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Stalin, santo ou demônio?

29.06.2017
 
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A esquerda comunista é movida por sentimentos de culpa e em função disso, muitas vezes, repete o discurso maniqueísta da direita, transformando os santos de ontem em demônios de hoje.

 Um bom exemplo é Josef Stalin.

Durante anos foi chamado de "O Guia Genial dos Povos", mas a partir do famoso relatório de Nikita Kruchiov, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, passou a ser um demônio, alguém que, no dizer de Kruchiov, "descartou o método leninista de convencer e educar e abandonou o método de luta ideológica em favor da violência, repressões em massa e terror".

É bem possível que Kruchiov tivesse razão, embora soe estranho que a denúncia tenha sido logo dele, alguém que,durante os anos de poder de Stalin, foi um dos seus mais próximos colaboradores.

Essa nova imagem de Stalin como o gênio do mal ganhou espaço na mídia ocidental e foi repetida inclusive, ou principalmente, por comunistas arrependidos.

Durante alguns anos, após 1956, tudo era culpa de Stalin, até que com o fim do comunismo na Rússia, ela passou a ser dividida com Marx, Engels e Lenin, todos vistos como mentores do que a imprensa burguesa via como o fracasso inevitável de uma utopia socialista.

Contra Stalin sempre foram feitas duas acusações básicas: a coletivização forçada da agricultura no início da década de 30, que provocou milhões de mortos e os grandes expurgos das lideranças soviéticas em 1937.

A primeira acusação procede e Stalin mesmo a admitiu publicamente num encontro com Churchill, em Moscou, no ano de 1942.

Nas suas memórias, Churchill disse que provocou Stalin sobre o tema e que ele explicou que as populações russas sofriam ciclos periódicos de fome que matavam milhões de pessoas e que era preciso aumentar de qualquer maneira a produção de grãos no país.

"Precisávamos mecanizar nossa agricultura. Quando demos tratores aos camponeses, todos se estragaram em poucos meses. Só as fazendas coletivas, que tinham oficinas, conseguiam lidar com os tratores. Mas, os camponeses não aceitavam isso. Foi preciso usar a força. Dez milhões de pessoas morreram. Foi assustador. Durou quatro anos, Foi tudo muito ruim e difícil, mas nós, não só aumentamos largamente o abastecimento de alimentos, como melhoramos considerável mente a qualidade dos grãos" teria dito Stalin para Churchill.

Podia ter sido feito de outra maneira? É bem possível que sim, mas como em todos os fatos históricos, julgar a "posteriori" é muito fácil.

A outra acusação contra Stalin é ter eliminado seus adversários de maneira brutal e injusta.

Certamente verdade, embora hoje fique claro para os historiadores que desde que substituiu Lenin no comando da URSS, Stalin enfrentou ameaças de golpes permanentes dos seus adversários, incluindo Trotski, Kamenev, Zinoviev, Ovsenko, Preobrajnsky, Radek, Bukarin e o marechal Tukachevky, que certamente, se vitoriosos, também não teriam poupado sua vida, como parece ser hábito na história dos golpes internos da política russa dentro dos czares.

O historiador italiano Domenico Losurdo, em sua obra Stalin, a História Crítica de uma Lenda Negra (Storia Critica di uma Leggenda Nera), não tenta transformá-lo num santo novamente, mas também não repete outro escritor, o inglês Simon Sebag Montefiore (Stalin, A Corte do Czar Vermelho) que mostra Stalin apenas como um demônio, mas tenta olhar com toda a imparcialidade possível seus longos de poder despótico na União Soviética.

Se para nós, a imagem predominante de Stalin ainda é a do demônio, para os russos atuais, ele ainda é considerado o mais importante personagem da sua história.

Uma pesquisa feita essa semana pelo Instituto Levita, que ouviu 1.600 pessoas, mostrou que Stalin é o personagem mais importante da Rússia, com 42% dos votos, contra 34% do atual presidente, Putim e do poeta Pushkin e apenas 32% do grande líder revolucionário Lenin.

A pesquisa revelou outro dado interessante, que deve surpreender os que imaginavam que o regime comunista na Rússia era mantido contra a vontade do povo: o Partido Comunista é ainda hoje considerado o segundo mais importante da Rússia apesar de tudo que se disse contra ele.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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