causando mortes e feridos.

Tem havido toque de recolher em diversas cidades, e policiais e militares têm sido amplamente acionados através de anunciado "alto estado de alerta" em diversas cidades de norte a sul dos Estados Unidos, enquanto a Primeira Emenda constitucional americana garante plenamente o direito a manifestações populares.

Pois nisto tambem há outra marca historica da truculência norte-americana, revelando uma vez mais a verdadeira face dos Estados Unidos ao mundo. A dupla moral de um país cada vez mais desmoralizado quando o assunto é democracia e direitos humanos.

Tudo isso sob o silêncio conivente dos líderes ocidentais, e de moribundos órgaos internacionais de direitos humanos. Os mesmos que, por muito menos e com cinicamente seletiva indignação, imiscuem-se em assuntos internos de outros países.

No caso particular de Donald Trump, o assasinato de Floyd e as subsequentes revoltas sociais pelo violento crime, somados aos assustadores números de vítimas da pandemia causada pelo novo coronavírus nos Estados Unidos, aparentemente enfraquecem sua tentativa de reeleger-se em novembro.

Contudo, Chomsky alerta que o mandatário estadunidense pode utilizar astuta e despoticamente os protestos a seu favor, "jogando a carta da ordem e da lei, uma segunda natureza para brutais autoritários". 

Abaixo, a íntegra da conversa entre Edu Montesanti e Noam Chomsky sobre as raízes da discriminação racial nos Estados Unidos, como ela tem se desenvolvido ao longos dos séculos, a resposta de Donald Trump à morte cruelmente criminosa de Floyd seguida dos intensos protestos, e o quanto isso tudo pode afetar - ou favorecer - o presidente Trump nas próximas eleições presidenciais.

Avram Noam Chomsky, professor Emérito de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, atualmente professor de Linguística da Univerdiade do Arizona, é autor de mais de cem livros, entre eles Internationalism Or Extinction, Quem Manda no Mundo?, Estados Fracassados, e O Império Americano: Hegemonia ou Sobrevivência.


Edu Montesanti: Professor doutor Noam Chomsky, devo agradecê-lo por conceder-me novamente uma entrevista. Gostaria muito de encontrar palavras para poder expressar minha profunda gratidão ao senhor por esta honra indescritível.

A discriminação racial tem sido, mais uma vez, amplamente discutida agora, desde que George Floyd foi morto em Minneapolis na semana passada, um crime comum por parte de policiais brancos contra negros e afro-americanos na história dos Estados Unidos.

Quanto a mídia dos EUA, incluindo a indústria cinematográfica, a política externa dos EUA baseada na imposição pelo uso da força com muito racismo também, o chamado excepcionalismo americano, e até o sistema educacional americano dedicado à produção de idiotas como o senhor mesmo observou uma vez, cooperam para que sucessivos crimes desta natureza aconteçam?

Refiro-me à cultura do domínio através da violência; as mentes dos americanos têm sido bombardeadas, talvez antes de tudo por políticos americanos que estão acostumados a agir violando a lei, dentro e fora do país; eles não têm limites para atingir seus objetivos; portanto, nos Estados Unidos, por que ser tolerante, respeitar a lei e as diferenças?

Sua opinião, doutor Chomsky.

Noam Chomsky: Os Estados Unidos são um país raro que vive em guerra quase todos os anos, desde o primeiro dia de sua fundação.

Um dos motivos da Revolução Americana foi o fato de os britânicos barrarem a invasão do "país indígena", terra natal de muitas nações indígenas além das montanhas dos Apalaches. Os colonos queriam conquistar e estabelecer esses territórios, assim como grandes especuladores de terras como George Washington.

Assim que a barreira britânica foi removida, as invasões começaram, praticamente guerras de extermínio como reconheceu a liderança. Isso persistiu no século XIX - e ao longo do caminho, os EUA conquistaram metade do México. A partir daí, dificilmente haverá uma pausa. Os lamentos sobre as "guerras sem fim" de Washington neste milênio são um tanto enganadores.

Ao mesmo tempo, os EUA instituíram o sistema mais cruel de escravidão na história da humanidade. Era, crucialmente, a escravidão baseada na raça ao contrário da maioria das outras, por isso a marca da escravidão persiste.

Formalmente, a escravidão terminou após a guerra civil e, de fato, os negros obtiveram uma década de liberdade a qual eles utilizaram com muita eficácia. Isso terminou com um pacto Norte-Sul em 1877, que permitiu que os antigos estados escravos fizessem o que quisessem.

O que eles fizeram foi introduzir a “escravidão por outro nome”, título de um dos melhores livros sobre o assunto. O dispositivo foi destinado a criminalizar a vida negra. A população negra encarcerada tornou-se uma força de trabalho maravilhosa para o agronegócio e a revolução industrial no Sul - sem preocupação com disciplina, salários, direitos dos trabalhadores. As correntes de gangues são um símbolo conhecido.

Isso durou, praticamente, até a Segunda Guerra Mundial junto de uma discriminação severa no Norte. Depois, seguiu-se um período de liberdade formal, mas limitado. Por exemplo, a Federal Housing e o apoio ao Ensino Superior foram negados aos negros. Em 1980, com Reagan, um novo programa de criminalização começou chegando até o presente.

Essa forma de “excepcionalismo” não pode deixar de causar impacto na cultura americana. Embora livre e progressiva em muitos aspectos, a cultura e a sociedade americanas não apagaram essas manchas profundas, como é totalmente óbvio no comportamento internacional e nos assuntos domésticos.

Evidentemente, não é assim que a história e a sociedade dos EUA têm sido retratadas no sistema educacional, na mídia e nas instituições culturais, embora tenha havido movimentos importantes em direção ao reconhecimento da realidade, amplamente rastreáveis ao impacto civilizador do ativismo da década de 1960, e suas conseqüências.


Estamos vendo o presidente Donald Trump muito mais preocupado com a prisão de manifestantes, pressionando como nenhum outro presidente antes, os governadores a processar as pessoas que estão indo às ruas que preocupação por ver justiça pelo crime contra Floyd, e discutir soluções para questões como violência, racismo e desigualdade nos EUA.

Gostaria de saber sua opinião sobre isso, doutor Chomsky... Ainda a este respeito, quanto o senhor vê, se é que vê, o próprio presidente Trump responsável pelo sentimento de ódio que leva a crimes como o cometido em Minneapolis na semana passada, considerando suas declarações e ações bem conhecidas especialmente aquelas relacionadas aos acontecimentos de Charlottesville em 2018... Quanto a postura do presidente Trump, particularmente, tem exacerbado crimes como este?

E, se o senhor quisesse acrescentar ao seu comentário sobre o assunto, eu mencionaria algo sobre a conjectura política, especialmente as eleições de novembro, obsessão do presidente Trump ao que parece, uma questão para ele claramente acima da pandemia e da vida humana: acrescentando à "resposta chocante dos EUA ao novo coronavírus" como o senhor disse em entrevista a mim em março, o assassinato de Floyd e tudo o que está acontecendo em todo o país desde então, abrem caminho para a despedida do presidente Trump da Casa Branca nos próximos meses, o senhor não acha?

Espero que seja verdade, mas não se trata de algo evidente. Ele pode, na verdade, utilizar os protestos atuais sobre o assassinato policial de George Floyd em seu proveito, jogando a carta da ordem e da lei, uma segunda natureza para brutais autoritários.

Não há espaço para percorrer o registro aqui, mas a demolição de Trump do sistema de preparação para a atual pandemia, sua retirada de fundos anuais relacionados à saúde do governo, e o cancelamento de programas nos quais cientistas americanos e chineses cooperaram investigando os coronavírus, tudo deixou os EUA singularmente despreparados para a pandemia que os cientistas estavam prevendo.

Isso está além do ataque neoliberal de 40 anos que abalou a sociedade em geral, ao mesmo tempo em que oferece enormidades a um setor minúsculo além de fortalecer sobremaneira as instituições financeiras predatórias, e outras partes do setor corporativo.

A bola de demolição de Trump não parou por aí. Quando a China forneceu todas as informações relevantes em meados de janeiro, os governos preocupados com suas populações reagiram, principalmente no Leste da Ásia e na Oceania, e agora já têm a situação praticamente sob controle. Outros variaram.

Os EUA de Trump estão no fundo do poço, dividindo essa posição com o Brasil de Bolsonaro. Trump é diretamente responsável pela morte de dezenas de milhares de americanos, e muitos mais ainda por vir. Não é de se surpreender que ele esteja procurando, desesperadamente, bodes expiatórios para seus crimes.

Ele mantém o apoio de seu círculo eleitoral básico, da alta elite e do poder corporativo, a quem ele tem servido lealmente. Também o apoio de um enorme bloco eleitoral de cristãos evangélicos, juntamente com brancos rurais e suburbanos relativamente ricos, supremacistas brancos e alguns outros setores com os quais ele lidou com o brilhantismo de um homem confiantemente qualificado - apunhalando-os pelas costas com seus programas legislativos, enquanto se apresenta como seu salvador fiel.

Isso não afeta a malevolência de Trump. Seu crime mais colossal é a dedicação à destruição da vida humana organizada na Terra em um futuro próximo, a fim de aumentar os lucros de seu eleitorado principal. Isso não é um exagero.


O assassinato de Martin Luther King Jr. em 1968, que provocou protestos semelhantes aos que estamos vendo hoje em dia, não impediu as consequências drásticas do profundo racismo nos Estados Unidos. Nem o assassinato de Rodney King em Los Angeles em 1992 por quatro agentes policiais brancos, assistidos por mais 20, fato que gerou protestos em todo o país, nem a eleição de Barack Obama, primeiro presidente negro da história americana, resolveram o problema, pelo contrário.

Onde está a solução, professor doutor Noam Chomsky?

Na verdade, vemos algumas pequenas sementes da solução na reação ao brutal assassinato de Floyd. Após o assassinato de Rodney King, os assassinos foram libertados pelos tribunais levando a uma semana de enormes protestos em Los Angeles, nos quais mais de 60 pessoas foram mortas.

O presidente George H. W. Bush chamou as Forças Armadas dos EUA para restaurar a ordem. Houve reações em outros lugares, mas os protestos foram limitados principalmente a Los Angeles.

A reação desta vez é muito diferente. Isso reflete a crescente conscientização sobre a patologia racista entre, pelo menos, algumas partes da população.

Há um longo caminho a ser percorrido, mas o principal desafio é continuar e escalar este processo - enquanto serejeita esforços inevitáveis de Trump e de seus aliados para restaurar uma versão ainda mais dura do que tem ocorrido.


Fotos popular