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O Poeta [louco] das Flores

27.11.2008
 
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Família de artistas

Wagner Américo tem nome de artista. A mãe apreciava música clássica, por isso colocou no filho o nome do músico alemão. "Aprendi a valorizar cultura no Rio de Janeiro", se orgulha o carioca, filho de baianos que foram ao Rio em busca de emprego e lá tiveram o primeiro filho, em 1924.

Com um ano, Wagner voltou à Bahia, onde morou até 1943. Decidiu retornar à cidade natal em busca de emprego. Na capital fluminense, conheceu Helena Fontes Silva, com quem se casou e teve Sheila, hoje com 60 anos. Os motivos da separação dele com Helena, entretanto, o poeta se esquiva de falar. Desde 1963, ele vive com Cleusa Ramos, mãe de Tchaikovsky, 38, o segundo filho do poeta, e Strauss, 28, o caçula.

O Poeta das Flores convive com Cleusa até hoje, numa casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, bem arejada, no Beco do Leandro, uma travessa da avenida Lima e Silva, próximo ao colégio Duque de Caxias. O beco onde ele reside é estreito, mal dá para passar duas pessoas lado a lado. Para se chegar à casinha, tem uma escada de uns trinta degraus. A casa tem, ainda, uma área superior, que Wagner usa para guardar livros, descansar, se recolher e escrever poesias.

A mulher é calada, fica somente a observar minha entrevista com o marido. Raramente fala algo, mesmo quando Wagner recorre a ela para lhe refrescar a memória sobre um ou outro fato do passado.

Ela acompanha tudo, sem interferir.

Wagner, ao contrário, é falante. É um tipo que não pára de tagarelar, mesmo que eu tente interromper. Repete algumas frases já ditas, conta e reconta as mesmas histórias, como se tivesse ficado preso ao passado, do qual não deseja largar. Sobre seu gosto por poesia, o Poeta das Flores diz que veio da época em que viveu no Rio de Janeiro. "Quando morei no Rio, eu ia muito ao Teatro Municipal, assistia óperas e tinha contato com as pessoas que freqüentavam o ambiente", relembra. "A cultura que aprendi lá é muito diferente da que vejo na Bahia. Aqui as pessoas não gostam de música clássica, de teatro, de ópera. Preferem essas músicas barulhentas, que enlouquecem a gente", reclama.

De comerciante a camelô

Wagner diz que já teve dois armarinhos. De 1963 a 1974, a primeira lojinha era em sociedade com a família. Desavenças familiares motivaram sua saída do investimento em 1974, quando abriu um estabelecimento próprio, na rua Santos Dumont, 19. Esta loja mudou-se para a rua Marcílio Dias, 16, fechando as portas definitivamente cinco anos após a inauguração. O ofício de camelô Wagner Américo aprendeu no Rio, onde o poeta diz que vivia bem com as vendas. Na Bahia, após a experiência com as duas casas comerciais, teve vontade de voltar a ser ambulante. Inicialmente, sua banca foi instalada na Rua do Couro, ao lado do Hotel Castro Alves e da Igreja da Barroquinha, onde hoje é um Centro Cultural. Após o incêndio da igreja, em 1984, Wagner mudou o ponto para o final de linha da Barroquinha, onde trabalha atualmente. Sua riqueza são seus mais de 8756 poemas e rosas já distribuídas. Cada flor leva um número e um pequeno verso. "A riqueza do Wagner [a poesia] é intangível", declara, convicto de ter feito a escolha certa para sua vida.

Pretende deixar de ser camelô para dedicar-se inteiramente à arte, mas a minguada aposentadoria de apenas um salário mínimo, que recebe do INSS, não lhe permitiu, ainda, o luxo de deixar o mercado informal, pelo menos por enquanto. Outro motivo justo para se manter na atividade é o projeto, antigo, de publicar um livro de contos e parte dos 97 poemas que afirma saber de memória. "Não vai ser um livro rebuscado. Será um livreto de poucas páginas", resigna-se.

Num poema auto-retrato, Wagner revela: "No mundo louco de poesia e felicidade, o vil metal faz com que eu seja louco ativo e não possa viver no mundo dos loucos passivos. Eu sou louco". Mas o Poeta das Flores fica indignado com aqueles que não o compreendem como um louco do bem, um louco lúcido e consciente do seu papel de cidadão. Revolta-se com aqueles que não percebem seu compromisso com a arte e dedicação em espalhar bondade através da poesia.

Um dos seus poemas prediletos:

Fui a Deus

Desesperadamente fui à alvorada, uma pergunta lhe fiz:

- O que devo fazer para sorrir, minha boa amada?

Ela me respondeu:

- Acorde a você e então será feliz.

Fui à manhã e tornei a perguntar, que de pronto respondeu:

- Levanta-te, anda com firmeza.

Fui à tarde, estava linda, calorenta mas suave, que retrucou:

- Levanta-te, anda e pisa com firmeza.

Fui à noite, com todo o céu fulgurante que surgia e implorei:

- Ajude-me que estou só.

Gargalhando com alegria, disse:

- Cubra-se e faça do próprio lume o seu lençol.

Fui à madrugada, orvalho caindo, deitei, rolei na relva como pássaro ferido. Ela me ordenou:

- Levante-se, erga-se, você não está ferido.

Fui ao vento, feliz aragem naquele instante:

- Imite-me, soprando as mágoas.

Fui ao mar, no seu vai-e-vem constante:

- Prossiga como as águas.

Fui ao firmamento e para encantos meus, tudo claro, total bondade. Ele me disse:

- Ama-me, ame à humanidade, ame a você próprio. Aí está a felicidade.



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Valdeck Almeida de Jesus

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