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Crise na Irlanda coloca em xeque sobrevivência da União Europeia

17.11.2010
 

As bolsas de valores europeias fecharam em forte baixa nesta 3ª feira, arrastadas pelo agravamento da crise da dívida. A bola da vez é a Irlanda, que deve registrar neste ano um déficit público de 32% do PIB, marcando um recorde para o velho continente desde o pós-guerra. A turbulência no país reforça as ameaças contra o euro e a própria União Europeia, que hoje compreende 27 países.

Os problemas na Irlanda constituem um desdobramento lógico da crise mundial do capitalismo iniciada em dezembro de 2007 nos Estados Unidos. O déficit fiscal foi causado pelo resgate de 45 bilhões de euros promovido pelo governo em benefício de cinco bancos duramente atingidos pela crise financeira e sob risco de falência.

Medo do FMI

O socorro bilionário dado aos banqueiros redundou no espantoso rombo orçamentário e despertou dúvidas sobre a capacidade do governo honrar os débitos que assumiu na operação. Em consequência, as taxas de juros cobradas ao país pela banca internacional subiram (o juro dos bônus de 10 anos chegou a 8,9% ao ano, com uma diferença de 6 pontos percentuais em relação ao que é pago pela Alemanha) e o governo sofre forte pressão para fechar um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Como sempre ocorre nessas circunstâncias, e a exemplo da Grécia, é o povo trabalhador quem está sendo chamado a pagar a crise do sistema financeiro. De acordo com informações da agência Bloomberg, a Alemanha, maior potência europeia, está pressionando o governo irlandês a recorrer à União Europeia e ao FMI, o que significa adotar medidas mais duras, como corte radical de gastos públicos, demissões, arrocho de salários e redução ou supressão de direitos trabalhistas.

O governo instalado em Dublin (capital do país) resiste, temendo a reação popular. O ministro para Assuntos Europeus irlandês, Dick Roche, ressaltou nesta terça-feira (16) que seu país pode se cuidar sozinho e não precisa de ajuda econômica do bloco ou do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Luta de classes

A rejeição ao Fundo é mais que compreensível. As receitas da instituição são amargas e contribuem para agravar a crise e exacerbar a luta de classes, como se pode ver pela Grécia, onde já ocorreram várias greves gerais ao longo deste ano contra o pacote negociado com o FMI e a União Europeia, em troca de uma ajuda duvidosa, cujo objetivo real, embora não declarado, é impedir a moratória e resguardar os lucros do sistema financeiro.

De todo modo, o governo irlandês já anunciou um "ajuste", com cortes no valor de 800 milhões de euros, que vai ter impactos negativos nos serviços sociais e na área de saúde. Esta última deve amargar uma redução de 10% no quadro de pessoal, a extinção de 6 mil cargos já foi prometida e os trabalhadores terão a jornada de trabalho aumentada.

Bem estar sob ataque

Estima-se que o sistema financeiro irlandês poderá demandar 50 bilhões de euros para fazer frente à crise. Ou melhor, para evitar a moratória. O Estado de Bem Estar Social do país, um dos mais avançados do mundo, corre o sério risco de ser desmantelado, a exemplo do que ocorre com muitos outros países da zona do euro.

Com uma população de pouco mais de 6 milhões de habitantes, a Irlanda experimentou um breve milagre entre 1995 e 2001, quando o PIB cresceu a uma taxa anual média de 9%, o que levou alguns economistas a se referirem ao país como o "tigre Celta", em analogia aos chamados tigres asiáticos. Mas a trajetória de prosperidade foi abortada pela crise de 2001 nos Estados Unidos e agora, de uma forma bem mais intensa, pela mais recente recessão mundial, que também começou na casa de Tio Sam.

Recessão

Em 2009, o PIB irlandês despencou 7,1%. Apenas em 2010, 1,1 mil empresas fecharam as portas. Nos últimos cinco anos, a taxa de desemprego passou de 3% para 13,5%. Uma em cada três pessoas com menos de 30 anos está desempregada. Segundo os especialistas, a taxa de desemprego poderia chegar a 20%, mas é amenizada pela emigração, que pode atingir 5% da população. Entre 2008 e 2009, 20 mil pessoas deixaram o país. Em 2010, foram mais 70 mil. Para 2011, a perspectiva é que o número suba a 120 mil. Milhares de brasileiros que migraram para o "tigre Celta" já estão fazendo as malas de volta.

A Irlanda não é o único nem o maior problema da União Europeia. O excesso de dívidas é um problema generalizado na zona do euro. A Grécia, que não está cumprindo a meta fiscal fechada com o FMI e deve terminar o ano com um déficit público superior a 9% do PIB, fez soar o alarme. Portugal, Espanha e Itália estão na fila da bancarrota, que também envolve vários países do leste europeu.

Dilema político

Os desequilíbrios fiscais, ampliados pela resposta dos Estados capitalistas à crise, e a assimetria econômica no continente ameaçam o euro, que voltou a cair frente ao dólar, e a própria sobrevivência da União Europeia. As políticas de ajuste fiscal (impostas para viabilizar a convergência das políticas macroeconômicas e a restrição do déficit público a 3% do PIB) tendem a agravar a situação na medida em que reduzem a demanda e obstruem o caminho da recuperação econômica.

O dilema maior em toda esta história não é econômico, mas político. As manifestações de rua evidenciam a rejeição da classe trabalhadora às medidas recessivas. O receio do governo irlandês em torno de um acordo com o FMI e UE é sintomático neste sentido. Já foi sugerido por muitos observadores que a soberania e a desobediência das nações mais vulneráveis em relação às ordens emanadas dessas duas instituições é o caminho mais seguro e menos doloroso para sair da crise financeira do capitalismo, embora isto possa inviabilizar o euro e a comunidade econômica em sua atual configuração, sob hegemonia alemã e inspiração neoliberal.

A insistência em pacotes antissociais, a pretexto de combater uma crise gerada e alimentada no sistema financeiro por um pequeno grupo de grandes capitalistas, estimula a radicalização dos conflitos sociais e a tendência do imperialismo ao reacionarismo político, revelado no crescimento da extrema direita. Infelizmente, as forças progressistas e de esquerda ainda não apresentaram uma alternativa clara e convincente ao neoliberalismo na região.

Da redação, Umberto Martins, com agências

 


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