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Machado de Assis: ironia e sedução (*)

31.01.2007
 
Pages: 123
Machado de Assis: ironia e sedução (*)

Adelto Gonçalves (**)

Qualquer que seja a antologia que se faça de contos de Machado de Assis (1839-1908) — e quaisquer que sejam os critérios —, nada há de dar errado. É claro que nem todos os contos de Machado de Assis — hoje reconhecido como o maior romancista brasileiro de todos os tempos — são de primeira grandeza e há até alguns que são bem frouxos, escritos ao correr da pena para publicação imediata em revistas de duração efêmera em troca de recompensa pecuniária e que, se dependessem da vontade do autor, continuariam imersos no olvido dos arquivos. Mas há muitos que continuam brilhantes e a desafiar o tempo. E que, mesmo traduzidos para outras línguas, não perdem o viço dos primeiros anos.

É o caso, por exemplo, dos treze contos enfeixados neste livro destinado ao público russo, que, com certeza, pouca familiaridade tem com as literaturas de expressão portuguesa. São contos da fase realista de Machado de Assis, que começa com a publicação do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881, e inclui notáveis livros de contos, como Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896) e Páginas Recolhidas (1899), dos quais foram extraídos os textos reunidos neste livro.

A primeira fase é marcadamente romântica e seus livros mais representativos — os romances A Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878) — já pouco atraem o leitor mais sofisticado, embora neles já se possa perceber a preocupação do autor em não construir personagens lineares, temperando a sua ação com boa dose de reflexão.

A segunda fase marca a disposição do autor tanto como romancista como contista de buscar temas em que pudesse refletir sobre o espírito humano e suas fraquezas (a crueldade, a ingratidão, a deslealdade, o adultério, a soberba, a mesquinharia, a corrupção, a sensualidade e outros demônios da alma).

Para tanto, quaisquer historietas ou mesmo ações banais serviam. Porque o que importava era mostrar que a mais eficaz consolação em toda desgraça é descobrir que sempre há mais desgraçados do que nós. Um remédio que, como dizia Arthur Schopenhauer (1788-1860), autor de cabeceira de Machado de Assis, encontra-se sempre ao alcance de todos.

Nisso Machado de Assis se aproxima de Dostoievski (1821-1881), seu contemporâneo, embora seja pouco provável que o russo possa ter exercido qualquer influência sobre o brasileiro, ainda que este numa crônica publicada em 1889 tenha citado o romancista eslavo. É que ambos refletem o pensamento pessimista do século XIX, de que nada de grandioso se pode esperar do homem, como dizia Dostoievski. Olhando agora para o que foi o século XX, de fato, esse pessimismo não era nada fortuito.

Talvez por isso esses grandes autores ainda inspirem tanto interesse nos dias de hoje, embora tratem de assuntos bem pouco atuais e suas posições políticas tenham atualmente bem poucos seguidores. Machado de Assis, por exemplo, era um empedernido monarquista, embora fosse neto de escravos africanos alforriados, enquanto Dostoievski defendia um pan-eslavismo imperialista. Como explicar que sejam ainda hoje lidos com tanta sofreguidão?

É que os temas de que tratam, embora ligados à crônica política e policial da segunda metade do século XIX, são de uma atualidade surpreendente e permanente. Afinal, tanto os romances como as narrativas curtas de Machado de Assis e Dostoievski constituem tratados da psicologia humana. E ninguém pode deixar de lê-los sem que faça um exame da própria consciência. Afinal, o homem continua o mesmo, ou seja, uma criatura intrinsecamente maligna, sempre assolada por baixos instintos, capaz dos atos mais vis.

Esses demônios da alma, aliás, assolam o homem desde os mais tenros anos, como Machado de Assis procura mostrar em “Conto de escola” (Várias Histórias) em que Pilar, um “pobre estudante de primeiras letras”, ao facilitar uma lição a um colega mais atrasado em troca de uma pratinha que, já à primeira vista, lhe “fez pulsar o sangue no coração”, é denunciado ao professor por outro colega.

No final, os dois sofrem um castigo exemplar que serviria para preparar Pilar para o mundo dos homens, conhecendo desde cedo as vantagens e desvantagens da corrupção e da delação.

Em “Verba testamentária”, de Papéis Avulsos, Nicolau manifesta desde menino a vocação para a inveja, que o leva a destruir os brinquedos dos outras crianças. Adulto, vai levar pela vida afora o mesmo impulso agressivo, neurastênico, que o faz passar por um casamento fracassado e o condena a uma velhice de solidão, a ruminar sua bílis, “continuamente verde, irritado, olhos vesgos”.

Em “Teoria do medalhão”, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1881, e em Papéis Avulsos, Machado conta a história de um pai que, após o jantar de aniversário de seu filho, chama-o para uma conversa. Discutem o futuro do filho e o pai passa a aconselhá-lo que, para garantir a recompensa de seu esforço, ele deve, além de sua profissão, cultivar o "ofício" de medalhão, um “ofício” que requer uma pessoa que não pense muito nem tenha idéias próprias, que viva para ser popular e chamar a atenção.

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