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20 anos sem Tarkovski

28.12.2006
 
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20 anos sem Tarkovski

Andrei Tarkovski foi, sem dúvida, um dos maiores cineastas de todos os tempos. Filmes como Andrei Rublyov, Solaris, Stalker e O Sacrifício são mundialmente reconhecidos como obras-primas. Tarkovski é o único diretor soviético capaz de rivalizar com o pioneiro Serguei Einsenstein.

Andrei Tarkovski foi, sem dúvida, um dos maiores cineastas de todos os tempos. Filmes como Andrei Rublyov, Solaris, Stalker e O Sacrifício são mundialmente reconhecidos como obras-primas. Tarkovski é o único diretor soviético capaz de rivalizar com o pioneiro Serguei Einsenstein.

No dia 29 de dezembro, farão 20 anos da morte de Tarkovksi, de câncer pulmonar, longe de seu país e de quase todos seus amigos e parentes, com apenas 54 anos de idade.

Embora sem nenhum interesse por temas políticos, Tarkvoski teve problemas com o regime soviético. Algumas vezes, Tarkovski não era proibido de realizar seus filmes, mas sim de exibi-los: foi o que aconteceu com Andrei Rublyov (1966), filme bastante religioso sobre o pintor medieval de ícones, que demorou 5 anos para estrear na URSS.

Mas a causa do conflito talvez fosse exatamente porque ele era tão apolítico: Tarkovski não se importava com temas sociais, mas sim com questões religiosas e espirituais, o que o punha em conflito com um regime oficialmente ateu. Era um russo do século XIX, com as mesmas preocupações morais e místicas de Tolstoi e Dostoievski, perdido na União Soviética: estava conviencido de que nossos problemas não são polìticos ou econômicos, mas devido a nossa falta de valores morais e espirituais.

Algo que atesta a espiritualidade de todos os filmes de Tarkovksi é que nada menos que 5 de seus filmes estão numa lista dos 100 filmes mais espiritualmente relevantes, elaborada por um fórum de discussão sobre arte e religião (http://artsandfaith.com/t100/). Os filmes de Tarkovski presentes são Andrei Rublyov (10ª posição), Stalker (22ª), O Sacrifìcio (35ª), O Espelho (62ª) e Solaris (67ª). De acordo com essa lista, Tarkovski é o diretor mais espiritual de todos os tempos, pois nenhum outro tem tantos filmes presentes.

Seus filmes requerem muita paciência dos espectadores: são longos e lentos. Quem está acostumado com o ritmo alucinante dos filmes de ação atuais vai ter muita dificuldade com Tarkovski. Mas quando nos acostumamos ao seu ritmo, e imergimos na contemplação à qual nos convida, o resultado é muito compensador: pouquíssimos cineastas conseguem transmitir uma experiência espiritual tão intensa. O genial Ingmar Bergman afirmou que viu nos filmes de Tarkovski o que ele mesmo tentou em vão expressar. Exagero: Bergman foi outro grande cineasta espiritual, e conseguiu expressá-lo muito bem; mas sua admiração por Tarkovski atesta a grandeza do diretor russo.

Apesar dos problemas com as autoridades soviéticas, Tarkovski conseguia fazer seus filmes, embora bastante menos do que gostaria, e até mesmo teve a possibilidade de realizar o mais caro filme russo, Solaris (1972). Esta ficção-científica é erroneamente considerada “a resposta soviética ao 2001- Uma Odisséia no Espaço”. Tarkovski assistiu ao filme de Kubrick, e não gostou: afirmou que é um filme “estéril e frio”. E realmente, enquanto o 2001 lida com temas metafísicos (basicamente buscando responder às antigas perguntas “Quem somos?”, “De onde viemos?” e “Para onde vamos?”), Solaris é um filme sobre sentimentos, e repleto deles: saudade, medo ao desconhecido, culpa e anelo de redenção.

Tarkovski reclamava que tinha poucas oportunidades de fazer filmes, e que tinha muitas idéias que não lhe permitiam concretizar. Ele realizou apenas 7 filmes, além de alguns curtas e médias metragens que fez quando era estudante de cinema. A censura soviética, a partir de Khrushchov, já não era mais como na época de Stalin: não se perseguia, prendia ou matava dissidentes, mas dava pouca possibilidade de expressão àqueles que não assumiam a ideologia oficial. Tarkovski, diferentemente de outros grandes artistas soviéticos da geração anterior, como Shostakovitch, Mayakovski e Eisenstein, nunca esteve sob o perigo de ser preso ou perder a vida. Mas sofria constantemente limitações a suas obras, principalmente quanto a verbas para produção e exibição.

Stalker (1979), o último filme que ele fez na União Soviética, é ainda mais supreendente: Tarkovski conseguiu realizar e lançar um filme que tem uma visão pessimista do futuro, contrário à ideologia oficial soviética, que acreditava no triunfo do socialismo e na constituição de uma sociedade perfeita; que mostra a poluição, o lixo e a feiúra causados pela sociedade industrial, quando a URSS perseguia a industrialização a qualquer custo, sem considerações ambientais; e que, apesar de estar disfarçado de ficção científica, é na verdade um filme sobre a iniciação mística, profundamente religioso. Tudo isso prova que, apesar de tudo, havia uma certa tolerância a opiniões diferentes da oficial, na URSS antes de Gorbatchov, embora sem dúvida fossem desencorajadas.

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