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Um leigo volta a falar sobre a história da arte

28.08.2019
 
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Um leigo volta a falar sobre a história da arte 1

 

Iraci del Nero da Costa *

  

Segundo imagino existem distintas formas de expressarmos o desenrolar ou história das artes gráficas ou pictóricas, enfim da arte da pintura desenvolvida pela humanidade.

Em seu nascedouro teria ela identificado-se com o desejo, a pretensão ou a vontade de realização de ação concreta a ser efetuada pelo homem - o ser primitivo deve ter começado a fazer as pinturas rupestres como uma extensão de sua atividade cotidiana, como se fosse levado por uma força inercial; ele caçava, caçava, caçava... quando parava continuava a ação de caçar desenhando a caça com a qual desejava defrontar-se no dia seguinte.

A seguir a arte identificou-se mais diretamente com a linguagem e passou a lastrear-se no que poderíamos considerar ser a palavra escrita ou literatura. No ocidente, este momento importante na pintura estaria nas iluminuras e na arte medieval em geral, tal momento foi complementado com a emergência dos Clássicos e do humanismo.

Subsequentemente foram exploradas as distintas maneiras figurativas de ver o real ou seja, encontramo-nos com o impressionismo. Agora a apreensão do que está ali, da coisa em si, refina-se. Pretende-se incorporar a própria existência do ar que está entre o representado e o pintor. Mais ainda, a luz e as sombras, tornam-se uma preocupação sempre presente, esta preocupação chega ao máximo com o pontilhismo, agora as próprias cores são decompostas na tela para recompor-se no cérebro do espectador.

Mais ainda, como não vemos as coisas de um só ângulo - pois as vemos de frente, de costas, de cima, do lado, por dentro etc. -, impunha-se para "captá-las de verdade" reproduzi-las segundo todas estas formas de abordá-las. Daí o cubismo.

Com o cubismo chega-se a um limite. Aquilo que se coloca à nossa frente, "fora de nós" já teria sido dominado. Agora é preciso penetrar uma outra realidade, qual seja, a que está dentro de nós. É preciso percorrer nosso cérebro por dentro dele, é preciso captar o inconsciente. Esta tarefa vai ser desempenhada pelos surrealistas. Eles pintam uma realidade que está muito longe do mundo que está fora de nós, eles pintam um mundo que está dentro de nós!

Afora o inconsciente existe todo um universos de tensões, medos, angústias etc. que também mereceram a atenção dos pintores, coube ao expressionismo buscar esses elementos nos desvãos da mente. Agora já dominamos o que está fora e o que está dentro de nós.

Mas a caminhada não para aí, pois os pintores descobriram existir uma outra criação absolutamente original da mente, qual seja: a pura forma, a forma ela mesma, a forma pela forma. Assim, chega-se a uma dimensão nova da mente: a arte abstrata.

Por fim, vemo-nos conduzidos aos dias correntes nos quais a arte passa a expressar opiniões, visões individuais ou mesmo perspectivas ideológicas de seus autores, resulta daí um contato entre dois elementos: o autor e o observador. Neste caso a resultante da obra de arte chega a uma indeterminação pois já não pode de maneira nenhuma ser identificada como uma "forma" única, na realidade temos a visão do artista e aquela gerada no cérebro de cada um dos distintos observadores da obra em questão. Destarte, resta a possibilidade de tal ou qual obra ser rejeitada  enquanto tal por um ou mais de um de seus observadores. Dadas as circunstâncias enunciadas acima verifica-se que muitos dos atuais autores das artes plásticas em geral parecem perseguir, sem cuidados estéticos bem elaborados, a ofensa, a agressão e a comoção pelo inusitado ainda que rudimentar e tecnicamente mal elaborado.2

  

* Professor Livre-docente aposentado.

  

NOTAS

1. Neste texto tento complementar minhas ideias expressas em: Opiniões de um leigo sobre a arte e sua história, publicado na versão em português do Pravda.ru online, 5 de fevereiro de 2016, disponível em:

http://port.pravda.ru/mundo/05-02-2016/40325-leigo_historia_arte-0/

  

2. Sobre esta última afirmação veja-se: COSTA, Iraci del Nero. Nota sobre as artes nos dias correntes, publicado na versão em português do Pravda.ru online, 10 de janeiro de 2016, disponível em:

http://port.pravda.ru/sociedade/cultura/10-01-2016/40147-nota_sobre_dias-0/

  

Foto: https://en.wikipedia.org/wiki/File:Creaci%C3%B3n_de_Ad%C3%A1n.jpg

 


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