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Camilo Pessanha: os mitos destruídos

29.06.2008
 
Pages: 12
Camilo Pessanha: os mitos destruídos

Adelto Gonçalves (*)

I

Que as histórias de vida de nossos grandes poetas sempre andaram mal contadas, ninguém duvida. Que muitos foram vítimas de historiadores literários apressados, que preencheram com a imaginação as lacunas que a falta de documentos deixava, também já se sabia. Agora, que outros foram alvo de picuínhas ou vinganças tardias de que já não puderam se defender só o tempo, senhor da razão, vai deixando perceber.

É caso de Camilo Pessanha (1867-1926), um dos maiores representantes do Simbolismo português, de quem Paulo Franchetti, professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acaba de lançar um esboço biográfico (vida e obra) pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de Lisboa: O essencial sobre Camilo Pessanha, dentro de uma coleção que vem recolhendo o fulcro do pensamento de várias personalidades intelectuais da vida portuguesa.

De Camilo Pessanha, antes de prosseguir, é preciso lembrar que, nascido em Coimbra, filho de um estudante de Direito e de sua governanta, embora registrado como de pai incógnito, viveu com os progenitores nos Açores e, depois, no Lamego. Formado em Coimbra em 1891, foi aprovado em concurso para lecionar no recém-criado Liceu de Macau, para onde viajou em 1894, lá ficando até a morte. Desde então, em Portugal só esteve durante apenas quatro curtos períodos, valendo-se de licenças médicas.

II

Que muitas informações de que se tinha conhecimento não batiam com outras que andavam espalhadas por testemunhos dispersos, já se sabia. E, portanto, tudo isso causava desconfiança. Tanto que todo crítico consciencioso sempre procurava ressaltar esses dois ângulos antagônicos: de um lado, a personalidade abúlica que se atribuía ao poeta, alguém que, no exílio voluntário em Macau, precisava do estímulo do ópio para fugir de um meio medíocre; de outro, o homem realizado profissionalmente que, influente e reconhecido na fechada sociedade portuguesa da colônia, chegara a juiz e a membro de uma loja maçônica e que, a um ano de sua morte por tuberculose, fora nomeado reitor substituto do Liceu Português.

Convenhamos que alguém andasse pelas ruas de Macau com sua figura esquálida, de saúde frágil e longas barbas negras, como um molambento, certamente, não chegaria tão longe. Portanto, algo devia andar errado nos estudos biográficos que se conhecia.

Foi, portanto, para passar a limpo algumas dessas informações equivocadas que Franchetti colocou-se a campo. Autor de vários estudos sobre a obra do poeta, como “Camilo Pessanha e a China” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 11, Campinas, IEL/Unicamp, 1989), “Camilo Pessanha -- algumas considerações em contributo à sua biografia” (In: Estudos Portugueses e Africanos, nº 21, Campinas, IEL/Unicamp, 1993), “Camilo Pessanha e o Liceu de Macau” (In: Voz Lusíada, nº 5, São Paulo, Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes, 1995) e Nostalgia, Exílio e Melancolia -- Leituras de Camilo Pessanha (São Paulo, Edusp, 2001), o crítico atirou-se a uma tarefa nada fácil.

Afinal, ao contrário do poeta Wenceslau de Moraes (1854-1929), que viveu a maior parte de sua vida no Oriente, mais especificamente no Japão, prolífico escritor de cartas, Pessanha não teria sido muito amante da epistolografia, arte que, como se sabe, foi, nos últimos tempos, praticamente, condenada à morte pela revolução digital. Mas se foi um grande epistológrafo, é bem possível que as cartas que escreveu ao longo da vida tenham-se perdido para sempre.

Portanto, aqueles que se dedicaram a levantar traços biográficos de Pessanha acabaram limitados a testemunhos não só confusos e fantasiosos como pouco confiáveis, em razão das muitas inimizades que o poeta disseminou por Macau, até mesmo por força das funções que exerceu como juiz e advogado. Aliado a isso, é de lembrar que a aura de poeta amargurado, que preferira as agruras do desterro voluntário ao Portugal acanhado de seu tempo, era tudo o que o esfumaçado ambiente de décadence do seu tempo valorizava.

III

Um desses mitos contra os quais Franchetti investe é o de que não teria sido um bom conhecedor da língua e da cultura chinesas. Aliás, pode-se até aceitar que Pessanha tenha tido a colaboração do sinólogo José Vicente Jorge ou outro letrado chinês para traduzir/recriar as peças que compõem “As Oito Elegias Chinesas”, que publicou no semanário O Progresso, de Macau, nas edições de 13 e 20 de setembro e 4 e 18 de outubro de 1914. Mas a questão, como argumenta Franchetti, é que aqueles que fizeram tal tipo de avaliação também nunca deram nenhuma prova de que sabiam o que estavam a avaliar. A partir daqui, o autor desfila uma série de argumentos que mostram que a biografia de Pessanha tem sido tecida por uma longa lista de fantasias insustentáveis.

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