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Um guia seguro da Literatura Portuguesa

30.03.2009
 
Pages: 123
Um guia seguro da Literatura Portuguesa

Adelto Gonçalves (*)

I

Muito mais substanciosa e acrescida de mais de 200 páginas – assim está a 35ª edição, revista e atualizada, de A Literatura Portuguesa, do professor Massaud Moisés, guia seguro que desde 1960 tem ajudado a formar gerações de estudantes de Letras, hoje transformados em professores renomados na área. Melhor do que palavras, as sucessivas edições deste livro são a comprovação inequívoca da sua importância como um roteiro ou um manual erudito das obras decisivas e dos principais momentos da história literária de Portugal.

Dividida em 17 capítulos – eram dez na 29ª edição, de 1997, já então revista e aumentada --, esta obra abrange todo o espectro daquilo que se pode entender por Literatura Portuguesa, desde quando o trovador Paio Soares de Taveirós compôs uma cantiga celebrizada como “cantiga de garvaia”, em 1198 ou 1189, endereçada a Maria Pais Ribeiro, também chamada A Ribeirinha, favorita de D.Sancho I (1154-1211), segundo rei de Portugal, à época do Trovadorismo. A partir daí, passa pelo Humanismo, Classicismo, Barroco e Arcadismo, Romantismo, chegando ao Realismo, Simbolismo e Modernismo.

Aliás, nesta nova edição, o Modernismo (1915-Atualidade) é a parte que mais cresceu, abrangendo todas as tendências do século XX, como o Orfismo (1915-1927), o Presencismo (1917-1940), o Neorrealismo (1940-1974) e o Surrealismo (1947-1974), até as Tendências Contemporâneas (de 1950 até os dias atuais). Sem deixar de lado uma fase que denomina Interregno em que estão incluídas a poesia de Florbela Espanca (1894-1930) e a prosa de Aquilino Ribeiro (1885-1963), que, de certo modo, escaparam às influências dos movimentos em voga nas primeiras décadas do século anterior.

Dessa maneira, além de autores revelados nas últimas décadas, outros ganharam mais espaço, enquanto alguns perderam o relevo alcançado em determinado período, “graças à perspectiva que os acontecimentos mais recentes suscitaram”, como diz o autor em nota à 35ª edição.

II

Historiador das idéias – veja-se o livro As Estéticas Literárias em Portugal, três volumes (Lisboa, Editorial Caminho, 1997, 2000 e 2002) --, Moisés deteve-se, especialmente, nas tendências que movimentaram o século XX português, embora também tenha feito importantes inclusões em outras épocas, sempre tendo em vista o equilíbrio interno do panorama que ali se pretende oferecer.

Entre os presencistas – aqueles ligados à revista Presença, que circulou de 1927 a 1940, nascida em Coimbra por iniciativa dos então estudantes José Régio (1901-1969), João Gaspar Simões (1903-1978) e Branquinho da Fonseca (1905-1974) –, incluiu, desta vez, Tomaz de Figueiredo (1902-1970), romancista e poeta de muitos méritos, mas que só agora começa a ser devidamente valorizado. Embora não pertencesse ao grupo da revista Presença, Figueiredo, em seus poemas, fez não só numerosas referências aos adeptos e colaboradores da publicação como ainda retratou a geração coimbrã de seu tempo no romance Nó Cego (1950).

Para corroborar o que se disse acima, é de assinalar que, em dezembro de 2007, a Universidade de Aveiro, por iniciativa do professor António Manuel Ferreira, publicou, na abertura da coleção Voltar a Ler, Tomaz de Figueiredo, coletânea de dez ensaios sobre a obra desse autor, entre os quais se destacam textos de J. Cândido Martins, Mónica Serpa Cabral, João Bigotte Chorão, José Carlos Seabra Pereira e do próprio Ferreira (organizador).

Entre outros poetas ligados aos ideais presencistas, também foram acrescentadas referências a Saul Dias (1902-1983), irmão de José Régio, Alberto de Serpa (1906-1992), Carlos Queirós (1907-1949) e Edmundo de Bettencourt (1899-1973). No âmbito da ficção, foi lembrada a atividade de romancista e contista de João Gaspar Simões, que se destacou – com justa razão – mais como crítico, ensaísta e autor de uma extensa biografia de Fernando Pessoa (1888-1935).

III

Na parte dedicada ao Neorrealismo, além de manter o destaque dado a nomes eminentes do movimento, como Ferreira de Castro (1898-1974), Alves Redol (1911-1969), Fernando Namora (1919-1989), Manuel da Fonseca (1911-1993), Carlos de Oliveira (1921-1981) e Vergílio Ferreira (1916-1996), Moisés concedeu maior espaço à obra de Joaquim Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), autor de Esteiros (1941), romance que se pode colocar ao lado de Gaibéus (1939), de Alves Redol, como um dos introdutores do movimento em Portugal, assinalando nas obras de ambos a importância do impacto da ficção do brasileiro Jorge Amado (1912-2001), que se pode sentir também em Faure Rosa (1912-1985), Manuel Ferreira (1917-1992), Alexandre Cabral (1917-1996), Alexandre Pinheiro Torres (1923-1999) e outros.

É de notar, porém, que nem todos esses autores ficaram presos às ideias dos primeiros doutrinadores do Neorrealismo, fundadas no materialismo dialético, pois se ajustaram às conquistas literárias e extra-literárias que se afirmaram ao longo da segunda metade do século XX, ou seja, àquilo que Eduardo Lourenço definiu, em Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista (1968), como “segunda vaga neorrealista”, que se deu a partir de 1950, especialmente com o lento declínio da hegemonia marxista na antiga União Soviética.

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