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Comunidade indígena shipibo em Lima será despejada

02.12.2014
 
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A comunidade e assentamento Cantagallo foi fundado em 2000 por imigrantes indígenas shipibo do departamento amazônico de Ucayali e, atualmente, tem cerca de 200 famílias. Seus habitantes vivem em uma zona precária, vizinha ao distrito de Rímac, um dos mais perigosos de Lima, a capital. As moradias são em sua maioria frágeis construções de madeira, que deixam passar o frio e a umidade, que podem levar a graves problemas de saúde. Devido à falta de instalações sanitárias, a água corre livremente pelas colinas de terra, atraindo os ratos e provocando acidentes. A violência doméstica em Cantagallo é comum. As mulheres e as crianças, que constituem a maioria dos habitantes, são os mais afetados e, de acordo com numerosas mulheres da comunidade, a polícia não aparece quando um delito é reportado nesse lugar.

 Adital

Maija Susarina*

 

A situação soa bastante mal, mas há um ponto crucial que rapidamente mudará as vidas dos indígenas shipibo de Cantagallo, para o bem. Ou para o mal. 

Há alguns anos, foram concluídos os planos para a obra Vía Parque Rímac e, em 2009, se iniciaram os trabalhos de construção de um parque para turistas e de uso recreativo, que incluiria a zona de Cantagallo. 

Atualmente, os arredores de Cantagallo são uma grande área de construção e a cada dia as escavadoras se aproximam mais das moradias. No entanto, recém 22 de setembro último ficou claro que a comunidade será transferida. Durante sua visita a Cantagallo nesse dia, a prefeita Susana Villarán anunciou que a realocação será para Campoy, no distrito de San Juan de Lurigancho, que está situado longe do Centro da cidade, o que poderá ser importante para as mulheres shipibo no que se refere à venta de seus artesanatos. 

 

Perigos e oportunidades da realocação 

O traslado de uma comunidade formada principalmente por mulheres e crianças para um distrito mais seguro poderá levar a uma mudança positiva na qualidade de vida dos migrantes. Em Cantagallo, com frequência, os delinquentes chegam à noite para violarem as mulheres e roubar os pertences dos habitantes sem medo de que a polícia chegue a essa parte da cidade. Isso constitui um risco importante nas vidas das mulheres. Em San Juan de Lurigancho, os shipibo não terão que temer pela insegurança, mas viver lá significará horas de viagem para o Centro da cidade e gastar mais em transporte. 

Com um manejo inteligente e inovador, o novo assentamento pode inclusive ser convertido em uma atração turística que mostre a cultura e os artesanatos amazônicos, encravado em um estilo de vida urbano e moderno. Para converter um pequeno assentamento em um ponto de interesse para turistas e locais, o lugar deve ser seguro. Os planos e oficinas para promoverem a popularidade de Cantagallo ao longo do tempo fracassaram devido ao perigo existente nos distritos que rodeiam o assentamento. 

Moradias limpas e um sistema sanitário que funcione melhorariam adicionalmente as condições de vida, o que permitirá lutar contra a propagação de enfermidades e fortalecer a saúde das pessoas, da mesma forma que seus postos de trabalho, já que não adoeceriam tão frequentemente. O tema não deve ser subestimado já que é muito difícil que pessoas que vêm da Amazônia se adaptem ao clima específico de Lima. Muitos shipibo apenas suportam o frio e a umidade no inverno e adoecem com frequência. 

Apesar das vantagens do reassentamento, não devem ser deixados de lado os possíveis perigos. Por exemplo, uma realocação assimétrica poderia perturbar a ordem social que existe em Cantagallo. Isso poderá derivar em tensões entre os habitantes e uma ruptura de relações específicas, ainda que isso poderia ter também uma influência positiva na estrutura social do assentamento. 

Pode-se esperar que devido à corrupção e favoritismos, poucos habitantes poderão ter uma localização mais favorável, deixando para trás os mais marginalizados da comunidade. Os mais afetados seriam aqueles que têm menos influência dentro da comunidade, que, em geral, são mães solteiras, os jovens e os anciãos.

 

A rota para Cantagallo 

Os shipibo estão acostumados a viverem em pequenas comunidades ao longo do rio Ucayali, em meio à floresta amazônica. Suas principais atividades são: a pesca, agricultura e a elaboração de artesanatos. No entanto, desde o auge da extração de látex, entre 1880 e 1940, a agricultura de subsistência se tornou muito mais complicada. Não só os povos indígenas tinham que enfrentar a contaminação de seus rios e desmatamento extremo, também a economia de mercado havia ingressado na remota região de Ucayali e os bosques tiveram que ceder ante o café, a palma azeiteira e outros cultivos rentáveis. 

Conforme os habitantes indígenas da Amazônia se envolviam cada vez mais no mercado de trabalho, novas necessidades apareceram. A crescente pobreza e discriminação fortaleceu o desejo de muitos indígenas por educação para seus filhos. Em consequência, muitos homens e mulheres shipibo (mas também de outros grupos indígenas) migraram para as grandes cidades em Ucayali, para encontrar trabalho que lhes permitisse manter suas famílias e pagar a educação de seus filhos. 

As mulheres que, no geral, aprendem desde cedo a costurar kené, o típico padrão geométrico shipibo, e a elaborar brincos e outros artesanatos tradicionais, viajaram para as grandes cidades, como Pucallpa, para venderem seus produtos, mas essas grandes cidades já estavam invadidas pelos mercados de produtos indígenas, enquanto que os turistas preferiam viajar para outras partes do Peru. 

Ante a necessidade de manter suas famílias, alguns homens e mulheres shipibo decidiram tentar a sorte na capital e, em 2000, fundaram a comunidade e assentamento que chamaram Cantagallo. E, desde então, tem crescido. 

Na sua chegada a Lima não havia muitos lugares livres para se instalarem próximo do Centro da cidade e por isso os shipibo ocuparam uma colina que havia sido um lixão. Construíram frágeis casas de madeira e a comunidade cresceu desenvolvimento suas próprias estruturas sociais e destacando suas origens amazônicas. Em 2008, Cantagallo abriu sua primeira instituição educativa intercultural e bilingue em shipibo e castelhano.

 

O megaprojeto e a minoria 

A realocação tem sido tema de muitas negociações e reuniões nos últimos anos, ainda que só circula informação incompleta e difusa sobre o futuro distrito para onde serão transferidos e as moradias. O único fato era que não havia fatos. Não havia contratos, nem informação clara sobre a reinstalação do assentamento. Os habitantes sabiam que tinham que se mudar, mas não para onde, quando nem como. Não podiam exercer nenhuma influência sobre a situação. 

O megaprojeto Vía Parque Rímac é um investimento de US$ 703 milhões firmado em 2009. Aos shipibo de Cantagallo disseram que poderiam desenhar suas próprias moradias e com ajuda de um arquiteto foi elaborado um plano preliminar do novo assentamento, com pequenas casas para as famílias. As moradias estariam localizadas ao longo de uma linha representando o corpo de uma serpente anaconda, com uma praça principal na parte que corresponde à cabeça. A anaconda é um animal sagrado para a cultura shipiba e construir um assentamento de acordo com o corpo dessa serpente só expressaria sua cosmovisão. O projeto foi desenvolvido há vários anos e, desde então, ninguém chegou a consultar os habitantes de Cantagallo sobre suas futuras moradias, unicamente para anunciar algumas novidades sobre a realocação. A informação com frequência era comunicada por pessoas não identificadas, sem documentos ou provas. 

A anunciada transferência para San Juan de Lurigancho deve ser realizada de imediato, já que não somente o solo abaixo de Cantagallo está sendo extraído pelas escavadoras, mas que, a partir de 1º de janeiro de 2015, uma nova gestão ingressará na municipalidade. A prefeita Villarán perdeu as eleições de 05 de outubro para Luis Castañeda Lossio, que governou Lima entre 2003 e 2010. 

Os shipibo têm pouco controle sobre a situação, mas as coisas poderão mudar. Os indígenas asseguram que só quando as casas em Campoy estejam terminadas poderão abandonar Cantagallo. E, até agora, não há nenhuma moradia construída. 

No entanto, alguns integrantes da comunidade estão muito otimistas: "A única coisa que falta agora é o título de propriedade e então teremos novas casas, nos mudaremos de lá e tudo será melhor”, exclamou Olga Mori Díaz, residente de Cantagallo. 

O novo assentamento poderá levar a uma maior marginalização e vulnerabilidade social, ou a una melhora, dependendo de como os funcionários resolvam esse assunto e envolvam a própria comunidade em decisões, por exemplo, relacionadas com as moradias. Então, os shipibo uma vez mais empacotarão seus pertences para transferirem-se para longe do lugar que escolheram, deslocados por pessoas que estão acima deles economicamente, simbolicamente ou pela força, tal como tem sido com frequência em sua história recente. Não obstante, depois de 14 anos na cinzenta Lima, o otimismo que trouxeram de Ucayali ainda prevalece. 

*Maija Susarina es graduada en Antropología Social y Cultural por la Universidad Libre de Berlín y actualmente se encuentra llevando estudios de maestría en la misma universidad. Hizo su pasantía en Comunicaciones Aliadas durante el segundo semestre del 2013.

 

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=ed80be7e22f987619ac49099673ad49f&cod=14725


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