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Chavismo e responsabilidade histórica

31.12.2012
 
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A recente vitória eleitoral em 20 dos 23 estados da Venezuela representa para o processo bolivariano e seus seguidores uma nova e grande chance para o avanço revolucionário

Féliz López/Granma

DEPOIS das recentes eleições para governadores e vereadores na Venezuela proliferam análises de todas as cores. Mas a imensa maioria das opiniões parece coincidir num elemento: ao obter o triunfo em 20 dos 23 estados, as forças revolucionárias conseguiram uma vitória rotunda, ratificando o chavismo como um movimento histórico e o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) como a principal força política da nação. Em resumo, o mapa do país sul-americano agora é mais vermelho que quatro anos atrás.

Essa realidade não pode ser vista desligada das circunstâncias e do tempo. O triunfo é mais alentador e convincente, se levarmos em conta que o processo eleitoral se realizou sem a presença na Venezuela do líder e principal referente da revolução, o comandante Hugo Chávez. Anotemos a favor do processo bolivariano uma indiscutível elevação da consciência política e classista de seus seguidores, algo que um analista bem qualificou de "o batizo do chavismo como identidade política autônoma na sociedade venezuelana".

Mas o resultado obtido em 16 de dezembro passado não deveria injetar, unicamente, alegria e confiança ao folguedo de natal. Agora - como advertiu o esperto político José Vicente Rangel, na sua coluna O Espelho (no jornal Últimas Noticias) - "se torna premente analisar as gestões regionais e sua repercussão em alguns magros resultados, assim como que o triunfalismo não contribua a que a análise e a autocrítica sejam perturbados". Rangel refere-se, sem dúvida, a um tema ao qual o presidente Chávez deu máxima prioridade: mais eficiência na gestão de governo, acompanhamento e efetividade nas soluções.

O povo bolivariano, a partir das organizações de base criadas pelo Poder Popular e utilizando os meios alternativos de comunicação, apoia e acompanha Chávez na sua batalha contra a ineficiência e o burocratismo. Caso se disseminasse esse espírito pelos governos estaduais e prefeituras nas mãos do PSUV, a revolução sairá favorecida e isso influirá positivamente na elevação da participação do povo nos próximos processos eleitorais. Ficou demonstrado que as pessoas votam naquilo que acreditam.

APONTAMENTOS SOBRE A ABSTENÇÃO

A maioria dos órgãos da mídia, analistas e políticos vem tentando justificar a tradicional alta abstenção nas eleições regionais. Desta vez, 46% da população não foi às urnas. Examinando os números finais, a mais golpeada por isto foi a oposição, ainda sob os efeitos da ressaca dos resultados das eleições presidenciais de 7 de outubro passsado.

Historicamente, as eleições para governadores e vereadores tiveram baixa participação: em 2000 (43,55%), 2004 (54,27%), 2008 (34,5%)... Para o politicólogo Nicmer Evans, os "níveis de abstenção (em) processos regionais são tipicamente altos", contudo, ressaltou a baixa participação "da oposição, já que pretendia tirar a legitimidade de que goza o Poder Eleitoral. Agora, esta derrota a obriga a reconstruir-se ou reinventar-se". Segundo a opinião de Jesús Silva, professor de estudos políticos da Universidade Central da Venezuela (UCV), "a tese de um projeto nacional de inclusão social venceu, mais uma vez, a oposição burguesa".

A força da revolução conseguiu um total de 4,84 milhões de votos (55%) e a extrema direita obteve 3,83 milhões (43%). A força chavista, ademais, conquistou 186 assentos (78%) dos 237 que estavam sendo definidos. Estes resultados devem ser entendidos como uma grande e nova chance, numas circunstâncias muito especiais para as forças revolucionárias. Os números por muito ilustrativos e contundentes que eles forem, reclamam uma leitura bem calma e exigem às filas revolucionárias novas estratégias para derrotar a abstenção entre seus potenciais seguidores: o povo.

CAPRILES, O GRANDE PERDEDOR

Segundo o resultado eleitoral no estado Miranda, pareceria que Henrique Capriles Radonski (junto a outros dois governadores da direita) emerge como o grande triunfador da oposição. Ao menos é o que querem apresentar os meios da oligarquia. Mas os números finais falam doutra realidade muito complexa para Capriles e suas aspirações como candidato dos ianques e os grupos econômicos de poder.

Para José Vicente Rangel, a reeleição do opositor Capriles Radonski, em Miranda, por tão só quatro pontos, "mais do que um sucesso pessoal, é o equivalente a um chocolate envenenado, já que não é expressão da consolidação de uma liderança mas sim por causa do antichavismo dos setores sociais que votam nesse estado".

Rangel nos está advertindo de uma realidade que se sustenta nas estatísticas e no estado mental desse conglomerado antichavista do Leste de Caracas. Que dizem os números? Primeiro que o "teto" eleitoral de Capriles em Miranda ficou estagnado e não consegue chegar aos 600 mil votos. Nas eleições regionais de 2008, Capriles obteve 583.795 votos (53,11%), contra 506.753 (46,10%) de Diosdado Cabello. Agora, Capriles foi eleito com 582.305 votos (51,94%), isto é, 1.490 votos menos que em 2008. E Elías Jaua, o contrincante chavista, conseguiu 534.937 votos (47,71%), um incremento de 28.184 votos mais que os obtidos por Diosdado Cabello em 2008.

Vencendo, Capriles tem menos votos que os obtidos em 2008. Perdendo, Elías Jaua conseguiu em apenas três meses e participando pela primeira vez de uma contenda eleitoral, que quase 30 mil moradores mais de Miranda aderissem ao voto revolucionário.

O segundo e não menos importante é que agora Capriles tem que governar com um Conselho Legislativo dominado pelo chavismo, com oito dos 15 deputados submetidos à eleição popular. E isso que significa? A vitória do PSUV, como maioria legislativa no estado, permitirá exercer maior controle legal e constitucional sobre a gestão do governador Capriles. Significa, simplesmente, que acabou a corrupção de Capriles, de sua família e de seus parceiros do partido Primeiro Justiça.

O novo Conselho Legislativo de Miranda poderá exigir uma exaustiva auditoria da gestão de Capriles 2008-2012, para demonstrar ao país o que ele fez com o dinheiro da governação, durante quatro anos. E a partir de agora não poderá aprovar projetos fantasmas, ou manter os parasitos de seu partido com o dinheiro do povo. A esta hora, Capriles também tirou essas  contas e sabe que ao perder o poder de manobra, fica estagnado, do ponto de vista eleitoral e político.

A LIÇÃO HISTÓRICA

Várias são as conclusões às que se pode chegar, após os resultados eleitorais venezuelanos de 16 de dezembro passado: a mais importante tem a ver com a confirmação de uma frase utilizada por Chávez para despedir-se de seu povo, antes de viajar a Havana: "Não se enganem, temos Pátria". Essa Pátria é a que acaba de recuperar cinco estados chaves (outrora baluartes da oposição), com implicações sociais, geopolíticas e populacionais: Táchira, Zulia, Carabobo, Monagas e Nova Esparta.

Por outro lado, embora o chavismo não vencesse em dois estados importantes do país (Miranda e Lara), obteve a vitória nos Conselhos Legislativos, o que permite assegurar que estamos diante do triunfo mais importante das forças revolucionárias bolivarianas desde 1998. Para a oposição a perda é significativa e sua frustração se evidencia de várias maneiras: uns bradam que houve fraude, outros arremetem contra o povo, entretanto os três vencedores tentam converter-se nos líderes da esfacelada oposição.

O vice-presidente executivo do governo bolivariano, Nicolás Maduro, fez um apelo aos opositores a manterem a equanimidade: "A estreia foi muito péssima, com uma fanfarrice e uma prepotência, que já entra no campo da loucura. Eu acho que eles não perceberam que 20 governações são mais do que três... O povo dissolveu a chamada Mesa da Unidade Democrática (MUD), que vem sofrendo derrota após derrota, como aconteceu nos anos 2002 e 2003; e nas eleições presidenciais de 7 de outubro passado".

Sem dúvida, depois dessa lição histórica, se abre um novo cenário de confronto, onde a oposição voltará a tentar tudo contra essa "rara ditadura venezuelana" que, segundo afirma o escritor uruguaio Eduardo Galeano, vive de eleição em eleição e permite que o povo seja quem decida.

 


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