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Entrevista: Kuznick - EUA, Novo Epicentro Mundial do Coronavírus

31.03.2020
 
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Entrevista: EUA, Novo Epicentro Mundial do Coronavírus

"Governo em guerra com a ciência desde que Trump tomou posse":  Kuznick

 

Em mais uma entrevista exclusiva a Pravda.ru, o internacionalmente renomado historiador americano Peter Kuznick fala do profundo drama vivido em seu país. Mídia, Trump "mentiroso patológico", neoliberalismo, "indústria farmacêutica mesquinha e motivada pelo lucro", contágio exponencial, crise socialm economia, relações internacionais, perspectiva: longa conversa, leitura obrigatória em um dos momentos mais criticos da historia da humanidade

 

 

Edu Montesanti: Obrigado como sempre, historiador Peter Kuznick, por juntar-se a nós em publicações sobre  importantes  assuntos globais. Descreva a situação em que o senhor se encontra com a família, a situação geral nos Estados Unidos, e o estado de espírito dos americanos.


Prof. Dr. Peter Kuznick: Obrigado, Edu, pela oportunidade de comunicar-me com seus leitores, especialmente os da América Latina que ainda não têm sido tão afetados quanto partes da Ásia, Europa e América do Norte, apesar de relatos sobre o Brasil, a Bolívia e outros lugares fazem-me temer que o pior venha em breve.


Minha esposa e eu temos sorte. Eu estava dando na Espanha, onde temos muitos amigos queridos, por cerca de dez dias quando começamos a receber mensagens urgentes de nossas filhas para que voltássemos para casa imediatamente. Trump anunciou que estava encerrando voos da Europa para os EUA.


Havia muita confusão sobre o que isso significaria. Então, interrompemos nossa visita por alguns dias, pegamos um vôo de Madri para Londres e, posteriormente, voamos de Londres de volta para Washington D.C. Chegamos pouco antes do caos, no dia seguinte, nos aeroportos.


Estamos em quarentena desde então. Havia pouca preocupação na Espanha antes de partirmos. Isso mudou rapidamente nas 24 horas seguintes. Agora, a situação é bastante trágica.

Aqui nos EUA, a situação está piorando a cada momento. A maioria das pessoas leva isso muito a sério e fica dentro de casa. A economia, em sua maior parte, paralizada.


Na American University, como em quase todas as faculdades e universidades, as aulas foram canceladas pelo resto do semestre. Passamos a ensinar remotamente on-line. A universidade forneceu ampla orientação sobre como fazê-lo. Eu estava bastante apreensivo inicialmente. Só estou dando uma aula neste semestre, mas é necessário mostrar vários clipes de filme que discuto com os alunos. 

 

É altamente interativo. A universidade nos forneceu opções no Blackboard e no Zoom. Dei minha primeira aula alguns dias atrás. Depois de praticar horas, consegui conduzir a aula sem problemas pelo Zoom. Foi ótimo. Os alunos estavam empengados. As discussões foram animadas. A tecnologia funcionou perfeitamente. Minha ansiedade mostrou-se injustificada. O feedback dos alunos depois, foi positivo.


Embora isso não substitua um ambiente íntimo de sala de aula, é administrável em uma situação de crise como a que enfrentamos agora, na qual as comunicações não são interrompidas. Mas exige que os alunos tenham acesso a computadores ou smartphones e funcionem na Internet. Uma das alunas conseguiu baixar gratuitamente cópias de todos os livros e artigos que designei para o semestre e os distribuiu para a turma.


Os estudantes, principalmente na faixa dos 20 anos, não fazem parte do grupo de alto risco mas muitos dos pais e avós, sim. Alguns dos pais estão na linha de frente nas profissões médicas, e outras atividades. Eles estão claramente preocupados, e deveriam estar mesmo. Uma mãe é responsável por radiografar pacientes com coronavírus em uma grande instalação médica de Nova York, que está ficando sem máscaras. Outros contam histórias semelhantes.


Também temos outras preocupações na universidade. Nossa presidente, Sylvia Burwell, foi secretária de Saúde e Serviços Humanos no governo Obama e está qualificada de forma única para lidar com uma crise como essa. Ainda assim, o corpo docente mobilizou-se para garantir que todos os funcionários da universidade estejam protegidos, incluindo trabalhadores de serviços de alimentação, tecnicamente empregados por contratados externos e, portanto, sob risco de perder o emprego.


Também nos esforçamos para garantir que os prazos para optar por alternar as opções de classificação para Aprovado/Reprovado sejam eliminados, para que possamos aliviar parte da ansiedade dos alunos devido ao modo como suas vidas foram interrompidas.

 

 

Como o senhor avalia a cobertura da mídia dos Estados Unidos sobre o coronavírus em seu país?

A divisão habitual da mídia tem persistido durante a crise. A mídia de direita - Fox News e certas rádios - tem se desgraçado, como sempre. Seguiu cegamente a liderança do governo Trump, e descartou a crise alegando tratar-se de uma "farsa", ou uma conspiração de esquerda para destruir a presidência de Trump.


Os Rush Limbaughs, os Bill O'Reillys e os Sean Hannitys, mais influentes difusores de boatos reacionários, lideraram os ataques. É difícil saber se eles receberam ordens de Trump de Trump ou foi o contrário, mas espalharam dois meses de mentiras sobre uma série de situações.


Sabemos, por estudos anteriores, que as pessoas que assistem Fox sabem menos sobre o mundo que as que não assistem TV nem leem jornais. Tal foi o caso, novamente, nesta crise. Desta maneira, até muito recentemente, a maioria dos telespectadores da Fox disseram aos pesquisadores que eles pensavam que havia uma crise exagerada, e que não estava preocupada.


A mídia "liberal" ou, digamos, "corporativa" - CNN, MSNBC e outras redes - tem sido mais responsável, mas não discute as maneiras pelas quais a economia neoliberal, a ganância corporativa, o crescente hiato entre os obscenamente ricos e o resto da sociedade, um sistema de assistência médica completamente obsoleto, uma indústria farmacêutica mesquinha e motivada pelo lucro que cobra quantias ultrajantes por medicamentos, e um estado de segurança nacional que defende o Império com um vasto arsenal nuclear de 800 bases militares no exterior, foram incapazes de estabelecer condições prévias para a crise atual.


Esses meios de comunicação, bem como jornais como The New York Times e The Washington Post, pelo menos, fizeram um esforço dentr do considerado jornalismo responsável. Mas eles lançam pouca luz sobre as reais causas da crise, e não fornecem o contexto histórico. Eles a tratam como uma crise de Trump. Embora Trump mereça sua parte justa de culpa, como discutirei em um minuto mais adiante, o problema com a resposta americana é mais profundo. Muito, muito mais profundo.


A mídia progressista tem tido desempenho muito melhor em dizer a verdade, mas seu alcance nos Estados Unidos é, infelizmente, muito limitado.

 

 

O presidente Donald Trump tem sido criticado por muitos devido à omissão, segundo os críticos. Muitos o culpam pela disseminação do vírus em todo o país, em um período de tempo muito curto. Sua visão, por favor, professor doutor Kuznick.

 

Donald Trump é um palhaço, estúpido, ladrador de carnaval, mentiroso patológico, ignorante de primeira classe, autopromotor narcisista desprovido de um mínimo de humanitarismo ou empatia.


Ele mentiu sobre a gravidade da crise durante meses, recusou-se a agir até que o mercado de ações começasse a afundar. Então, percebeu que a reeleição seria ameaçada se não fizesse algo. Assim, começou a aparecer em briefings diários. nos quais tentava conter os temores que se espalhavam através de uma conversa alegre, não científica, tentando parecer presidencial.


Ele foi aplaudido pelas coisas positivas que os prefeitos e governadores do país haviam feito, e falhou em tomar as ações ousadas que corrigiriam a absoluta falta de preparação do país sob sua assistência.


Os briefings diários se transformaram no reality show de Trump. Eles substituíram seus comícios. Os médicos especialistas que aparecem com ele, como o dr. Anthony Fauci, precisam corrigir constantemente suas distorções. Mas ele consegue convencer os americanos ingênuos de que  é um presidente "em tempos de guerra", que assumiu o comando. Nada poderia estar mais distante da verdade.


Seu desempenho tem sido vergonhoso. Ele continua minimizando a seriedade da situação, enquanto fala sobre voltar ao normal na Páscoa, abordagem que a maioria dos especialistas acha que seria desastrosa no momento em que novos casos continuam fora de controle. Ele diz as coisas mais estúpidas e ignorantes. 

 

Por exemplo, declarou: 

 

"Você não pode comparar isso com 1918. Era uma gripe; se você a pegava, tinha a chance de 50 por cento, ou algo bem perto disso, de morrer".


Na realidade, a taxa de mortalidade para a pandemia de influenza de 1918 foi de 2,5%. A taxa de mortalidade por coronavírus, de acordo com a OMS, é de 3,4%. Ele tenta normalizar a situação atual falando de todas as pessoas que morrem todos os anos de gripe, mas não menciona que a taxa de mortalidade por gripe é de 0,1%, uma pequena fração da taxa de coronavírus.

Em resposta ao fato de os Estados Unidos serem pateticamente lentos para começar a testar, ele se vangloria de que o país testou mais pessoas do que qualquer outro, incluindo a Coréia do Sul. Ao fazer isso, ele não menciona que os EUA têm mais de seis vezes a população da Coréia do Sul.


De acordo com o COVID Tracking Project, em 25 de março os EUA testaram 367.710 pessoas em comparação com as 357.896 da Coréia do Sul, o que significa que os EUA testaram um em cada 900 residentes, enquanto a Coréia do Sul testou um em cada 144. No entanto, apesar de suas constantes mentiras, exageros e declarações enganosas, seus índices de aprovação continuam subindo enquanto ele deve ser exposto à fraude que representa.


E todas as redes continuam proporcionando-lhe duas horas por dia para seus comícios de autopromoção. As pessoas precisam se lembrar de que este é um governo em guerra com a ciência desde o dia em que Trump assumiu o cargo. Isso ficou mais evidente em seu tratamento aos cientistas climáticos, que ele amordaçou com sucesso. O que se estendeu a todos os que apoiaram regulamentos ambientais, segurança no local de trabalho e pesquisa médica.


Ele não perdeu tempo em eliminar o departamento que lidava com pandemias. Ele enfraqueceu os especialistas em todos os setores, substituindo muitos por pessoas que compactuavam com seu desprezo pelo conhecimento, pelas agências reguladoras e pela segurança pública. Os cientistas deixaram o governo federal massivamente.


Não é de se admirar, considerando os nomeados pelo Gabinete tais como a secretária de Educação Betsy Devos, uma feroz defensora dos cheques escolares que abertamente despreza as escolas públicas, o secretário de Energia Rick Perry, que solicitou a eliminação do Departamento de Energia e ficou chocado ao saber que seu departamento supervisionava instalações nucleares do país, o secretário do Interior Ryan Zinke, que pressionou pelo aumento da perfuração de petróleo, gás e mineração de carvão em terras públicas, o chefe da Agência de Proteção Ambiental Scott Pruitt, que rapidamente prejudicou os programas de proteção ambiental da agência, os secretários de estado Rex Tillerson e Mike Pompeo, que advocaram pela redução da força de trabalho de sua agência, e pela minimização da diplomacia.


Em uma das medidas mais absurdas de Trump, ele nomeou o vice-presidente Mike Pence para chefiar a equipe do governo de resposta ao coronavírus. Fora os membros da família de Trump, seria difícil encontrar alguém menos qualificado. O desdém de Pence e a ignorância da ciência são lendários. Como os outros membros deste governo, ele desqualificou a mudança climática como "mito", argumentando que "a Terra está realmente mais fria hoje, do que há 50 anos".


Ele rejeita a teoria da evolução, dizendo a colegas representantes do Congresso: 

 

"Apenas a teoria do projeto inteligente fornece alguma explicação remotamente racional (sic) para o universo conhecido". 

 

Ele acredita que "fumar não mata"; "os preservativos são uma proteção muito, muito ruim contra doenças sexualmente transmissíveis"; "Os Estados Unidos têm o ar e a água mais limpos do mundo"; e "orar por isso" foi a melhor solução para o surto de HIV no estado de Indiana na década passada.

 

 

O presidente Trump, finalmente, aprovou nesta sexta-feira (27) a Lei de Produção da Defesa depois da recusa em invocá-la contrariando inúmeros clamores para colocá-la em prática. Trata-se, a seu ver, professor Kuznick, de ferramenta importante para salvar vidas e impedir esta disseminação dramática do coronavírus nos Estados Unidos, uma vez que os equipamentos de saúde são extremamente escassos em seu país?

 

Trata-se de um primeiro passo necessário. Trump possui autorização, mas recusou-se por muito tempo em agir de acordo com esta possibilidade, devido ao medo de mostrar que o governo pode resolver um problema, melhor que os capitalistas.


Ele diz, da maneira mais idiota, que transformaria os EUA na Venezuela. Enquanto isso, as pessoas estão morrendo [nos Estados Unidos] por falta de testes, falta de ventiladores, falta de máscaras, número lamentavelmente inadequado de leitos de UTI e falta de outros dispositivos de proteção desesperadamente necessários.


Qualquer pessoa com alguma capacidade de visão, poderia ter previsto o que ocorreria nos meses sunsequentes antes de Trump agir. Os especialistas estavam soando alarmes, pelo menos, em janeiro. No entanto, Trump garantiu aos americanos que a crise foi exagerada, um "embuste" a qual o país estava totalmente preparado para enfrentar. 

 

Em 17 de março, Trump declarou:


"Isso é uma pandemia. Percebi que era uma pandemia muito antes de ser chamada de pandemia."

No entanto, quando um repórter da CNBC perguntou a ele em 22 de janeiro se "se preocupa com uma pandemia", ele respondeu:


"Não, de jeito nenhum. Temos tudo sob controle. Trata-se de uma pessoa que vem da China, e nós a temos sob controle. Vai ficar tudo bem."


Em 26 de fevereiro, ele disse em entrevista coletiva na Casa Branca:


"Em breve, estaremos em cinco pessoas. E poderíamos estar com apenas uma ou duas pessoas no futuro próximo. Por isso, temos tido muita sorte. "

No dia seguinte, ele anunciou:


"Isso vai desaparecer. Um dia - é como um milagre - desaparecerá."


Trump insiste que a Lei de Produção de Defesa não é necessária, porque as empresas americanas estão voluntariamente tomando medidas, e os suprimentos estão a caminho. Talvez isso aconteça em um futuro distante, mas a crise está aqui agora, e só piora.


O governador de Nova York, Andrew Cuomo, diz que precisa de 30 mil respiradores e que a FEMA ofereceu 400 do estoque federal de emergência. Cuomo quer saber quem dirá aos outros 29.600 doentes que eles terão que morrer, como resultado da escassez.


No entanto, Trump afirma que está fazendo um trabalho "perfeito", e se dá um tapinha nas próprias costas por parar de viajar para a China.

 

 

Dada a situação atual, diante da expansão exponencial do coronavírus que torna os Estados Unidos novo epicentro da quantidade de contagiados e a resposta de Trump ao COVID-19 até agora, como isso afetará a economia dos Estados Unidos e a vida no país no futuro próximo?

 

O mercado de ações está se recuperando um pouco no momento em resposta à ação agressiva do Congresso, mas a economia básica está sofrendo um grande golpe.


Surgiram novos desempregados, e a quantidade assusta: 3,3 milhões de novos solicitantes de seguro-desemprego somente na semana passada, com mais a caminho.


As pessoas estão sofrendo. A estatística geralmente citada é que 40 por cento dos americanos não conseguiam chegar a 500 dólares em caso de emergência. Mais da metade da população vive de salário em salário.


Como Sanders, Warren e alguns outros democratas progressistas lutaram para proteger os trabalhadores, a legislação atual oferecerá alguma proteção temporária. Mas conseguir a ajuda necessária para indocumentados, sem-teto e pobres será muito difícil. O desemprego disparará.


As perspectivas econômicas de longo prazo são realmente sombrias. Mas podemos ter certeza de que os líderes corporativos e os banqueiros serão bem tratados, como na recessão de 2008.

 

 

O que o senhor pode dizer sobre a economia mundial como um todo? Muitos estão dizendo, inclusive o FMI, que a atual crise impactará mais fortemente a economia global que a recessão de 2008. Eu mesmo prevejo, agora, um cenário mais dramático para o futuro próximo que a Grande Depressão de 1929 causou ao mundo nos anos subsequentes. Sua opinião, por favor, Professor Doutor Peter Kuznick.

 

Estudei a Grande Depressão longamente. O desemprego nos EUA superou 25 por cento. A produção industrial despencou 40 por cento. A economia agrícola entrou em colapso. As condições foram deploráveis por muitos anos. Impactos semelhantes foram sentidos em todo o mundo.

 

Curiosamente, a União Soviética saiu-se muito melhor do que o Ocidente capitalista. Escrevi sobre isso em meu primeiro livro, Além do Laboratório: Cientistas como Ativistas Políticos nos Estados Unidos dos Anos 30 [original: Laboratory: Scientists as Political Activists in 1930s America]. Se mergulharmos em tais profundidades, dependerá da seriedade da resposta global.

 

Estamos vendo esforços animadores de controle, após desastres iniciais na China e na Coréia do Sul. O Japão tem mantido as taxas de transmissão relativamente baixas até o momento, embora os números mais recentes de Tóquio sejam preocupantes. 

 

O Vietnã tomou medidas animadoras. Mas outros países como Itália, Espanha e Estados Unidos, que não responderam agressivamente, estão em uma situação muito mais difícil. E alguns, como Hong Kong, que se saíram bem inicialmente, baixaram a guarda muito rapidamente, e estão tendo uma séria recaída.

 

A questão é se os países vão ou não se comportar de maneira inteligente. Quando Trump diz desejar que a economia volte ao normal em pouco mais de duas semanas, esta é a receita para um desastre. A maioria dos especialistas teme a suspensão temporária, seguida por uma segunda onda de infecções no próximo outono ou inverno.

 

Mas isso poderia acontecer muito antes do previsto, se o distanciamento social e outras precauções forem eliminadas prematuramente. As perspectivas de uma vacina antes do verão de 2021 são escassas. Os tratamentos eficazes ainda são incertos.

 

Os efeitos econômicos de longo prazo são muito difíceis de prever. E tenho uma grande preocupação com países como a Índia. As condições estão maduras para um resultado terrível. Dei três longas palestras na Índia nos últimos dois anos, e presenciei o modo como as pessoas vivem. A falta de moradia é galopante. O saneamento é primitivo. A pobreza é onipresente. A superlotação, universal. E os cuidados de saúde são piores que inadequados. Modi está exigindo que as pessoas se mantenham em quarentena e permaneçam dentro de casa por 21 dias, mas a infraestrutura para apoiar essa população tão vasta e empobrecida simplesmente não existe.

 

Ou veja o Irã, que já está sofrendo sob as condições opressivas impostas pela cruel política de sanções dos EUA. Trump endureceu sobremaneira as sanções desde o início da crise. Já vi estimativas de especialistas médicos iranianos, de que 3,5 milhões de pessoas poderiam morrer se o regime de sanções bárbaras não for suspenso.

 

Muitos de nós tentam exercer pressão sobre Trump para aliviar esse fardo injustificado ao povo iraniano, mas é claro que ele se recusa a consentir.

 

 

Como o COVID-19 afetará as relações internacionais?


A crise já está tendo um efeito amplamente negativo nas relações internacionais. Exacerbou as tensões entre os EUA e a China.


Os chineses subestimaram a seriedade no começom e cometeram muitos outros erros. Mas Trump, incapaz de frear sua xenofobia e agir como presidente por um minuto que fosse, foi contra todos os conselhos de especialistas ao classificar este mal como o "vírus chinês".


De fato, ele usou seu próprio mau-caratismo para riscar o vírus "corona" nos discursos que seus consultores escreveram para ele e o mudou para o vírus "chinês". Pompeo chama isso de "vírus Wuhan". O ex-estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon, que declarou o governo chinês "uma ameaça existencial ao povo chinês e ao mundo, não apenas aos Estados Unidos", o chama de "vírus do PCC".


Os chineses, por sua vez, se envolveram em uma guerra de propaganda semelhante quando o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, twittou "pode ser o Exército dos EUA que trouxe a epidemia para Wuhan", quando 300 soldados dos EUA participaram dos Jogos Militares de Wuhan de outubro de 2019, uma alegação pelas quais as evidências são reduzidas, na melhor das hipóteses, e provavelmente não têm mais credibilidade do que as alegações da Primeira Guerra Mundial de que os alemães foram responsáveis por espalhar a gripe "espanhola" nos Estados Unidos.


Trump já havia criado uma tremenda tensão entre os EUA e a China, com suas guerras comerciais e políticas anti-chinesas. Foi lamentável, mas não surpreende que os chineses tenham negado o acesso a representantes do Centro de Controle de Doenças dos EUA ou que os dois países tenham expulsado recentemente os jornalistas um do outro.


As insultos racistas de Trump levaram a tantos ataques contra americanos asiáticos que até ele foi forçado a atenuar seu fanatismo. Muitos americanos ficaram chocados ao descobrir até que ponto os EUA dependem da China para produtos essenciais, como drogas, máscaras e outros equipamentos de proteção, ventiladores e outros dispositivos médicos.


Os chineses, por sua vez, transformaram uma situação embaraçosa em uma grande vitória de propaganda. Agora que as condições parecem ter melhorado na China, começaram a fornecer médicos, aconselhamento e dispositivos médicos, e os equipamentos de proteção necessários ao Irã, Sérvia, Espanha, Grécia, Polônia, Libéria, Camboja, Filipinas, República Tcheca e Itália.


O presidente Xi disse ao primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte que esperava construir uma "estrada de seda para a saúde". Líderes italianos e sérvios lamentaram que nenhum de seus aliados da UE tenha levantado um dedo ao pedir ajuda. O presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, afirmou que a idéia de "solidariedade europeia ... era um conto de fadas".


Os EUA podem ter desempenhado esse papel de liderança uma vez. Isso não acontece mais. É isso, e não armas, tropas e bases militares, que constituem a liderança global no atual mundo multipolar. E os EUA demoraram muito a aprender essa lição.


Curiosamente, a pequena Cuba, ao contrário dos EUA, mais uma vez deu o exemplo, enviando equipes de médicos para os países necessitados.

 

 

Dentro de uma perspectiva histórica, quanto o coronavírus representa uma ameaça para a humanidade? Muitos disseram que é o pior dano global, desde a Segunda Guerra Mundial.


As duas principais ameaças existenciais à existência continuada de vida em nosso planeta continuam sendo a ameaça nuclear e as mudanças climáticas.


Mas esse novo coronavírus é no mínimo uma chamada de ativação planetária e potencialmente um trocador de jogos global. Os estados de segurança nacional e os complexos industriais-militares, com seus militares inchados e guerras intermináveis, já foram justificados, falsamente em minha opinião, com o argumento de que protegiam as nações dos inimigos externos.


Hoje deveria ser óbvio que as ameaças que realmente enfrentamos são de um tipo diferente. A questão é como as pessoas do mundo criarão coletivamente as condições sob as quais podemos prosperar juntos. Claramente, um mundo em que as oito pessoas mais ricas têm mais riqueza do que os 3,8 bilhões de pessoas mais pobres, não é viável nem tolerável. Somos uma comunidade global.


O coronavírus deixou bem claro o quanto estamos interconectados. O que começa em Wuhan se espalha para os cantos mais distantes do planeta. Se as pessoas em Omaha querem proteger seus filhos, cabe a eles garantir que as pessoas a 10.000 quilômetros de distância tenham comida, abrigo, assistência médica, qualidade do ar e saneamento adequados.


Não podemos mais permitir que a economia global seja guiada por lucros a curto prazo, ignorando os custos da degradação ambiental e do planejamento social. Não podemos mais permitir que políticas de austeridade neoliberal destruam os sistemas nacionais de saúde e as proteções ambientais.


Devemos trabalhar juntos para resolver os problemas do desmatamento, suprimento inadequado de alimentos e água e aquecimento global. Isso deve ser feito em escala global. Não podemos mais desperdiçar trilhões de dólares em nossos militares.


Fiquei feliz em ver que uma vítima do coronavírus foi DEFENDER-Europe 20, os mais recentes jogos de guerra anti-russos da OTAN que foram cancelados quando a Alemanha se retirou por causa dos riscos à saúde. Dois dias antes, em 11 de março, a Noruega cancelou o Cold Response, um jogo de guerra envolvendo 15.000 soldados da OTAN e aliados, devido à mesma preocupação com o coronavírus. O movimento de tropas dos EUA foi interrompido por sessenta dias, enquanto o coronavírus se espalha entre as tropas.


Se a crise atual nos leva a perceber a falência de nossos comportamentos passados e competições estúpidas e nos faz perceber nossa conexão humana, a pandemia será uma dádiva de Deus.


Se, no entanto, levar, como parece ser em muitos lugares, a preços elevados, especulação, repressão, militarismo e aumentar a divisão entre ricos e pobres, pode levar ao futuro distópico que estamos lutando difícil de prevenir.


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