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Munique: Impor à Europa Oriental a vontade deles?

04.02.2014
 
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A Conferência de Segurança de Munique é um palco raro, no qual se discutem problemas da política mundial. Ali, uma vez por ano, reúnem-se políticos, diretores de organizações internacionais, diplomatas e especialistas em segurança.[1]

A Conferência de Munique, que dura quatro dias, não produz decisões que os países sejam obrigados a seguir. E é hoje muito diferente do que era em 1938 - quando o ocidente deu carta branca a Hitler para anexar a Checoslováquia. A imprensa-empresa ocidental faz o que pode para safar-se, com analogias e comparações.

O endereço também mudou: hoje, a Conferência de Munique acontece no Hotel Bayerischer Hof ('quintal bávaro'), Munique. Vez ou outra alguém se apercebe de que a Führerbau, a residência de Hitler construída por fascistas, fica na Königsplatz (Praça do Rei), menos de um quilômetro dali. Naquela Führerbau, os líderes de Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália[2] assinaram um tratado, conhecido como o Pacto (ou Acordo) de Munique (na Rússia, é conhecida como "a colusão de Munique"; e na Checoslováquia, como "a sentença de Munique" e, também como "a traição de Munique").

Em 2014, a cerimônia de abertura da conferência aconteceu no local onde hoje funciona a Hochschule für Musik und Theater, München (Universidade de Música e Artes Performativas, Munique). A diferença é simbólica; mas haverá grande diferença entre a cena 'histórica' e o que se vê hoje?

Em 2014, de 31 de janeiro a 2 de fevereiro, aconteceu a 50ª edição da Conferência. Inicialmente, o fórum anual era muito diferente do que é hoje; começou como encontro fechado para discutir questões militares, aproximando políticos e grandes industriais ocidentais - um círculo estreito de participantes.[3] Nos anos 1990s, começou a converter-se gradualmente em palanque para discussões mais abertas. Depois de 1999, os anfitriões passaram a receber convidados da Europa Central e Oriental, da Índia e da China.[4] E hordas de jornalistas acorrem a Munique para o evento.

Há um traço tradicional, que marca a Conferência de Munique: todos os temas da agenda são temas 'quentes'. O programa da Conferência de 2014 foi dado por concluído, em termos gerais, um mês antes do início do encontro, mas a questão que acabou por dominar completamente as discussões não estava incluída naquela agenda inicial: Poder global e estabilidade regional (com foco na Europa Central e Oriental).

Os eventos na Ucrânia[5] atraíram todas as atenções. Serviu bem aos EUA, porque, com isso, a questão da espionagem pela Agência de Segurança Nacional dos EUA contra europeus sumiu da parte iluminada do palco. De fato, nem tanto... Os convivas não apagaram completamente o tema da espionagem norte-americana nem conseguiriam fazê-lo, porque a Alemanha não perde oportunidade para expor sua indignação, depois do que o mundo soube a partir das revelações de Edward Snowden.[6] Afinal, a influente revista alemã Spiegel também expôs o assunto aos olhos do mundo.

O primeiro dia da Conferência de Munique foi dedicado a restaurar-reafirmar a confiança, a liberdade e a segurança no ciberespaço, além da proteção aos imensos estoques de dados recolhidos e ao futuro da inteligência. Os suficientemente ingênuos a ponto de ter tido esperanças de que o secretário de Estado John Kerry dos EUA abraçaria algum novo acordo de não espionagem ou que pediria desculpas pelo que os EUA fizeram saíram frustrados. Os norte-americanos declararam em termos muito claros que não, que nada disso jamais acontecerá. O novo diretor da Agência de Segurança Nacional, vice-almirante Michael Rogers disse em sua fala oficial ao Congresso antes de ser aprovado para o cargo, que os chefes de estado e de governo não serão espionados, até que surjam razões que absolutamente obriguem a fazê-lo, relacionadas à segurança nacional.[7] Em termos mais claros: a espionagem contra europeus prosseguirá, como antes.[8]

Falando numa conferência de imprensa, ao lado do ministro de Relações Exteriores da Alemanha Dr. Frank-Walter Steinmeier, John Kerry disse que Berlim e Washington terão de trabalhar juntas para lidar com o problema. Caso clássico de culpar a vítima. Mas, afinal, nem chega a ser assunto grave... O ministro do Exterior da Alemanha disse que os debates sobre espionagem não conseguirão abalar a amizade transatlântica. A chanceler Angela Merkel sequer aventa a hipótese de qualquer tipo de 'pausa' nas relações bilaterais; e já foi convidada por Obama a visitar Washington. Nada sequer semelhante a qualquer discussão séria sobre a delicada questão, como prometera Wolfgang Friedrich Ischinger, presidente e organizador da 50ª Conferência de Segurança de Munique. Será que Ischinger realmente acredita no que disse? É diplomata experiente, foi embaixador da Alemanha na Grã-Bretanha de 2006 a maio de 2008; e antes disso, de 2001 a 2006, foi embaixador da Alemanha nos EUA. É claro que conhece todos os vaivéns da relação bilateral. Kerry andou pisando em terreno movediço em vários itens das relações EUA-Alemanha, mas em momento algum falou sobre a Agência de Segurança Nacional.

O caso é que, então, de repente, surgiu a questão da Ucrânia.[9]

Os organizadores do evento convidaram o ministro de Relações Exteriores da Ucrânia Leonid Kozhara e líderes 'da praça, Vitaly Klitschko e Arseniy Yatsenyuk, além do oligarca Petro Poroshenko - que parece ser o nome preferido de Washington.

O encontro entre eles todos e Kerry foi anunciado com grande antecedência. O nacionalista Oleh Tyahnybok não foi convidado (ninguém quis correr o risco de ele pôr-se a desfilar pelas ruas de Munique e a discursar na Führerbau e na conhecida cervejaria Hofbräuhaus[10] e em outros pontos de atração turística da cidade conhecida como o berço no nazismo).

Mas que ninguém pense que Oleh Tyahnybok será mantido afastado da Alemanha: foi convidado a visitar o país por grupos da direita alemã radical e conservadores associados à Fundação Konrad Adenauer. A direita alemã sempre soube trabalhar com nacionalistas de direita de outros países, e é trabalho que muito lhes interessa, todos sempre pensando no futuro.

Por exemplo, nos anos 1970s, o Bundesnachrichtendienst (BND, o braço da inteligência alemã que opera no exterior) cooperou efetivamente com o Comitê Nacional Croata - organização que muito se orgulha de ter raízes no movimento terrorista de fascistas croatas Ustase.[11]

Os EUA também não escolhem muito bem com quem andam. John Kerry convidou acintosamente os líderes da oposição ucraniana a unirem-se na luta contra o governo. Em Munique já não há quem não saiba que Petro Poroshenk - milionário conhecido como "o rei do chocolate"[12] - foi o escolhido pelos EUA para governar a Ucrânia. (...)

Mais uma vez, vê-se em curso, em Munique, uma tentativa para assumir o controle sobre a Europa Oriental. Não parece que os europeus estejam interessados em outra Drang nach Osten [marcha acelerada rumo ao Leste], como seus parceiros norte-americanos. Nem todos estão igualmente satisfeitos com a evidência de que tudo, no mundo ocidental - diferente do que se via na Munique pré-guerra - é hoje decidido por um suposto centro de poder, sem que sequer se tente qualquer tipo de acordo entre diferentes grupos de interesse.

Sabe-se bem o que resultou da aventura de Munique em 1938, mas a história não se repete - como a 50ª Conferência de Segurança de Munique acaba de confirmar. Vários políticos já falam rotineiramente de intervenção nos assuntos de outros estados, inclusive com uso de força. E outros começam a descobrir que não, que essa atitude vai-se tornando cada dia menos aceitável...

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[1] Lista dos participantes da Conferência de Munique 2014, em https://www.securityconference.de/en/activities/munich-security-conference/msc-2014/participants/ (O Brasil participou em 2013, mas, parece, não foi convidado para 2014) [NTs].
[2] Nem se pode dizer que mudaram muito, de 1938 (imagem em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Bundesarchiv_Bild_183-R69173,_M%C3%BCnchener_Abkommen,_Staatschefs.jpg), para 2014 (imagem em https://www.securityconference.de/uploads/pics/Teaser_Seehofer-GiscardDEstaing-Schmidt-Bahr-Ischinger2_Mueller_MSC2014_02.jpg) [NTs].
[3] Durante a Guerra Fria, essa conferência recebia o nome de Wehrkundentagung (aproximadamente 'jornada de defesa militar', em tradução livre) [NTs].
[4] E muda sempre muito menos do que parece: "Essa semana, Helmut Schmidt e Henry Kissinger participarão de uma mesa redonda na Conferência de Segurança de Munique, como aconteceu na primeira "Internationale Wehrkunde-Begegnung" (que antecedeu o formato de hoje). De lá até hoje, muita coisa mudou pelo mundo, que causa júbilo - mas também há coisas que obrigam a refletir" (Da página oficial da Conferência de Segurança de Munique 2014, em https://www.securityconference.de/en/discussion/monthly-mind/single-view/article/monthly-mind-januar-2014-the-western-alliance-in-the-digital-age/) [NTs]).
[5] 2/2/2014, "Ucrânia: Know-How de desestabilização posto em prática", Nikolai Malishevski, Strategic Culture, trad. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2014/02/ucrania-know-how-de-desestabilizacao.html  
[6] http://www.strategic-culture.org/tags/snowden.html
[7] 31/1/2014, Reuters, US-Außenminister weicht Frage nach No-Spy-Abkommen aus.
[8] http://www.strategic-culture.org/news/2013/07/01/the-way-anglo-saxons-spy-on-germans.html
[9] http://www.strategic-culture.org/news/2014/02/01/europeans-about-ukraine-wide-range-of-opinions.html
[10] Hitler fez vários discursos nessa cervejaria (http://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g187309-d190309-i21036763-Hofbrauhaus_Munchen-Munich_Upper_Bavaria_Bavaria.html) [NTs]
[11] http://en.wikipedia.org/wiki/Usta%C5%A1e
[12] Ver Poroshenko, em revista Forbes, "Perfil dos milionários", mar.-2013, em http://www.forbes.com/profile/petro-poroshenko/)

3/2/2014, Natalia Meden, Strategic Culture
http://www.strategic-culture.org/news/2014/02/03/Munique-imposing-their-own-will-on-eastern-europe.html


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