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Simbolismo e hermetismo

29.05.2008
 
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Simbolismo e hermetismo

Adelto Gonçalves (*)

I

Responder ao que Anna Balakian (1915-1997), antiga diretora do Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Nova York e reconhecida scholar na área de Simbolismo e Surrealismo, questionou há quase quatro décadas foi o que moveu os participantes do Simpósio Hermetismo e Simbolismo, realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2004, na Universidade de Saragoça, Espanha, sob a coordenação dos professores Luis Beltrán Almería e José Luis Rodríguez García.

E o que questionou Anna Balakian? Quem conhece o seu livro El movimiento simbolista (Madri, Guadarrama, 1969) sabe que a teórica tentou encontrar respostas para várias questões, como saber se o Simbolismo constituiu uma reação ao Romantismo. Ou se foi uma continuação da estética do Romantismo. Ou ainda se foi um movimento paralelo ao Naturalismo ou sua síntese.

Mais: quais foram os seus pontos de contato com outros conceitos similares, como decadente, impressionista, hermético e imagista? Até que ponto teve uma origem comum com o Surrealismo? Como e onde manteve melhor sua originalidade frente a outros movimentos literários? Qual foi a contribuição do Surrealismo e do Modernismo?

Além dos dois professores organizadores, mais oito estudiosos foram convidados para dar respostas a tais questões, sete espanhóis e um brasileiro, Massaud Moisés, professor titular aposentado de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e autor de uma vintena de obras, entre as quais se destacam os três volumes de As estéticas literárias em Portugal (Lisboa, Caminho, 1997-2002). As respostas a tantas interrogações podem ser encontradas nos dez ensaios reunidos em Simbolismo y Hermetismo: aproximación a la modernidad estética, publicado por Prensas Universitarias de Zaragoza em janeiro de 2008.

No ensaio que abre o volume, “Hermetismo y Simbolismo. Aproximaciones”, Massaud Moisés observa que é difícil afirmar que a poesia de William Butler Yeats (1865-1939) e Fernando Pessoa (1888-1935) seja fruto da crença esotérica e não produto de uma inclinação do intelecto e da sensibilidade que encontra no hermetismo a atmosfera mais adequada para a sua eclosão. “A mais de um século de distância, tem-se a impressão que o progresso da arte poética desde o Romantismo se encaminhara, de algum modo, para o que mais tarde se converteria na arte simbolista. Isto aconteceria, antes ou depois, por uma espécie de imperativo histórico que substituía a ordem clássica pela aventura romântica como já observara Guillermo de Torre (1900-1971), e que refutava o absoluto inerente à arte vinculada aos clássicos greco-latinos em favor do individualismo procedente da ascensão da burguesia à pirâmide social, em conseqüência do declínio das velhas monarquias”, diz (pp.43-33).

II

Dentro dessa mesma linha de pensamento, em “Ficcionalidad y Hermetismo”, Antonio Garrido Domínguez, professor de Teoria Literária da Universidade Complutense de Madri, lembra que o Simbolismo constitui uma realidade inerente à literatura hispano-americana contemporânea, fato a que não é alheia a atração que sentem seus cultivadores pelo fantástico em suas diversas manifestações, como os argentinos Jorge Luis Borges (1899-1986), Adolfo Bioy Casares (1914-1999), Julio Cortázar (1914-1984) e guatemalteco Augusto Monterroso (1921-2003).

Como exemplo, porém, Garrido Domínguez cita quatro textos curtos do mexicano Juan José Arreola (1918-2001), La mijada, El prodigioso miligramo, El guardagujas e Parábola del trueque, que constam de Confabulario (México, Editorial Joaquín Mortiz, 1975), livro que apareceu pela primeira vez em 1952. E o fez muito bem. Porque ninguém mais que Arreola pode bem representar o realismo fantástico, esse ramo do Simbolismo, na literatura hispano-americana, movimento que, diante da impossibilidade do homem de aceder ao conhecimento de si mesmo, procurou radicalizar a busca do lado oculto da realidade.

Diz o ensaista que, para aceder a nós mesmos, é preciso recorrer ao “êxtase”, ou seja, situar-nos fora de nós mesmos, e tal estágio só se consegue partindo do real, mas transgredindo-o por meio do “como se” ou, o que é o mesmo, extendendo-nos mais além de nós mesmos e projetando-nos de nossas possibilidades. Foi o que sempre fez Arreola, um contista de uma originalidade sem par nas literaturas espanhola e hispano-americana, que, na brasileira, só poderia ser comparado a Murilo Rubião (1916-1991), autor de O ex-mágico (1947), O pirotécnico Zacarias (1974), O homem do boné cinzento e outras histórias (1991) e outras obras que foram rotuladas como realismo fantástico.

III

Para bem ilustrar o que afirma, Garrido Domínguez faz um resumo de El prodigioso miligramo, que, em linhas gerais, conta como o autoritário regime das formigas se encontra primeiro com a dissidência de uma formiga que decide transportar um chamativo miligramo (milésima parte do grama), em vez de levar a carga assinalada para o sustento coletivo. O castigo imposto é a morte da formiga dissidente, mas, como ocorre aos mártires de uma causa, a morte da formiga que preferiu não renunciar as suas convicções desperta em suas irmãs de raça o imperioso desejo de imitar o seu comportamento até o ponto que a hierarquia se vê obrigada a condescender para evitar males maiores. Qualquer semelhança com agrupamentos humanos, obviamente, não é mera coincidência.

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