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Imperialismo australiano: Cão de ataque, na guerra norte-americana

22.10.2014
 

 

Imperialismo australiano: Cão de ataque, na guerra norte-americana. 21032.jpeg

Declarações recentes do primeiro-ministro australiano Tony Abbott, de que "confrontará, com cabeçada na camisa" o presidente Vladimir Putin da Rússia, na reunião de líderes do G20 em Brisbane no próximo mês, sobre a derrubada na Ucrânia do avião malaio que fazia o voo MH17 podem parecer bizarras, à primeira vista.

20/10/2014, Nick Beams, World Socialist Website (Comitê Internacional da IV Internacional)

http://www.wsws.org/en/articles/2014/10/20/pers-o20.html

Mas, longe de ser alguma espécie de explosão de 'oposição' violenta sem sentido, a fala de Abbott é manifestação de um processo para intensificar as tensões geopolíticas, especialmente o movimento dos EUA contra a Rússia, com a crescente substituição da diplomacia pelo militarismo e pela mais ativa provocação.

A expressão "com cabeçada na camisa" vem das regras do futebol australiano; é uma cabeçada no peito de jogador adversário, com intenção de derrubá-lo e risco assumido de provocar ferimento grave.

Embora a escolha do vocabulário seja obra de Abbott e nesse sentido casual, a beligerância da expressão não é casual. É expressão do aumento no papel global que o imperialismo australiano vem tendo como força avançada do impulso para guerra dos EUA - dirigido contra a Rússia e contra a China. O governo russo deixou claro que compreendia perfeitamente que, embora a voz fosse de Abbott ("desequilibrado, urgentemente necessitado de atenção psiquiátrica"), o 'recado' vinha de Washington.

A Austrália já está plenamente integrada no "pivô para a Ásia" dos EUA, contra a China. Seu papel começou a ser preparado com a derrubada do ex-primeiro-ministro do Partido Trabalhista Kevin Rudd, por golpe interno no partido em junho de 2010, orquestrado por operadores instalados dentro do partido e com laços estreitos com a embaixada dos EUA. A remoção de Rudd, que havia falado sobre a necessidade de o país acomodar-se ao crescente poder econômico da China no Leste Asiático, aconteceu logo depois da renúncia do primeiro-ministro japonês Yukio Hatoyama ("por não ter cumprido promessas de campanha, dentre as quais a relocação da base aérea dos EUA em Okinawa"), apenas poucas semanas depois de o japonês ter exposto a orientação de sua política externa, favorável a uma aproximação com a China.

Desde os eventos de junho de 2010, a política externa da Austrália tem andado exatamente sobre as pegadas dos EUA. O "pivô" para a Ásia foi anunciado pelo presidente Obama em discurso no Parlamento Australiano em novembro de 2011; e tem sido seguido por integração sempre crescente da Austrália na ofensiva militar e política dos EUA contra a China. Em novembro passado, depois que a China anunciou a implantação de uma "Zona Aérea de Defesa, com Identificação Obrigatória" incluindo os arredores das ilhas Senkaku/Diaoyu que China e Japão ainda disputam, a ministra de Relações Exteriores da Austrália Julie Bishop lançou contra Pequim uma das mais estridentes 'denúncias'.

Em Janeiro, Bishop, em contradição com a opinião política convencional, segundo a qual a Austrália seria economicamente dependente da China, insistiu que, dados os profundos laços financeiros e o nível de investimentos norte-americanos, os EUA seriam, não só o mais importante parceiro estratégico da Austrália, mas também o mais importante parceiro econômico.

Esse ano está assistindo a um crescimento na atividade política, diplomática e militar em linha com os interesses dos EUA, e que já assumiu caráter cada vez mais beligerante.

Quando o MH17 caiu, dia 17 de junho, a reação inicial de Abbott foi, de certo modo, cautelosa, lembrando que os fatos do desastre ainda não estavam esclarecidos. Mas horas depois, na sequência de uma conversa com Washington, mesmo que nenhum fato tivesse ainda sido esclarecido, Abbott distribuiu declaração em que denunciava a Rússia como agente naquele caso - posição que todo o establishment político australiano continua a manter ao longo dos últimos três meses.

Quase desde o início já se discutia se a Austrália, nação anfitriã da próxima reunião do G20, deveria cancelar o convite feito ao presidente da Rússia. O assunto foi resolvido nos bastidores da reunião do FMI no fim de semana de 11-12 de outubro, quando os EUA deixaram claro que não aprovavam a exclusão de Putin. Mas o fator decisivo foi a clara oposição dos demais membros do Grupo BRICS - Brasil, Índia, China e África do Sul - àquele movimento. A Rússia, antes, já fora excluída de reuniões do G8, e os EUA entenderam que não seria possível repetir a exclusão do G20.

Mas os EUA decidiram que a retórica anti-Rússia deve ser intensificada em todas as oportunidades. E, nisso, a Austrália tem papel único. Como potência imperialista de nível intermediário, completamente dependente estrategicamente dos EUA e sem laços nem econômicos nem de qualquer tipo com a Rússia, a Austrália está disponível para atuar como uma espécie de cão de guerra a serviço de Washington, enquanto os EUA trabalham para manter a ação de dominação global. A única área onde poderia haver algum conflito seria a China. Mas essa questão já ficou resolvida pelo golpe contra Rudd, há quatro anos.

O novo papel global do imperialismo australiano também apareceu plenamente exemplificado no total apoio que a Austrália deu às novas intervenções norte-americanas no Oriente Médio. A Austrália foi um dos primeiros países a assinar a nova "coalizão dos dispostos/desejantes" de Obama, comprometendo sua força aérea para operações de bombardeio no Iraque, além de suas forças militares especiais.

Como parte desse papel no front político e militar, a Austrália também se envolveu pesadamente no serviço de fazer calar a oposição antiguerra, inventando uma 'ameaça terrorista' depois de outra, para amplificar a suposta 'ameaça' que viria do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS/ISIL/EI). A maior operação policial na história da Austrália aconteceu dia 18/9/2014, supostamente para deter um complô do ISIS que culminaria numa decapitação pública. A ação foi freneticamente divulgada pelo Secretário de Estado John Kerry dos EUA, enquanto tentava mobilizar apoio do Congresso e internacional para a ação militar dos EUA. Os raids resultaram na prisão de apenas uma pessoa, que foi acusada da prática de ações só muito duvidosamente relacionadas a algum terrorismo.

Esse é outro aspecto chave do crescente militarismo do governo australiano, que também necessariamente manifesta processos globais - o empenho em projetar para fora do país tensões sociais crescentes.

O capitalismo australiano foi de certo modo isolado do impacto inicial da quebradeira financeira de 2008 - e por causa das conexões econômicas que mantinha com a economia chinesa em expansão. Mas agora os plenos efeitos da crise global estão chegando lá e, em alguns casos, com redobrada força, por causa do adiamento.

O boom da mineração, que foi crucialmente importante para sustentar a economia australiana já vai bem longe. Tem havido saques em minas de carvão, ao mesmo tempo em que a renda da venda de minério de ferro, que constitui 1/5 das exportações australianas e é item chave da arrecadação de impostos, está sendo duramente atingida pela queda dos preços, que só até aqui, esse ano, já chegou a 40%.

A desigualdade é crescente, os salários reais permanecem estagnados ou estão sendo cortados, e a pobreza está aumentando. Como se vê acontecer em todas as grandes potências capitalistas, o establishment político oficial é visto com crescente hostilidade por setores cada vez mais amplos da população.

Posta nesse contexto, a "cabeçada na camisa" de Abbott contra Putin é mais uma expressão do crescimento internacional do militarismo norte-americano, que tenta nos empurrar para outra guerra mundial, e que conseguirá o que tanto deseja, se não for contido pela ação política da classe trabalhadora em todo o mundo.*****

 


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