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Os presos que são um país

30.11.2012
 
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Filha de um dos cinco presos cubanos nos EUA relata o drama das famílias cubanas e a intransigência da Justiça estadunidense   

 Joka Madruga de Caracas (Venezuela)   

Ailí Labañino Cardoso tinha 11 anos quando seu pai, Ramón, e outros quatro cubanos foram presos pelo governo dos EUA, acusados de terrorismo. Em entrevista realizada durante o Encontro Internacional de Jovens de Nossa América em Solidariedade com a Revolução Bolivariana, em Caracas, a jovem de 25 anos relata o cotidiano doloroso para os familiares dos presos. Alguns deles sequer tiveram contato com a família nesses 14 anos. De acordo com Aili, este é um tema que desperta um sentimento nacional em Cuba.       

No momento, de acordo com a ativista cubana, o desafio é atrair o máximo de apoiadores possível à causa dos presos, de maneira a pressionar a Justiça norte-americana. "A solidariedade internacional é a que vai pressionando, para que do ponto de vista legal se possa tomar uma decisão", diz.     

Brasil de Fato - Por que Antonio Guerrero, Fernando Gonzáles, Gerardo Hernández, Ramón Labañino e René Gonzáles estão presos?

Ailí Labañino Cardoso - Cuba foi atacada por muitos anos desde que triunfou a revolução, com atos terroristas, o que trouxe mais de três mil vítimas ao nosso povo. Então, Cuba teve a necessidade de que homens como os cinco fossem aos EUA a infiltrar-se nesses grupos terroristas cubano-americanos, financiados pelo governo norte-americano, para conhecer que atos novos se estavam planejando, em que lugar e em que momento. Porque esta informação estes mesmos terroristas em Miami a publicavam na televisão, nos meios de comunicação. Nessas reuniões internas eles também conheciam que atos aconteceriam. E o que estes cinco cubanos fizeram foi informar as autoridades cubanas dessas atividades para evitar novas vítimas. Então, Cuba fez um resumo dos verdadeiros terroristas, das ações que estavam fazendo, e deu todas as provas ao FBI. O FBI teve uma reunião em Havana para conhecer esses dados, e o que fizeram ao regressar a Miami foi buscar a fonte de informação, ao invés dos terroristas, de quem tinham os endereços. E a fonte de informação são os cinco presos.   

E vocês mantêm contato com eles presos? Como é o contato?

 Nós podemos enviar cartas, via postal, podemos receber uma ou outra chamada telefônica - não sempre porque o tempo é limitado. E, como somos cubanos, temos que pedir o visto para ir aos EUA. Mas o visto é limitado e tem uma só entrada nos EUA. E só podemos estar por 30 dias no lugar. Não é sempre que podemos visitá-los, porque pode haver inclemências do tempo, há muitas chuvas, nevadas, neblinas, o que impede de se fazer a visita. E também o chamado lockdown, que é o fechamento total, quando não se permite fazer visitas. Encerram todos os presos e não podem receber visitas. Há visitantes que vieram de outros países distantes. Há o caso específico de Olga e Adriana, esposas de René e Gerardo respectivamente, que durante todos estes anos ainda não puderam vê-los.    

Quantos anos você tinha quando seu pai foi preso?

Eu tinha 11 anos. Eles são postos por 17 meses em celas de castigo, em total isolamento, em Miami, tratando de dizer que eles traíram a pátria, e não o fizeram. E durante todos esses 17 meses não tiveram comunicação nem com a família, nem com advogados e não soubemos nada deles. Neste momento, no ano em que começou o julgamento (2001), o mais longo dos EUA, durou seis meses, e os declaram culpados. Começa em Cuba uma campanha internacional pela liberação deles, e aí eu estava com 13 anos, e começamos esta batalha.    

 

Há 13 anos estão presos. Houve algum avanço nas negociações? Há alguma esperança de que eles saiam logo da prisão?

Logo que os declaram culpados, eles vão a cinco cárceres separados, nos EUA, sem comunicação entre si, mas os advogados continuaram as apelações, em todas as instâncias nos EUA, em Atlanta, e na Corte Suprema, que não acolheu o caso. Então, a solidariedade internacional é que vai pressionando, para que do ponto de vista legal se possa tomar uma decisão. O único logro que tivemos é que houve nova sentença e barraram as condenações de três deles. Mas, por exemplo, René, que no 17 de outubro do ano passado cumpriu a sua condenação, e por ser cidadão estadunidense tem que cumprir três anos de liberdade condicional nos EUA, recebeu ameaças de morte. Ou seja, estamos em perigo todos os dias de que a ele possa ocorrer algo. Ademais que os outros presos estão em prisões e não são considerados como presos políticos, são considerados presos comuns e estão relacionando-se com assassinos. Ou seja, será a vitória real quando os cinco estiverem em Cuba. Porque a cada minuto que passa estão cumprindo uma pena que não deviam cumprir.     

O que o povo brasileiro deve fazer para pressionar os EUA para que respeite os direitos humanos dos cinco presos?

No Brasil, encontramos uma solidariedade muito forte. Recentemente, em abril, fomos à Federação Democrática de Mulheres, onde nos reunimos com muitos solidários com a causa dos cinco. E vocês fizeram muitas coisas. Por exemplo, na campanha, "Cinco pelos Cinco". No dia 05 de cada mês, se reparte informação sobre os cinco, se fazem manifestações diante da Embaixada dos EUA, se enviam cartas diretamente a Obama e sua esposa, para que se sensibilizem, sobretudo do ponto de vista humano: ele é pai, tem esposa, ou seja, pode saber o que é a ausência de um pai na família e estar apartado de sua esposa. E do ponto de vista humano, tratar de chegar com as redes sociais a mais amigos. Se chegássemos ao povo dos EUA, talvez pudéssemos fazer muitas atividades. E no aniversário de 14 anos presos pensamos em fazer atividades em todo o mundo. O principal é chegar à imprensa, porque a grande imprensa em EUA não nos deu apoio.    

E o povo cubano, como vê os cinco?

Os cubanos vemos os cinco como parte de nossa família, com a necessidade de que cheguem a nossos lares. Deram a eles a maior ordem de Cuba, de heróis nacionais da República de Cuba. Chávez deu a Ordem de Libertador aos cinco. Ou seja, que no plano internacional também são reconhecidos como heróis latinoamericanos. Mas, ademais, queremos aproximá-los da questão humana. Ademais de ter passado todo este tempo na prisão, eles têm as necessidades humanas de compartilhar com suas esposas, com seus filhos. E é aí que os cubanos nos colocamos no lugar dos que sofrem essa distância. E quando vimos a alegria de René quando saiu da prisão, ainda que esteja nos EUA, a imagem abraçado com sua filha, fora da prisão, todo o povo sentiu como um familiar nosso, é um sentimento nacional. Que nos vemos todos como família.    

Há mais alguma coisa desse caso que você queira dizer?

Cada entrevista que podemos dar, cada espaço internacional e nacional é uma vitória, é um grãozinho de areia para chegar a este dia final que todos queremos. Difundir e romper a barreira de silêncio é vital. Temos que nos unir. O caso dos cinco é um exemplo de uma campanha internacional. Como filha, cubana, pedimos a todos que nos ajudem, que nos apoiem porque já estamos há 14 anos longe das nossas famílias, temos sonhos que queremos cumprir ao lado dos familiares. A mãe de Antônio tem oitenta anos, queremos vê-lo na pátria. 

 

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