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Um escritor quase invisível

29.03.2007
 
Pages: 12
Um escritor quase invisível

SIDNEI LIBERAL


Traduzido em cerca de vinte idiomas, o escritor bolonhês Carlo Frabetti, de 61 anos, que vive na Espanha desde os oito anos, tem mais de cinqüenta livros publicados, e diversos roteiros para TVE. Já premiado com o Jaén de Narrativa Infantil e Juvenil por seu livro “O Grande Jogo”, acaba de receber o prêmio O Barco a Vapor por seu livro “Calvina”. É membro da Academia de Ciência de Nova Iorque e da Aliança de Intelectuais Antiimperialista e preside a Associação Contra a Tortura.


Em recente entrevista a Rebelión ( http://www.rebelion.org/), disse que escreve para as crianças, hoje, visando homens e mulheres do amanhã. Ele vê nas crianças que lhe entrevistam uma salutar curiosidade sobre o ofício de escrever. Encantam-lhes, no duplo sentido do termo, as fantasias da sua leitura. Frabetti acredita que a literatura estimula a imaginação e exercita o pensamento abstrato que nos fortalece frente à avassaladora corrente que nos submete à estupidez do discurso dominante.


Em sua criação, vê complementaridade entre imaginação e lógica e, em certo sentido, também entre fantasia e ética. Ressalta: “construímos outros mundos porque não estamos contentes com este”. E repete o que dizia Gabriel Celaya da poesia: “os livros são armas carregadas de futuro”. O escritor, que faz parte da lista de honra da Comissão Católica para a Infância, atribui seu êxito ao esforço para descartar qualquer forma de doutrinação moralista ou ideológica. Prefere propor solidariedade, diálogo e respeito. Valores sobre os quais “cristãos e marxistas estamos basicamente de acordo”, acrescenta.


Carlo Frabetti é o autor de mais livros publicados pelo poderoso grupo Prisa. Por isso, ficou surpreso ao ser descartado pela empresa, tanto no nível midiático como editorial. A razão óbvia, segundo o autor, mesmo que ninguém lhe houvesse formalmente comunicado, foi seu apoio a Cuba e à revolução bolivariana da Venezuela, sobretudo sua denúncia das vergonhosas campanhas contra esses países orquestradas pelo grupo e escritores bajuladores sob seu soldo. A represália subtraiu sua principal fonte de vida e meio de comunicação com seu público. Ou como ele próprio diz: “tornou-me quase invisível”.


A situação de Frabetti nos remete ao ocorrido com o jornalista Marco Aurélio de Mello nesta sexta-feira (23): há quatro anos editor de economia do Jornal Nacional, foi demitido por seu trabalho “não ser mais compatível” com os objetivos da empresa, informa Carta Maior. Em outubro, ele e outros jornalistas se recusaram a subscrever o abaixo-assinado que defendia haver isenção e apartidarismo na cobertura da rede Globo das eleições presidenciais. Leia aqui matéria de Carta Maior sob o título “População critica cobertura; Globo faz abaixo-assinado pra se defender”.


Essas atitudes da rede Globo têm como fulcro, custe o que lhe custar, sua posição ideológica. Emblemático o episódio Franklin Martins versus Diogo Mainardi: uma cristalina opção, respectivamente, entre um jornalista sério, competente e ético de um lado. Do outro, o seu antípoda, carente dessas qualidades. Entre ética e submissão, sai Franklin fica Diogo. Na mesma trilha de Marco Aurélio, o repórter Rodrigo Vianna, doze anos de casa, foi sumariamente despedido após críticas internas à parcialidade da cobertura da Globo das mesmas eleições presidenciais. Leia aqui a matéria “Repórter da Globo denuncia parcialidade na cobertura das eleições 2006” da Carta Maior.


Tudo a ver com a estratégia global, em amplo sentido, de divulgar ao distraído público apenas o que é compatível com o discurso dominante de que nos fala Carlo Frabetti. Outra especialidade da Globo é a dissimulação: fatos pontuais ou parte deles, fora do contexto, são as provas de falsas premissas. Examinemos a coluna do bloguista, revelação tucana, Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, desta segunda-feira (26): Leia aqui na integra. A coluna, sob o título “Lula e oportunidades perdidas”, encerra habituais e gastos conceitos oposicionistas de que o Brasil vai bem apesar de Lula e que se o Brasil vai bem é pelo contexto internacional favorável, além de outros conhecidos blablablás. Ou, à moda Miriam Leitão: “poderia estar melhor”.


Apesar da intenção malevolente o tucano afirma, logo de início, que “a pesquisa Datafolha publicada ontem contém um elemento de caráter histórico: Lula é o presidente da República mais bem avaliado depois de três meses no Palácio do Planalto desde o retorno do país à democracia”. Pesquisa favorável ao presidente Lula. Irrefutável? Sim. Indissimulável? Não. De pronto o Bom Dia Brasil encontrou uma fórmula de depreciar o resultado da pesquisa da Folha. O telespectador da Globo ficou com a impressão de que a pesquisa apresentava um decréscimo de três pontos. Contra Lula, claro.


Por essa mesma técnica, sempre no seu interesse ideológico, com validade para Veja & Cia., deixa-se de saber, por exemplo, que o comandante do Exército colombiano, Mário Montoya, ajudou milícias paramilitares a eliminar guerrilheiros marxistas, segundo um documento da CIA citado ontem (dia 25) no insuspeito "Los Angeles Times". Leia aqui a matéria na íntegra. Montoya e diversos deputados ligados ao narcotráfico integram um grupo próximo ao presidente Álvaro Uribe, principal aliado dos EUA no continente e líder do que a senadora colombiana Piedad Córdoba chama de “narco-para-política”.

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