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A nossa utopia

30.09.2019
 
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A nossa utopia

A exibição do filme Legalidade, que conta a saga do enfrentamento que o governador Leonel Brizola fez em 1961 contra o golpe militar que pretendia impedir a posse de João Goulart na Presidência da República, independentemente das possíveis e discutíveis qualidades da obra cinematográfica, traz de volta à discussão um tema recorrente na vida brasileira, a incapacidade das nossas lideranças políticas em levar adiante um processo de revolução social.

A independência de Portugal, a libertação dos escravos, a proclamação da República, a "revolução" burguesa de 1930 com Getúlio Vargas e o encerramento da ditadura militar com a Constituição de 1988, foram processos políticos dos quais o povo foi excluído nos seus acertos finais.

Como gaúchos, poderíamos incluir a mal chamada Revolução Farroupilha, entre esses eventos decididos no seu final por um acordo entre os representantes das elites e nesse caso, um acordo lavrado com o sangue dos escravos negros no triste episódio da Traição dos Porongos.

Mas, voltando à falta de consumação dos processos que poderiam ter, em algum momento, levado à ruptura das estruturas sociais e políticas vigentes. De todos eles, a Legalidade foi o que mais se aproximou desse momento

Em 1961, a radicalização de um processo, que começou com a defesa conservadora da ordem política e avançou em direção a soluções de caráter socializante, foi interrompida por um grande arranjo das forças políticas do centro que afastaram ao mesmo tempo,  a direita entreguista  e autoritária representada pelos militares golpistas e a esquerda em processo de grande conscientização política unidas em torno da liderança de Brizola.

Nessa ocasião emerge a figura do grande conciliador, Tancredo Neves, que serve de ponte entre os militares amotinados, o grande empresariado nacional,  e os interesses imperialistas, convencendo João Goulart a aceitar o acordo espúrio do Parlamentarismo.

Coincidentemente, será essa figura  melíflua, Tancredo Neves, quem patrocinará, então em causa própria, o acórdão com  a ditadura nascida em 1964, que nos levou  uma  pálida democracia em troca do perdão para os crimes que os militares praticaram durante os 20 anos em que comandaram o Brasil.

Em 1961, um confronto envolvendo facções opostas de militares, mas acima de tudo com a participação revolucionária da população armada, poderia ter - se vitoriosa - conduzido  o Brasil a um sistema de governo nacionalista e que no seu processo de afirmação se encaminhasse para um modelo próximo ao cubano ou no mínimo ao bolivarionismo do Chavez.

Em entrevistas posteriores à Legalidade,Brizola afirmou que, na sua avaliação , a correlação de forças militares favoreceria no caso de um confronto, as forças revolucionárias, agrupadas em torno do III Exército.

A oportunidade, porém, foi perdida e depois de um curto período do governo populista de Jango, o Brasil mergulhou num longa ditadura,  da qual saiu para um modelo de um sistema democrático  de fachada, incapaz de enfrentar as grandes questões que interessam de verdade ao povo brasileiro.

Mesmo a pálida experiência reformistas dos governos do PT, que deveriam ser a alternativa pacífica para a revolução necessária, foi derrotada  pela emergência de um novo fascismo, que com o apoio do grande empresariado, da mídia e do imperialismo  retomou o controle do Brasil, agora justificado pela cobertura aparentemente democrática do processo eleitoral, ainda que totalmente viciado.

E a revolução social que precisamos virou utopia.

Marino Boeira é jornalista, formado em História, pela UFRGS

 


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