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José Daniel, rival de Bocage

29.05.2007
 
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José Daniel, rival de Bocage

Ao contrário do que muitos imaginam, ao final do século 18, em Lisboa, não eram de Bocage os versos que mais se repetiam na boca dos cultores de poesia. Pelo menos entre aqueles que cultuavam uma espécie de poesia mais popular, senão chocarreira. Não é que Bocage não tenha pagado o seu preço ao duvidoso gosto da época mas é que a maioria de suas composições mais sérias não atraía esse tipo de gente que freqüentava tascas e casas de pasto nos arredores do Rossio.

Adelto Gonçalves (*)

I

Ao contrário do que muitos imaginam, ao final do século 18, em Lisboa, não eram de Bocage os versos que mais se repetiam na boca dos cultores de poesia. Pelo menos entre aqueles que cultuavam uma espécie de poesia mais popular, senão chocarreira. Não é que Bocage não tenha pagado o seu preço ao duvidoso gosto da época — e o fez com abundância, com versos que, mais tarde, lhe garantiriam um lugar de destaque entre autores fesceninos que seriam procurados com outros propósitos que não o de reverenciar a qualidade do poema —, mas é que a maioria de suas composições — digamos assim — mais sérias não atraía esse tipo de gente que freqüentava tascas e casas de pasto nos arredores do Rossio.

Nesse ramo poético faziam mais sucesso, ao seu tempo, pelo menos, dois poetas cujas obras, hoje, colocadas na balança, não chegariam sequer aos pés da de Bocage: Domingos Caldas Barbosa e José Daniel Rodrigues da Costa, autores de versos que, até há pouco tempo, dormiam o sono dos esquecidos nos prateleiras da Biblioteca Nacional de Lisboa, da Torre do Tombo e de outros arquivos.

Escreve-se aqui dormiam porque foi há pouco tempo que saiu à luz Domingos Caldas Barbosa: o poeta da viola, da modinha e do lundu 1740-1800 (Lisboa, Caminho, 2004; São Paulo, Editora 34, 2004), em que o pesquisador brasileiro José Ramos Tinhorão resgata a história desse clérigo secular nascido no Rio de Janeiro em 1740, filho de um funcionário régio português com uma escrava de Angola.

Formado no Colégio dos Jesuítas do antigo morro do Castelo do Rio de Janeiro, serviu primeiro como soldado na fronteira Sul do Brasil para depois ingressar na Universidade de Coimbra. Em Lisboa, ao cair nas graças de D.José Luís de Vasconcelos e Sousa, o conde de Pombeiro, irmão do vice-rei do Brasil, ficou conhecido como animador dos salões da Corte e moveu amizades influentes a ponto de garantir uma sinecura religiosa e a inscrição na Arcádia de Roma, onde adotaria o nome de Lereno Selinuntino.

Foi o primeiro menestrel brasileiro a obter êxito em Portugal e seus versos fáceis encontrariam tanta receptividade entre a gente do povo de lá e de cá do Atlântico que o crítico e historiador literário Silvio Romero na segunda metade do século 19 os encontraria repetidos no Brasil como canções anônimas por cantores de feira analfabetos.

Como se sabe, o êxito mundano das modinhas brasileiras de Caldas Barbosa no começo da década de 1790 não deve ter agradado muito a Bocage. Sua Viola de Lereno trazia cantigas de versos pobres para serem acompanhadas com música, que não ofendiam a religião nem os bons costumes, o que o levou a tocar e escrever para D. José e sua filha D.Maria.

Não é que Bocage fosse um revolucionário, ainda que os sucessos da Revolução Francesa lhe tenham mexido com os brios. Talvez o que incomodasse Bocage, além da má qualidade dos versos, fosse a maneira desenvolta com que o clérigo se movimentava pelos salões da aristocracia. Afinal, no século 18, o que mais um poeta queria era ser aceito pela nobreza e regalar-se com as sobras dos banquetes.

Já cinquentão, Caldas Barbosa, sempre simpático, cantava lundus e modinhas, acompanhado à viola. E presidia as sessões da Nova Arcádia, as chamadas quartas-feiras de Lereno, que se realizavam no palácio do conde de Pombeiro. Bocage freqüentou as sessões, mas, depois, irritado por ter sido chamado por José Agostinho de Macedo de sultão do Parnaso por querer impor aos demais suas concepções de poesia, escreveu o soneto que começa por “preside o neto da rainha Ginga/ à corja vil, aduladora, insana (...)”. Nesse e em outro soneto, não hesitou em recorrer ao preconceito racial — como era natural à época — para ofender Caldas Barbosa, ao chamá-lo de orangotango, mono, animal sem rabo, dizendo que a sua alta ciência não passava de mandinga.

II

Só que a essa época o poeta mais popular de Lisboa não era nem Bocage nem Caldas Barbosa. Era, sim, José Daniel Rodrigues da Costa, cuja linha de atuação não diferia muito da do clérigo brasileiro. Quem se der ao trabalho de na Biblioteca Nacional de Lisboa folhear a coleção da Gazeta de Lisboa daqueles anos vai logo descobrir que era quem mais publicava.

Pois é este José Daniel Rodrigues da Costa quem acaba de ser exumado em edição limitada de 100 exemplares e fora do mercado, patrocinada pelo Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto dentro do Projeto Utopias Literárias e Pensamento Utópico: a Cultura Portuguesa e a Tradição Intelectual do Ocidente – II, integrado no Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, e pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Destinada a se tornar logo raridade entre os alfarrabistas, esta edição do poema O balão aos habitantes da Lua: uma epopéia portuguesa, de José Daniel Rodrigues da Costa, vem acompanhada por uma criativa introdução da professora Maria Luísa Malato Borralho, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com ilustrações da jovem artista Délia Silva.

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