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Precisamos falar de Stalin

24.07.2018
 
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Precisamos falar de Stalin

Quanto tempo será preciso esperar para se ter um distanciamento crítico que nos permita julgar com isenção um fato histórico e seus principais personagens? 

A Revolução Russa já completou 100 e anos e um dos seus principais personagem, Iossif Vassarionovitch Dzhugashvili, ou simplesmente Stalin, morreu há 65 anos, mas tanto a revolução quanto um dos seus lideres, ainda servem hoje para motivo de controversias. 
Quando a Revolução Russa de 1917 foi vitoriosa, inaugurando o primeiro sistema de governo assumidamente socialista no mundo, seus grandes arquitetos eram Lenin e Trotsky. Stalin era então um modesto coadjuvante nesse processo.


Nascido em Gori, na Georgia, até a vitória da Revolução, o cargo mais importante que ocupou tinha sido o de editor do Pravda (A Verdade) junto com Molotov, a partir de 1912, quando o jornal passou a ser editado em São Petersburgo. 


Com a vitória da Revolução, Stalin aproximou-se de Lenin e lentamente foi assumindo cargos cada vez mais importantes na hierarquia do Partido Comunista, até se transformar no seu poderoso Secretário Geral a partir de 1922. 


Logo após a Revolução de 1917 o país estava destroçado pela longa guerra contra a Alemanha, as invasões externas e pela resistência armada de grupos fieis ao antigo regime do Czar. Para enfrentar esta situação, Lenin e seus companheiros decretaram o chamado "comunismo de guerra", com o confisco de parte das colheitas para distribuição de alimentos nas cidades e a estatização das indústrias.


Quando se deu conta de que esta política estava levando o país à ruína, com a quebra sucessiva das safras agrícolas e com a resistência dos camponeses em entregar parte de suas colheitas, Lenin lançou a chamada Nova Política Econômica - NEP - que de alguma forma fez retornar ao país determinadas práticas capitalistas, principalmente no campo.
No dizer de Lenin, era preciso dar um passo atrás para dar dois para frente, mais adiante.
Nesse momento, começam suas divergências com Stalin, que iriam se acentuar com a doença de Lenin e sua falta de condições físicas de assumir todas as responsabilidades pelo Estado, abrindo espaço para crescimento de Stalin dentro do Partido Comunista.


Lenin acreditava que o desenvolvimento do socialismo e depois do comunismo era um longo processo, onde a educação democrática das massas era condição vital. 
Stalin imaginava que o processo precisaria ser acelerado com a transferência do poder das organizações de base do partido para o seu comitê dirigente e depois apenas para o Secretário Geral, excluindo os processos democráticos para a tomada de decisões como havia sido no início da Revolução.
Lenin pensava que a Revolução só se consolidaria com a vitória de revoluções socialistas em outros países da Europa Ocidental, principalmente na Alemanha.
Stalin já tinha abandonado este internacionalismo, passando a defender a ideia de uma revolução em só país.


Após a morte de Lenin, em 1924, Stalin foi eliminando, um a um, todos os seus opositores dentro da política soviética, até se tornar no seu único grande líder, posição que manteve durante mais de 30 anos.
Mesmo aqueles que estiveram mais próximos de Lenin durante a Revolução e com uma tradição maior nas lutas, primeiro contra o czarismo e depois contra os mencheviques, foram sendo postos de lado por Stalin, num processo onde não faltaram traições de todos os tipos.
Dessa forma foram expulsos da cena política figuras como Trotsky, Kamenev, Zinoviev e num episódio até hoje obscuro, o grande líder de São Petersburgo, Kirov.
O longo processo que começou com uma ditadura de classe, se transformou numa ditadura de um partido, depois de um grupo e finalmente de um só homem, Stalin.
Em 1928, ele termina com o NEP e inicia um processo de coletivização forçada da agricultura e lança os planos quinquenais de industrialização acelerada, que seus acusadores, inclusive Kruchov, que na época era o dirigente todo poderoso da Ucrânia, dizem ter causado a morte pela fome de milhões de camponeses.


Por ironia da história, foi, porém, este processo que permitiu a transformação do País numa potência mundial, capaz de enfrentar e derrotar os exércitos nazistas na Segunda Guerra Mundial.
Fora de qualquer dúvida, foi o Exército Vermelho, comandado com mão de ferro por Stalin e alimentado pela capacidade inesgotável de produzir tanques, aviões e todos os tipos de armamentos, quem conseguiu deter o avanço nazista, depois que as tropas de Hitler, conquistaram, praticamente sem grandes lutas, boa parte da Europa Ocidental.
Nessa ocasião, Stalin era um herói cantado em prova e verso não apenas pelos comunistas, mas por todos os homens que viram, com alívio, chegar ao fim o pesadelo nazista.
Aos poucos, com a "Guerra Fria", as denúncias contra as políticas de Stalin se avolumaram e de herói, ele foi transformado num grande vilão.


Milovan Djilas, que tinha sido vice-presidente da Iugoslávia após a guerra e que mais tarde se transformaria num crítico ferrenho das experiências comunistas na União Soviética e na Iugoslávia, foi um dos primeiros a criticar Stalin no seu livro Conversações com Stalin (Editora Globo - 1964) 
"Se adotarmos o ponto de vista da humanidade e da liberdade, a História não conhece déspota mais brutal e cínico do que ele. No entanto, se quisermos determinar a verdadeira significação de Stalin na história do comunismo, ele deverá ser considerado, por ora, o vulto mais grandioso depois de Lenin. Não construiu a sociedade ideal, mas transformou uma Rússia atrasada numa potência mundial e num império".


Durante anos foi chamado de "O Guia Genial dos Povos", mas a partir do famoso relatório de Nikita Kruchov, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956 ,passou a ser um demônio, alguém que, no dizer de Kruchov, "descartou o método leninista de convencer e educar e abandonou o a luta ideológica em favor da violência, repressões em massa e terror" 
Essa nova imagem de Stalin como o gênio do mal ganhou espaço na mídia ocidental e foi repetida inclusive, ou principalmente, por comunistas arrependidos.
Durante alguns anos, após 1956, tudo era culpa de Stalin, até que com o fim do comunismo na Rússia, ela passou a ser dividida com Marx, Engels e Lenin, todos vistos como mentores do que a imprensa burguesa via como o fracasso inevitável de uma utopia socialista.
Contra Stalin sempre foram feitas duas acusações básicas: a coletivização forçada da agricultura no início da década de 30, que provocou milhões de mortos e os grandes expurgos das lideranças soviéticas em 1937.
A primeira acusação procede e Stalin mesmo a admitiu publicamente num encontro com Churchill, em Moscou, no ano de 1942.


Nas suas memórias, Churchill disse que provocou Stalin sobre o tema e que ele explicou que as populações russas sofriam ciclos periódicos de fome que matavam milhões de pessoas e que era preciso aumentar de qualquer maneira a produção de grãos no país.
"Precisávamos mecanizar nossa agricultura. Quando demos tratores aos camponeses, todos se estragaram em poucos meses. Só as fazendas coletivas, que tinham oficinas, conseguiam lidar com os tratores. Mas, os camponeses não aceitavam isso. Foi preciso usar a força. Milhões de pessoas morreram. Foi assustador e durou quatro anos. Foi tudo muito ruim e difícil, mas nós, não só aumentamos largamente o abastecimento de alimentos e afastamos o flagelo da fome, como melhoramos consideravelmente a qualidade dos grãos" teria dito Stalin para Churchill.


A outra acusação contra Stalin é ter eliminado seus adversários de maneira brutal e injusta.
Realmente, Stalin eliminou seus adversários, embora hoje fique claro para os historiadores que, desde que substituiu Lenin no comando da URSS, Stalin enfrentou ameaças de golpes permanentes dos seus adversários, incluindo Trotski, Kamenev, Zinoviev, Ovsenko, Preobrajnsky, Radek, Bukarin e o marechal Tukachevky, que certamente, se vitoriosos, também não teriam poupado sua vida, como parece ser hábito na história dos golpes internos da política russa desde a época dos czares.
O fim do regime comunista acelerou a devassa nos arquivos da União Soviética e os documentos dado à luz, pareciam a confirmar a imagem de Stalin como o traidor dos ideais dos antigos revolucionários, processo que Trotsky havia iniciado, quando comandou a oposição de esquerda a Stalin, ainda dentro da Rússia e depois nos seus vários exílios.
O inglês Simon Sebag Montefiore, no seu livro a Corte do Czar vermelho, deu o aval acadêmico a todas essas críticas, numa obra que mostra Stalin como uma figura diabólica, preocupado em se manter no poder a qualquer custo, urdindo intrigas que fariam invejas aos cortesãos das casas dos Medicis e dos Borgias, no Renascimento italiano.
Posição bem diferente é a do historiador italiano da Universidade de Urbini, Domenico Losurdo, falecido em junho último, em sua obra Stalin, a História Crítica de uma Lenda Negra (Storia Critica di uma Leggenda Nera), Losurdo examina detidamente todas as ações de Stalin, desde sua ascensão à direção do Partido Comunista após a morte de Stalin, mas concentra sua análise no período mais crucial da vida na União Soviética, a partir dos planos quinzenais de desenvolvimento e da segunda guerra.


Mesmo que Stalin não seja um herói para o autor, o que fica da leitura do livro é que, sem ele, possivelmente o regime soviético não teria se consolidado a ponto de poder fazer frente à liderança exercida pelos Estados Unidos no mundo inteiro a partir do fim da segunda guerra 
Na edição brasileira do livro, os editores incluíram um ensaio do professor Luciano Canfora, da Universidade de Bari sobre Stalin em que ele diz: "Stalin esteve do lado certo da história em três dos momentos mais dramáticos na vida da União Soviética: na paz de Brest-Litovsk, em 1918, quando se colocou ao lado de Lenin e contra Trotsky, em defesa de um acordo de paz de qualquer maneira; no pacto russo-alemão, em agosto de 1939 e no acordo de Ialta, em 1945.


O primeiro, garantiu a continuidade da experiência comunista na Rússia, em meio a uma guerra civil que não dava tréguas ao novo regime; o segundo, quando fracassaram todas as tentativas soviéticas de uma frente comum dos países europeus contra o nazismo, permitiu que o conflito envolvesse inicialmente as potências colonialistas (França e Inglaterra) contra a Alemanha, dando fôlego a União Soviética para se preparar para uma guerra inevitável; o terceiro, finalmente, definindo o respeito às fronteiras resultantes da guerra, assegurou um longo período de paz na Europa, que só hoje começa a ser desmontada.


No momento em que surgem no mundo inteiro intelectuais e historiadores dispostos a discutir novamente a opção pelo comunismo - como Istvan Meszaros, Slavoj Zizek ,Alain Badiou,Pierre Broué, Jean-Jacques Marie e Jacques Rancière, entre outros - conhecer as idéias de Stalin,uma das figuras fundamentais para a instauração de um sistema político que se assumiu pela primeira vez como uma ditadura do proletariado, segundo a definição de Marx, é muito importante. Quando mais não seja, para discordar delas.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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