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Uma Data Fatídica ... 28 de Fevereiro de 1933

28.02.2020
 
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Uma Data Fatídica ... 28 de Fevereiro de 1933

                                  Uma Homenagem Merecida

Faz precisamente 87 anos que, debaixo dos tiros de uma força militar, no Largo Vasco Bensaúde nesta mesma cidade de Ponta Delgada, eram abatidos a tiro dez cidadãos açorianos/micaelenses, resultando no fatídico desfecho de três mortos e sete feridos,  sendo que desses, só  cinco fazem parte do documento emitido pela Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada em nosso poder levando-nos a crer que os outros dois não chegaram a serem internados.

Este episódio é "História". É parte da "NOSSA HISTÓRIA". Aquela que não querem que seja matéria do nosso ensino.

Para que o leitor possa entender a nossa posição, em aqui trazer esta data e, o que pretendemos em Homenagear publicamente as vítimas da data em título, no próximo dia 28, é imprescindível a exposição abaixo descrita o que poderá tornar extensivo o presente artigo, para o que peço a vossa compreensão.

 Foi com a Decreto de 2 de Março de 1895 emanado de Lisboa que os Açores conquistaram a sua Autonomia Administrativa que passou a letra da Constituição Portuguesa. O Arquipélago passa a estar dividido em distritos chamados de autónomos entregues à gestão das Juntas Gerais de Distrito, e que tinham funções e competências nas áreas económicas e de fomento. Entretanto, na prática, os Açores estavam abandonados ao ostracismo, ao abandono e, consequentemente sem desenvolvimento.

A descentralização levava que as Juntas Gerais a assumirem todas as despesas dos serviços entregues pelo Estado que, ia arrecadando as receitas geradas pelas mesmas que, ficavam dependentes de subsídios do Governo central para a realização de programas ou realização de quaisquer acções com interesse para as populações dos então distritos criados. Tal situação leva ao descontentamento das mesmas que começam a mostrar-se inquietos com a mesmas. Esclareça-se, que os governos dos três distritos açorianos, desde a sua criação até 1932, foram sempre entregues a portugueses que, à moda colonialista e a exemplo dos Capitães Donatários, o poder central procedeu em relação aos Açores.

Por estas bandas os micaelenses começam a mostrar-se inquietos. O mal-estar instala-se e, começam as forças vivas do Distrito a movimentarem-se para acabar com a quase calamidade que tomava conta da economia e desenvolvimento do mesmo.

José Bruno Tavares Carreiro faz referência na sua obra "A Autonomia Administrativa" à forma como o estado fazia a contabilidade levando sempre a melhor nos resultados apresentados pelas Juntas Gerais. Recomendamos a leitura da "obra" de um dos nossos ancestrais autonomistas.

Perante o quadro apresentado, tornava-se imperioso uma posição que levasse o Governo de Lisboa a entender que não podia continuar a desfrutar os resultados positivos gerados nos Açores para benefício próprio e "recheio" dos seus cofres.

A 15 de Julho de 1932, passados 96 anos é nomeado pela primeira vez um açoriano para Governador Civil nos Açores e para o Distrito de Ponta Delgada (Santa Maria e S. Miguel) de seu nome Jaime Resende do Couto, advogado de profissão e natural de S.- Miguel.

Inteirado da grave situação que atingia o Distrito de Ponta Delgada e, antevendo a afronta política que se desenhava a 22 de Fevereiro de 1933 com a publicação de  um projecto de constituição que representava um recuo na autonomia, Jaime Resende desloca-se a Lisboa para junto do Governo tratar pessoalmente dos problemas que emperram o eficaz desempenho nomeadamente das juntas gerais. Na deslocação, faz-se acompanhar por uma pequena comitiva de 3 responsáveis dos serviços públicos de maior relevância. De realçar o apoio das forças vivas de S. Miguel e de todo o extracto social (povo), que o fazem publicamente junto ao edifício do Governo Civil.

Na capital do império, não obstante todo o empenho e esforço, na apresentação, às instâncias oficiais Presidente do Conselho e o Ministro das Finanças sobre os assuntos que constituíam as justas aspirações dos micaelenses e, os resultados não apareceram, Jaime do Couto apresenta a sua demissão do cargo no dia 25 de Fevereiro ainda em Lisboa.

A notícia de tal decisão age como um rastilho de pólvora, autarquias, corporações administrativas acompanham a demissão do Governador a sociedade civil manifesta-se.

Depois de uma manifestação contra os "continentais" no dia 27 à chegada do Carvalho Araújo, resultando o:

 28 de Fevereiro de 1933 - milhares de pessoas manifestam-se invadindo as ruas de Ponta Delgada, no Largo Vasco Bensaúde tomam de assalto a estação dos correios no mesmo existente. Verificando-se os ânimos exaltados dos manifestantes e prevendo o aumento da violência, alguém solicita a intervenção da força pública. Em resposta sai do quartel de S. João (actual Teatro Micaelense, uma força do exército, composta por um sargento e seis praças comandados por um capitão. Consta ainda, que da força militar, fazia parte um carro equipado com metralhadora. Chegados à Matriz e ao verem-se envolvidos pela multidão, disparam sobre a mesma, causando logo dois mortos e sete feridos, ocorrendo ainda uma terceira morte na Rua Machado dos Santos.

Nos dias seguintes a imprensa publica notícias sobre a actividade do governador civil em Lisboa, as reuniões de trabalho, o andamento dos processos e as soluções que vão sendo encontradas. Sobre os graves acontecimentos ocorridos, pouco existe para além dos comunicados oficiais e notícias oficiosas na imprensa.

 Esmagada a população, houve que ajustar contas com Jaime do Couto, o que veio a acontecer como consequência de um processo relâmpago, baseado em factos particulares, que o levaram à prisão no dia 6 de Fevereiro de 1934, por um período de dois anos.

Outras ocasiões houve em que os defensores da Autodeterminação dos Açores, sofreram a represália do poder colonialista do estado português. Tivemos 35 açorianos presos no escuro da noite por militares armados e a mando de um general, mais tarde condecorado pela poder autonómico. Visitaram-nos em 1979, 200 policias de choque que chegaram a fazer gosto ao dedo como se diz, na baixa citadina. Entretanto foram tão acarinhados pela população que depressa fizeram a malas de volta.

Hoje ou no recente, varrem os símbolos autonómica com uma penada nas cerimónias como o Dia de Portugal. Os militares continuam a não quererem hastear a Bandeira da Autonomia nos quarteis.

Lembrar que os presos "do 6 de Junho" estão homenageados para a prosperidade precisamente no local, onde segundo o Presidente da Câmara José Manuel Boleeiro, afirmou quando do descerrar da placa de Homenagem, "ser precisamente o local onde se virou mais uma página na História dos Açores, pretendendo honrar a liberdade e a democracia"

Um grupo de cidadãos de que fazemos parte, usando a sigla de "Açores Sempre - 2020" tomou a liberdade de convocar por mail, através das redes sociais, e outos meios, uma "Homenagem" pública, aqueles que um dia os familiares choraram, ao serem abatidos por militares do exército português e, a mando do seu governo quando se manifestavam a favor de melhores condições de vida através de uma autonomia administrativa que à altura era letra da Constituição. O convite efectuado a todas as forças políticas, a entidades oficiais e particulares, tem o fim que ousamos plagiar em parte, do discurso do presidente da Câmara José Manuel Bolieiro "ser precisamente o local onde se assistiu a uma página "Fatídica na História dos Açores", pretendendo honrar a liberdade e a democracia"

A "Homenagem" será constituída por uma placa alusiva onde constarão o nome dos três mortos e dos seis feridos conhecidos pelo documento atrás referido pela Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada. Açoriano, esperamos por ti.

"E, guardemos a certeza pelas próprias dificuldades já                superadas, que não há mal que dure para sempre".

                                          (Xico Xavier)

José Ventura

Ribeira Grande 2020-02-23

O autor por opção não respeita o acordo ortográfico

 


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