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A maçonaria na virada do século XVIII para o XIX

29.10.2008
 
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A maçonaria na virada do século XVIII para o XIX

A maçonaria na virada do século XVIII para o XIX

Compreender a trajetória da maçonaria e dos maçons no Brasil na virada do século XVIII para o XIX é a que se propõe o historiador Alexandre Mansur Barata em Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada & Independência do Brasil (1790-1822 ) , tese de doutorado em História defendida em 2002 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicada pela editora Annablume, de São Paulo, e pela Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), de Minas Gerais, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

I

Compreender a trajetória da maçonaria e dos maçons no Brasil na virada do século XVIII para o XIX é a que se propõe o historiador Alexandre Mansur Barata em Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada & Independência do Brasil (1790-1822 ) , tese de doutorado em História defendida em 2002 na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e publicada pela editora Annablume, de São Paulo, e pela Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), de Minas Gerais, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

Adelto Gonçalves (*)

Professor do Departamento de História do Instituto de Ciências Humanas da UFJF, Barata já havia dado uma excepcional contribuição para o aprofundamento de um assunto pouco estudado na História brasileira com sua dissertação de mestrado, Luz e Sombras: a Ação da Maçonaria Brasileira - 1870-1910 (Campínas: Editora Unicamp, 1999). Assunto pouco estudado porque a maçonaria, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, com exceção da França, sempre que pode dificulta o acesso aos seus arquivos por historiadores que não pertençam à ordem. E aqueles aos quais o acesso é franqueado, geralmente, não têm a isenção nem o talento e o preparo acadêmico necessários para fazer um estudo sério, isento, pouco louvaminheiro, já que pertencem aos quadros de uma instituição fechada, de caráter iniciático.

Não é o caso de Barata. Compromissado apenas com sua consciência e com a seriedade de um trabalho acadêmico de pesquisa, o historiador pôde tratar de elucidar questões muito citadas pela historiografia, mas pouco esclarecidas, como, por exemplo, as formas de recrutamento dos maçons, suas maneiras de atuação, sua inserção na América portuguesa, a repressão em determinados momentos por parte da Coroa, as relações com a igreja católica e outras.

II

Logo de entrada, o historiador cita um personagem até hoje meio nebuloso, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, que, em 1793, estudante da Universidade de Coimbra, aos 20 anos de idade, já andava às voltas com o Santo Ofício por causa de umas declarações consideradas heréticas e por seu comportamento nas missas em que mostrava bem pouca devoção e maior preocupação em olhar para as mulheres.

O historiador fica por aqui, até porque não fazia parte de seu objetivo aprofundar-se na vida de Antônio Carlos. O que segue, portanto, é da responsabilidade deste articulista. Que Antônio Carlos sempre foi maçom, não se duvida. O que até hoje não foi explicado com os devidos detalhes é como, depois de acusado de assassinar em Santos, em 1811, ao tempo em que era juiz de fora na vila, um comerciante, membro da elite local -- o que seria um agravante -- e, pior ainda, de participar da insurreição em Pernambuco em 1817, escapou não só ileso de torturas e de morrer durante os dois anos em que esteve no cárcere, como ainda acabou nomeado representante da província de São Paulo nas Cortes de Lisboa em 1820. Era irmão de José Bonifácio, o futuro patriarca da Independência e filho de uma família bastante influente, o que pode explicar muito, mas não é suficiente.

Aliás, a devassa que acabou por inocentá-lo daquele assassinato mais pareceu um arranjo de cartas marcadas. Para escapar das pressões locais, Antônio Carlos homiziou-se na freguesia de São Gonçalo da Praia Grande de Niterói, valendo-se de suas sólidas ligações com os meios maçônicos. Lá, inclusive, participaria da fundação de uma loja maçônica para discutir ideais republicanos. Chegou a ser detido por alguns dias, mas escapou também da nova devassa.

Se a influência da maçonaria não explica esses episódios, pelo menos o que fica explícito é o poder que algumas famílias adquiriram nas províncias às vésperas da separação política entre Brasil e Portugal. Já constituíam o prenúncio do poder exacerbado das aristocracias provinciais que redundariam no federalismo depois do interregno militar que marcou os primeiros anos da República.

III

Outro personagem que intriga é Francisco Alvaro da Silva Freire, de quem já me ocupei no livro Gonzaga, um poeta do Iluminismo, como bem observa Barata à pág. 67, ao me agradecer a indicação da documentação a ele referente conservada no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Esse Silva Freire, comerciante do Porto, depois de perseguido em Portugal e no Rio de Janeiro, acusado de maçom, em 1802, obteria proteção da elite negreira da Ilha de Moçambique, ao tempo em que lá vivia o poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). De forma surpreendente, a partir de 1804, acabaria por se transformar em agente secreto do príncipe regente em Paris, como diz Miguel Antônio Dias em Annaes e Código dos Pedreiros Livres em Portugal (Lisboa, 1853, pp.19-20), com base em François-Timoléon Bègue [Clavel], autor de Histoire Pittoresque de la Franc-Maçonnerie (Paris, Pagnerre, 1843).

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