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Obama: política externa como roleta

03.06.2015
 
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Hoje em dia, já praticamente nunca fico chocado nesse nosso negócio, mas a primeira entrevista de Obama publicada em veículo editado em árabe [embora seja editado em Londres], o diário Ashraq Al-Awsat, sim, senhor, conseguiu chocar-me.

Os EUA demos passo gigantesco para bem longe de o Irã ser afinal excluído da lista de terroristas, como parte do avanço nas conversações nucleares, e para bem perto de o Irã ser devolvido à tal lista. Tudo isso por causa de um comentário do presidente dos EUA que, com absoluta certeza, não pode ter sido comentário 'marginal', surgido de improviso.

"O Irã com certeza assume comportamento perigoso, de desestabilização, em diferentes países na região. O Irã é estado patrocinador do terrorismo" - disse o presidente dos EUA ao jornal. Adiante, a coisa ficou ainda pior. Obama usou um velho truque dos israelenses, de acusar as vítimas do crime que contra elas é cometido: Obama acusou o Irã de desestabilização, com uma lasca de terrorismo como tempero. 

O Irã, disse o presidente dos EUA apoia os grupos mais violentos na região.

Tive de me beliscar para ter certeza que não estava tendo pesadelos. Não. Os EUA, servindo-se da CIA, com dinheiro dos sauditas e do Qatar, financiam, dão treinamento e suprimentos a exércitos inteiros de terroristas na Síria e no Iraque... E o presidente Obama atreve-se a dizer, em público, que o Irã é estado patrocinador de terrorismo e terroristas. Não é possível. Quase não se acredita! 

Mas se alguém quiser conhecer rápida história dos EUA, que há décadas se servem do terror islamista, há longas, longas décadas, deve ler "E se Putin estiver dizendo a verdade?", excelente artigo de William Engdahl. Cito um parágrafo: "A Brigada Islâmica Internacional financiada por sauditas e pela CIA foi responsável por atos terroristas, e não só na Chechênia. São autores também da captura de reféns em outubro de 2002 no Teatro Dubrovka em Moscou; e pelo horrendo massacre da escola Beslan, em setembro de 2004."

Depois dos anos do primeiro Bush-Papi, é ultrajante que Obama chame o Irã de estado patrocinador de terrorismo. É, sim, ultrajante, quando ninguém conhece ainda o número preciso das vítimas do terror norte-americano e saudita. Mas britânicos, israelenses, turcos e franceses só ouvem elogios.

Quem quer que, dentro da 'equipe' de Obama, tenha redigido essa monstruosidade merece apedrejamento e açoites, e exclusão do genoma geopolítico da humanidade. Mas esse tipo de declaração é lido antes, e aprovado por gente como o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA e o 'alto comando' do Departamento de Estado. Não é possível que toda essa gente tenha entrado em surto de imbecilismo absoluto, ao mesmo tempo, no mesmo dia.

Obama causou grave dano aos EUA, num momento crítico das conversações nucleares. Permitam-me explicar. O Irã está preocupado - com muita razão, muito corretamente -, com a certeza de que o que explica o desejo dos EUA de 'acompanharem' a execução do acordo é que os EUA trabalham para tirar o máximo de (perverso) proveito do fim das sanções, a serem levantadas 'por etapas' (se algum dia forem levantadas). O Irã muito trabalha para pôr a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na função de 'acompanhante' da execução do acordo; e aceitou inspeções 'ampliadas'. Enquanto isso, no rancho sionista, Israel, do alto de seu arsenal atômico jamais inspecionado, lá permanece, nuclear e fora de qualquer controle por força humana.

É claro que o Irã tem, sim, de estar muito preocupado com o alto risco de os EUA usarem esse processo para trair o que o acordo decida, bastando para tanto declarem que o Irã teria deixado de cumprir uma ou outra cláusula. Por exemplo, caso os Republicanos sejam eleitos à presidência em 2016, será que, a serviço de seus patrões israelenses, destruirão todo o trabalho acumulado nas negociações do Acordo Nuclear com o Irã?

Não há nem pode haver dúvidas de que, sim, farão exatamente isso. O Irã nunca assassinou cientistas nucleares norte-americanos, nem hackeou instalações nucleares dos EUA de modo tão gravemente incompetente que poderia ter causado um acidente nuclear. E se alguém estiver precisando desse tipo de serviço, ninguém procurará o Irã: todos contratarão os israelenses, que têm longa história de jamais serem processados por espionagem aqui nos EUA.

Obama não é o único a expor-nos, todos os norte-americanos a essa vergonha. O Congresso também se supera, dia após dia, todos os dias com uma humilhação nova. Bibi Netanyahu os mantém sob rédea curta e os faz saltar como focas amestradas. A empresa-imprensa comercial contribui diariamente para ampliar o terror e proteger os terroristas, porque jamais noticia com qualquer rigor o que realmente acontece no mundo, nem o que os EUA fazemos. E, também, porque esconde os fatos reais, como as 17 mil vítimas iranianas do terror, 12 mil das quais assassinadas pelo MEK, grupo terrorista patrocinado por EUA e Israel.

Não se ouviu nos EUA nenhum brado de indignação contra a ofensiva norte-americana pelo mundo, a semear 'revoluções coloridas', subversão, 'mudança de regime', ataques terroristas sob falsa bandeira, atos que, todos esses, nos expuseram - os cidadãos norte-americanos - a ataques de retaliação. De fato, tudo leva a crer que estimular ataques de retaliação é excelente medida, porque oferece cobertura para a ofensiva norte-americana contra o mundo.

O 11/9 que aconteceu aqui é claro exemplo disso. Por causa do 11/9, rapidamente os norte-americanos vimos desaparecer nossas liberdades básicas; e uma tal "Guerra ao Terror" foi rapidamente convertida em "Guerra DE Terror, incluindo o assalto contra a economia dos EUA para financiar o déficit. Assim, como logo se viu, a "Guerra ao Terror" passou a ser guerra contra a vida e o futuro dos EUA e dos norte-americanos - ataque terrorista financeiro sem fim, contra nós mesmos.

Tenho sérias preocupações sobre a sinceridade dos EUA, quando prometem aliviar as tensões sobre o Irã, sobretudo depois dessa escandalosa gafe política de Obama. Além da gafe, há também os 'anúncios' feitos em Camp David, de que os EUA instalarão um 'escudo de mísseis' em volta dos Estados do Golfo.

Da última vez que ouvi falar disso, estavam comprando mísseis Patriot já há muito tempo. E se Israel enlouquecer completamente - o que se sabe que é perfeitamente possível em Bibi-land - e lançar ataque preventivo contra o Irã, e o Irã retalia... O tal escudo de mísseis dos Estados do Golfo não protegerá Israel?

A declaração mais espantosa diz respeito à venda de "mísseis terra-terra" aos Emirados Árabes Unidos. Com eles, os EAU convertem-se em ameaça total contra o Irã. Será que os Estados do Golfo estão sendo preparados para servir como ímãs para os mísseis iranianos, se algum dia houver guerra, quando então os alvos que interessam aos EUA serão apenas alguns entre vários?

Por que os russos sempre falam de "segurança mutuamente assegurada" como o objetivo deles, e o 'ocidente' - especialmente EUA e Israel - só pensa na doutrina dos ataques preventivos contra alvos que não tenham capacidade para retaliar? Que país, no planeta, se submeteria voluntariamente a isso? Rússia, não; China, não; Irã, não; provavelmente, nem a Índia.

Quando o ocidente usa a palavra "paz", parece estar dizendo: "Queremos dar uma esfriada nas coisas, enquanto procuramos outro dos pontos fracos do inimigo." Ouvimos a versão corrente dessa 'doutrina' vinda da UE, sobre manter as sanções contra a Rússia até que os acordos de Minsk estivessem sendo integralmente cumpridos. Nem uma palavra sobre soldados de Kiev continuarem a bombardear sem parar áreas civis em Donetsk.

Sim, é verdade que quando Porky Poroshenko fez aquela declaração inacreditável, de que queria retomar o aeroporto de Donetsk, reconstruí-lo e instalar lá um monumento aos bravos soldados de Kiev que ali morreram, John Kerry teve de surrá-lo publicamente, para que não repetisse tamanha sandice. 

Mas lá, perdida nas entrelinhas do que foi apresentado como comentário 'de verdadeiro estadista', de Kerry, estava a evidência de que os EUA nunca denunciaram Kiev por inúmeras violações do cessar-fogo. Será que essa gente pensa que não vemos que, se os EUA nada dizem contra, é claro que os EUA aprovam as violações?!

Ambos, EUA e União Europeia nos tomam por idiotas, que estaríamos engolindo a conversa deles de "Vamos culpar a Rússia pelo fracasso do acordo." Os imbecis 'ocidentais' fingem que estão no assento do piloto... Mas a Eurásia já decifrou esse comportamento sórdido e está construindo nova Grande Muralha contra sanções, o mais rapidamente que consegue.

Também estão planejando mega projetos de infraestrutura para desenvolver a parte do mundo onde eles vivem, sem precisar do ocidente para coisa alguma. 

Parece que o que o ocidente absolutamente não entende é a atitude anticolonialista dos atores eurasianos. Deus os abençoe por isso. Que o resto de nós aprendamos a lição, enquanto vamos sendo tratados, nós mesmos, cada dia mais, como povos colonizados, dentro de nossos países.*****

Jim W. Dean, diretor administrativo de Veterans Today, produtor/apresentador da Heritage TV Atlanta, especialmente para a revista online .

29/5/2015, Jim Dean,[1] New Eastern Outlook

http://journal-neo.org/2015/05/29/obama-plays-us-foreign-policy-roulette/

 


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