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Camilo: uma vida sem segredo

29.12.2008
 
Pages: 12
Camilo: uma vida sem segredo

Adelto Gonçalves (*)

I

A vida do romancista Camilo Castelo Branco (1825-1890) foi, com certeza, a que mais biógrafos atraiu na Literatura Portuguesa. Uma vida, senão rocambolesca, ao menos completamente devassada não só pela exposição pública a que se submeteu ao se deixar levar pela paixão romântica por uma mulher casada como por seu hábito de aproveitar detalhes de sua existência pessoal e daqueles com os quais conviveu ou atritou-se como fonte de inspiração para seus romances e poemas.

Mas, apesar do empenho de seus biógrafos, especialmente Sousa Costa (1879-1961), autor do ensaio Camilo no drama da sua vida (Barcelos, 1959), Alberto Pimentel (1849-1925), autor de O romance do romancista: vida de Camilo Castello Branco (1890), e Alexandre Cabral (1917-1996), autor do famoso Dicionário de Camilo Castelo Branco (1989), com quem dividi espaço muitas vezes nas mesas da primeira fila da Biblioteca Nacional de Lisboa em 1994, muitos fios ainda parecem soltos na tumultuada vida de Camilo. Um deles é o que se refere à paternidade de Manuel Augusto Plácido, primeiro filho de Ana Plácido, que, ao longo dos anos, foi tido por muitos biógrafos como concebido por Camilo, embora diante das leis e perante a sociedade fosse legalmente filho de Manuel Augusto Plácido, o marido de Ana.

Para defender essa tese, Manuel Tavares Teles escreveu Camilo e Ana Plácido: episódios ignorados da célebre paixão romântica, lançado por Edições Caixotim, do Porto, no qual procura convencer o leitor e a si mesmo de que as evidências indicam que o verdadeiro pai de Manuel Augusto seria António Ferreira Quiques que, antes de Camilo, mantivera um affair com dona Ana Plácido. Com isso, contraria o que escreveram Sousa Costa e Alexandre Cabral, entre outros. Por contestar Cabral, Tavares Teles parece até pedir desculpas, reconhecendo que o camilianista era um cidadão exemplar e encantador.

Embora conhecida, é preciso que se faça aqui um breve retrospecto da vida de Camilo. De uma família da aristocracia de província, o escritor ficou órfão de mãe quando tinha um ano de idade e de pai aos dez anos. Criado por uma tia e, depois, por uma irmã mais velha, casou, em 1841, quando tinha apenas 16 anos, mas o matrimônio pouco resistiu. De temperamento instável, teve outros relacionamentos tumultuados, inclusive, com uma freira.

De novo sem o compromisso do casamento, tentou o curso de Medicina no Porto que não concluiu, optando depois por Direito. A partir de 1848, levou uma vida de don juan, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses, dedicando-se, porém, ao jornalismo. Foi por volta de 1858 que se apaixonou por Ana Plácido, mulher casada com o comerciante Manuel Pinheiro Alves, um “brasileiro” – ou seja, um português que retornara enriquecido do Brasil -- que o inspirou como personagem em alguns de seus romances e novelas, quase sempre em tom depreciativo.

Raptou Ana Plácido e viveram juntos, até que foram capturados pelas autoridades e, depois, julgados. Naquela época, o caso emocionou a opinião pública pelo seu conteúdo tipicamente romântico do amor contrariado. Ana Plácido, inclusive, emergiu com ares de heroína porque, em nome da paixão, jogara para o alto uma confortável existência burguesa para viver uma vida de dificuldades e atropelos.

Depois de absolvidos do crime de adultério, Camilo e Ana Plácido passaram a viver juntos. Ana Plácido levou para o casamento um filho, teoricamente do seu antigo marido, e ainda teve mais dois de Camilo. Quando o ex-marido de Ana Plácido morreu em 1863, o casal passou a viver em sua casa, em São Miguel de Seide. Com família numerosa para sustentar, Camilo passou a escrever a um ritmo alucinante, retirando o seu ganha-pão dos livros e dos artigos publicados em jornais, tornando-se o primeiro escritor da língua portuguesa a se profissionalizar. Só a 9/3/1888 casou-se, oficialmente, com Ana Plácido.

II

Até aqui, todos os biógrafos davam Manuel Plácido como filho de Camilo, mas Tavares Teles mostra que não há evidências de que o romancista já tivesse algum relacionamento mais sério com Ana Plácido ao tempo da concepção de seu primeiro filho. Para o autor, há fortes razões para se suspeitar de que Pinheiro Alves fosse estéril – até porque Ana Plácido foi mãe quando já se haviam passado sete anos de seu casamento. Diz Tavares Teles que António Ferreira Quiques estava no Porto quando Ana Plácido engravidou, lembrando ainda que Camilo o denunciou como amante dela em carta posterior apenas 30 dias ao momento da concepção.

Tavares Teles recupera ainda um testemunho da época que dá Quiques como pai da criança, “reproduzindo, com toda certeza, a convicção generalizada na cidade, convicção que se terá formado ainda em 1857, decerto fundada em confidências de Quiques, pois apenas por este motivo, por a convicção se ter formado antes de Camilo ter aparecido em cena, se compreende que nunca este fosse considerado, como seria natural que tivesse sido, pai do filho da amante”.

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