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Seremos todos Minaretes - do terror à fé

25.03.2019
 
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Seremos todos Minaretes - do terror à fé

Francirosy Campos Barbosa[1]

A sexta-feira, dia 15 de Março de 2019, será sempre lembrada como o dia em que 50 muçulmanos foram assassinados cruelmente dentro de duas mesquitas na cidade Christchurch, Nova Zelândia, mas há ensinamentos diante da dor do outro,principalmente quando este outro é um crente muçulmano. Morrer em uma mesquita em dia de oração (Salat Jummah - oração de sexta-feira) em uma situação como esta torna a todos os crentes - mártires.

A principal atividade do muçulmano é adoração a Deus, não há nada mais importante, nem família, amigos, bens materiais. A Adoração é central na vida do crente, por isso, a morte em adoração é um bom sinal, é uma dádiva. Se o muçulmano pudesse escolher certamente escolheria morrer em Meca, cidade sagrada do Islam, para onde vão os Hajjis e Hajjas durante o mês da peregrinação, quinto pilar do Islam. Talvez, por isso, alguns peregrinos me relatavam a sensação de morte quando realizavam o ritual, pode ser também, o desejo inconsciente que lá seria o melhor lugar para morrer e não só pela mudança espiritual que o ritual pode proporcionar. Morrer em adoração é uma morte abençoada.

A fé é algo que só reconhece na paciência

Disse Abu al-Darda': "A plenitude da fé está em suportar com paciência aquilo que ela impõe (hukm) e em sentir-se contente com o destino que ela reservou para ti" (KM)

Ser paciente e satisfeito diante de uma calamidade sinaliza o grau de entrega a Deus, por isso, que nos deparamos diante da imagem de um marido que mesmo ao perder a esposa, perdoa o assassino; ou da esposa que perde o marido e filho e agradece a Deus, sorri, porque tem a certeza que eles estão no paraíso. Paciência (sabr) no Alcorão foi mencionada 90 vezes, e sempre aparece de forma imperativa: Tenha Paciência!

"Amparai-vos na paciência e na oração."(Surata 2, 45)

Lembro-me que há alguns anos atrás um Sheik havia perdido seu filho em uma morte trágica, quando fui conversar com ele tempos depois ele me disse com semblante tranquilo: "Eu não discuto com a vontade de Allah". Essas palavras nunca saíram do meu pensamento e me faz hoje refletir, que estar satisfeita com aquilo que Allah nos dá é o melhor dos sentimentos, mas é algo que o crente deve trabalhar constantemente, pois não é fácil, como alguns dizem: desapegar do material, assim como, ter a consciência de que não se controla nada nesta vida são situações difíceis de realizar. A tranquilidade, a satisfação é saber que aquilo que se tem é desejo dEle e não nosso.

Disse o Profeta: "Quando Deus ama a um de seus servos, envia-lhe tribulações. Se ele as suporta pacientemente, é favorecido. E enfrentá-las alegremente é sinal de que é eleito de Deus" (IU).

 

O crente muçulmano deve agradecer a tristeza e a alegria, deve agradecer sempre, então é comum ouvir de sua boca sempre o sonoro Alhamdulillah - Graças a Deus. Há várias passagens no Alcorão que vão repetir "Na adversidade, a facilidade", se aprende com o sofrimento, com a tristeza, tornando o crente satisfeito em qualquer situação, porque esta é a vontade do Criador.  Tudo que acontece é por determinação de Deus, um dos pilares da fé é justamente acreditar no destino - no decreto divino. "Se esforçar é de nossa parte, mas concretizar é com Allah o Altíssimo", repetem muitos muçulmanos, porque o Decreto final é de Deus e não da vontade do homem. A morte faz parte disso.

Não é dado a nenhum ser morrer, sem a vontade de Deus; é um destino prefixado. E a quem desejar a recompensa terrena, conceder-lha-emos; e a quem desejar a recompensa da outra vida, dar-lha-emos, igualmente; também recompensaremos os agradecidos(Alcorão 3:145)

 

 

            Se os muçulmanos não estão livres do Decreto, o Profeta e Mensageiro do Islam - Muhammad SAAS também não, este sofreu em seu leito antes de morrer, confirmando que até mesmo as pessoas escolhidas para transmitir a mensagem são as que mais sofreram em sua missão. O sofrimento é a lapidação da alma. É pela dor que a luz entra diria Rumi. Os imames Al-Bukhari, Muslim e Ahmad relataram que Abdullah Bin Mas'oud disse:

 

"Eu fui ver o Mensageiro, quando ele estava com dor, e eu toquei nele com a minha mão e disse: "Oh, Mensageiro de Deus, você está com dor severa." O Profeta respondeu: "Sim, eu estou sofrendo como até dois homens de você." Então eu disse: "Você tem duas vezes a recompensa?" Ele disse: "Sim", então ele disse: "Um muçulmano que é perturbado por uma calamidade; uma doença ou menos do que isso, Allah vai apagar os seus pecados como a árvore perde as folhas."

 

 

 

Do terror à fé nos ensina que nesses momentos de calamidade, para os muçulmanos, Allah age a favor da humanidade, há sinais a serem decifrados, nenhuma tristeza vem sem uma recompensa. Podemos observar ações importantes dentro de mesquitas, como a presença de não muçulmanos, e sobretudo, a auto reflexão de cada muçulmano sobre a sua fé, a sua crença, e o quanto estão verdadeiramente preparados para serem entregues à vontade de seu Criador. Em um mundo tão adverso, cheio de ódio e violência que ataca à raça, à classe, ao gênero e ao pertencimento religioso de pessoas é necessário que a sociedade se levante contra esta onda de ódio xenófaba, islamofóbica. É preciso que todos sejam minaretes como foram os cidadãos da Nova Zelândia dando exemplo de humanidade e compaixão ajudando a comunidade muçulmana local a se reerguer e manter firme sua fé. Essas pessoas tornaram-se verdadeiros Minaretes - chamando para oração, para a mesquita. Neste momento em que o medo afeta a todos, nada melhor, que abraços generosos e o sentimento de pertença sendo valorizado. Que os nossos minaretes internos não deixem de clamar por justiça, amor e compaixão. O mundo que nos rodeia é plural e precisa ser acolhido de forma generosa e ampla sem discriminações, nem dores seletivas.


[1] Antropóloga, Livre Docente no Departamento de Psicologia, FFCLRP/USP, coordenadora do GRACIAS - Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes. Autora do livro: Performances Islâmicas em São Paulo: entre arabescos, luas e tâmaras. São Paulo, Edições Terceira Via, 2017; diretora do documentário: Allah, Oxalá na trilha Malê, 30min, LISA/USP,2015.

Foto: https://pt.wikipedia.org/wiki/Terrorismo#/media/File:Visit_of_the_Ku-Klux_1872.jpg

 


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