Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Letras espanholas: O mundo (picaresco) de Mendoza

30.10.2007
 
Pages: 123
Letras espanholas: O mundo (picaresco) de Mendoza

Adelto Gonçalves (*)


                         I


Não é uma biografia nem um estudo acadêmico e tampouco um livro de conversações. É de tudo isso um pouco, mas, acima de tudo, uma grande reportagem em busca de um perfil biográfico. É assim Mundo Mendoza, livro que o jornalista catalão Llàtzer Moix (1956), editor da seção de Cultura do diário La Vanguardia, de Barcelona, escreveu sobre o romancista Eduardo Mendoza (1943), autor de La verdad sobre el caso Savolta (1975) e La ciudad de los prodigios (1986), os dois romances mais notáveis de uma obra que vendeu só na Espanha mais de quatro milhões de exemplares e está traduzida para mais de vinte idiomas.


Para quem não conhece Mendoza, é preciso dizer que o seu nome apareceu na Espanha sete meses antes da morte do general Francisco Franco, em 1975, quando saiu à luz La verdad sobre el caso Savolta, que ajudou a introduzir na literatura espanhola as características do romance negro, de origem norte-americana, através de um personagem muito ibérico, o pícaro.


À época, Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003), com seu detetive galego Pepe Carvalho, seguia nas mesmas pegadas. Mas não se pode dizer que tenham sido os espanhóis que inventaram o pícaro no romance negro, até porque, antes de chegar a Espanha, este subgênero já estava baseado na história de personagens com algumas características picarescas.


Seja como for, a verdade é que, em meados da década de 70, o romance espanhol estava num beco sem saída e afogado num experimentalismo que cansava e afugentava leitores. E Montalbán e Mendoza deram-lhe uma guinada bem-humorada, de volta a um tipo de narrativa mais tradicional, incorporando as novas técnicas e, mais importante, influenciados por um tipo de literatura fantástica produzida por escritores latino-americanos que, nos anos 60 e 70, fugidos das ditaduras que governavam seus países, estabeleceram-se em Barcelona.


Ou, como observou o poeta Père Gimferrer (1945), primeiro editor de Mendoza, à época a literatura espanhola estava dominada por duas correntes: algumas individualidades importantes, de um lado; e, de outro, alguns autores comerciais e obsoletos, que praticavam um realismo social tardio, além daqueles que abusavam do experimentalismo. "Nessa encruzilhada", diz Gimferrer, "Mendoza encontrou seu próprio espaço, abrindo novos caminhos para a literatura em castelhano, assimilando de maneira moderna uma linguagem literária espanhola que vinha de Cervantes (1547-1616) até Valle-Inclán (1869-1936) e Pio Baroja (1872-1956), com tintas, já fora do âmbito espanhol, dickensianas".


                      II


Para escrever esse perfil, Llàtzer Moix entrevistou, além do biografado de maneira exaustiva, é claro, não só as pessoas do círculo familiar de Mendoza como seus amigos, editores e até escritores concorrentes. E só arrancou elogios. Até porque, como sabe quem já entrevistou o escritor catalão, como este articulista o fez em 1990 em Barcelona, Mendoza é um cavalheiro muito educado e cordial, de esmeradas maneiras, "tipo David Niven em traje príncipe de Gales, embora de maior estatura", como o define Moix.


Formado em Direito, Mendoza, praticamente, nunca exerceu a profissão de advogado, exceto os seis meses em que trabalhou num escritório especializado em Direito trabalhista. Logo, em 1966, mudou-se para Londres, onde permaneceu por um ano aprendendo o idioma inglês. E começou a escrever relatos à maneira de D.H.Lawrence (1885-1930).


De volta a Barcelona, tornou-se funcionário de uma empresa de energia elétrica. E passou a pensar em escrever o romance que seria La verdad sobre el caso Savolta, em que exercita também um experimentalismo a seu modo, recorrendo na primeira parte do livro a temáticas contemporâneas, como o contraponto para apresentar o caso Savolta sob variados ângulos, com narrações em primeira pessoa, cartas, documentos policiais e artigos de jornais. Deixou de lado, porém, um recurso que já lhe parecia gasto: o monólogo joyceano.


Na segunda parte, porém, abandonou essas estruturas e deu ao romance uma forma mais tradicional. Fez do romance uma narrativa linear, mas, ao mesmo tempo, atraente e instigadora da imaginação, com o objetivo de contar uma história e esclarecer um enigma. Recorreu, desta vez, ao tradicional método de um autor onisciente, mantendo apenas o contraponto da narrativa da primeira pessoa de Javier Miranda, que, a exemplo de Lázaro de Tormes, escreve para lançar luz sobre o seu próprio caso: mostrar como chegou à situação em que se encontra.


                      III


Mas não terminam aqui as aproximações com o Lazarillo de Tormes. Aliás, apenas começam. Miranda, esse joão-ninguém, rapaz de recados de um escritório de advocacia, encontra a oportunidade ao se aproximar de um aventureiro chamado Paul André Lepprince, a quem supõe um homem de negócios de muito futuro. Com ele, encontra a escada que busca para ascender socialmente, ainda que à custa de uma sujeição abjeta. A pedido do chefe, casa-se com a amante de Lepprince. Tal qual oLazarillo.

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular