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A maçonaria na virada do século XVIII para o XIX

29.10.2008
 
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Como observa Barata, o caso de Silva Freire é paradigmático dessa sociabilidade maçônica que se traduzia numa extensa rede espalhada por vários cantos do mundo e funcionava como ponto de apoio para maçons em dificuldades. Em 1799, Silva Freire estava a bordo de um navio que atracou no Rio de Janeiro, em companhia de Vicente Guedes, filho de um grande comerciante da Ilha de Moçambique, João da Silva Guedes, responsável pelo apoio que Gonzaga recebeu logo em seus primeiros dias de desterro, ao cumprir pena por sua participação na conjuração mineira de 1789. Acusado de pedreiro-livre, Silva Freire estivera preso no Limoeiro e nos cárceres do Santo Ofício e seguia para o desterro em Goa, em companhia de outros condenados.

Quando chegou ao Rio de Janeiro, ele tratou de entrar em contato com o chanceler da Relação, Luiz Beltrão de Gouveia e Almeida, e com Modesto Antônio Mayer, ouvidor de Vila Rica, que seriam seus irmãos maçônicos. Beltrão, porém, denunciou-o, talvez para evitar problemas para si. Até porque, em Vila Rica, ao tempo da conjuração, Beltrão ocupava o cargo de fiscal da extração de diamantes da comarca do Serro do Frio e passara por suspeito de ter participado da conspiração.

Vicente Guedes e Silva Freire foram detidos, até porque com ambos foram encontrados livros suspeitos. Guedes, porém, logo foi liberado e seguiu rumo à África Oriental. Já Silva Freire permaneceu preso na fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio. Numa das cartas apreendidas, Silva Freire dizia que pretendia chegar a Goa, de onde esperava fugir para a Europa com a ajuda da “santa irmandade”.

Só foi liberado em 1802 e seguiu viagem rumo a Goa, tendo, porém, desembarcado antes na Ilha de Moçambique, onde, por influência de seu amigo Vicente Guedes, conseguiu um emprego como escriturário da tesouraria da Junta da Real Fazenda.

Como de perseguido Silva Freire virou agente secreto do príncipe regente d.João em Paris é questão que ainda intriga. Mas não se pode esquecer que o príncipe regente vivia cercado de ministros que, às escondidas e, provavelmente, sem seu conhecimento, eram iniciados nos mistérios maçônicos. D. Rodrigo de Sousa Coutinho, o mais notável de seus ministros, era um deles.

Como observa Barata, o período em que Silva Freire e Vicente Guedes estiveram no Rio de Janeiro foi justamente o momento em que a maçonaria iniciava um processo gradativo de maior institucionalização. No início do século XIX, diversas lojas começaram a funcionar, ora se filiando à Obediência francesa, ora à portuguesa. O Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco se transformaram em espaços de crescente efervescência maçônica.

IV

Seja como for, a verdade é que, como observa Barata, concordando com François-Xavier Guerra, autor de Modernidad e independencias: ensayos sobre las revoluciones hispánicas (México, Fondo de Cultura Econômica, 1993), ao se reunirem em segredo, os maçons dessa época condenavam o obscurantismo da religião católica -- pilar essencial em que se assentava o estado absolutista --, ao mesmo tempo em que aprendiam e ensinavam os fundamentos da política moderna. Embora nem todo libertino ou afrancesado fosse maçom, ou vice-versa, o que Barata mostra muito bem é que libertinagem e maçonismo são expressões desse mundo em mudança, “no qual se forjaram as bases da sociedade contemporânea”.

Ao estudar também a participação da maçonaria nos primeiros anos do Brasil independente, o historiador procura destacar que a instituição maçônica era um espaço de contradições, de ambigüidades e de conflitos e não uma instituição monolítica, de intenção sempre conspiratória, como se observa numa historiografia mais tradicional. É por isso que, diz Barata, a falência do projeto reformista-ilustrado da construção de um império luso-brasileiro e a solução pela independência com base na formação de um império brasileiro, sem romper com a legitimidade dinástica, não podem ser vistas como o único projeto no horizonte das elites políticas do período, muito menos se pode levar em conta a afirmação de que os maçons fossem em sua totalidade defensores desse projeto.

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MAÇONARIA, SOCIABILIDADE ILUSTRADA & INDEPEDÊNCIA DO BRASIL (1790-1822), de Alexandre Mansur Barata. São Paulo: Annablume/Editora Universidade Federal de Juiz de Fora-MG/Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), 2006, 338 págs.

E-mail: editora@ufjf.edu.br

Sites: www.editora.ufjf.br

www.annablume.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

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