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O Poeta [louco] das Flores

27.11.2008
 
Pages: 12
O Poeta [louco] das Flores

Por: Valdeck Almeida de Jesus

A pele negra está bastante enrugada, tanto pela idade quanto pela exposição diária ao sol enquanto trabalha. Mãos meio trêmulas, olhar às vezes perdido, o corpo já demonstra cansaço. Mas o Poeta das Flores, como é conhecido, luta para demonstrar que o tempo é apenas um companheiro inseparável. Suas roupas são bem simples, de um tempo em que se usava tergal. Ele usa um par de óculos de grau embaçado, que lhe ajuda a enxergar com o olho esquerdo. Wagner perdeu a visão do olho direito por não obedecer às prescrições médicas após uma cirurgia de catarata, em 2004. Este fato levou o poeta à depressão, inclusive ficou internado por dois meses num hospital psiquiátrico da cidade. A poesia, companheira inseparável, lhe deu fôlego para persistir e vencer a tristeza. "Escrever e declamar me fez renascer, enxergar o mundo com outros olhos", declara, apesar de se ressentir de não ver com os dois olhos, pois sua sede de conhecimento é maior do que pode abraçar.

Wagner Américo Silva é um senhor de 84 anos de idade. Mede cerca de 1,75m de altura, 63 quilos, cabelo esbranquiçado, bem curtinho, já quase careca. Aposentado desde 1989, não se acomodou nem se acostumou a ficar em casa sem fazer nada, ou 'aproveitando' a vida, como muitos fazem.

Leitor inveterado, escritor de todos os dias e horas, Wagner carrega um caderninho onde anota os poemas que lhe vêm à mente. Acorda todos os dias por volta de 6 horas da manhã e parte para o batente. De sua casa, na Liberdade, para a barraquinha de bugigangas no terminal da Barroquinha, onde trabalha, ele gasta cerca de uma hora de ônibus de segunda a sábado. É no veículo que Wagner escreve poesias e guarda no bolso. Sonhando em publicar um livro de poesias, Wagner insiste em mostrar seus escritos a todo mundo, na esperança de receber um elogio. O poeta passa o dia inteiro no trabalho, vendendo ou tentando vender todo tipo de quinquilharia, desde zíperes a pente de espichar cabelo. De fácil conversa, apesar do ritmo pausado, faz amizade com vizinhos da barraquinha, com transeuntes e com os curiosos que se aproximam dele. Sempre declamando versinhos curtos, o poeta cativa gente de todas as idades. Sua saudação predileta, e que ele repete para quem lhe é apresentado, é esta:

"Vida, agora, total realidade,

Beleza de vida, rodeada de alegria,

Ao me dar felicidade em desejar

Meu caro amigo, bom dia!"

De volta pra casa, no final da tarde, ele se recolhe às oito da noite ao leito, a fim de descansar para a batalha do dia seguinte, que recomeça, invariavelmente, às 6 horas da manhã. Sua alimentação consiste em verduras, frutas, cereais e sucos de fruta. Wagner não consome carne nem derivados de animais. "Este é o segredo de viver 84 anos com a lucidez de um rapaz jovem", gaba-se.

Quando tem um tempinho, o poeta prepara flores de papel colorido, em formato de rosas, nas quais grampeia um poema. O apelido Poeta das Flores lhe foi dado por Bene do Carmo, amiga há vinte e seis anos, com quem aprendeu a fazer flores de papel crepom. No início, Wagner comprava flores e distribuía junto com poemas, mas ficou inviável por causa dos custos.

Ele continua declamando nos finais de semana, quando caminha pela cidade, visitando as igrejas católicas da Liberdade e Centro Histórico de Salvador, recitando poesias e entregando rosas a quem lhe der ouvidos. O ritual é sempre o mesmo.

O poeta aborda um transeunte, declama um dos seus poemas, abaixa-se e faz um gesto como se fosse beijar os pés da pessoa. Depois oferece a flor, esperando um elogio e uma gorjeta, que nem sempre vem. Wagner Américo não cobra para declamar, mas reclama, em particular, sobre a falta de educação dos brasileiros. "Quando é turista estrangeiro, recebo uns trocados, sou fotografado, o pessoal se aproxima, curioso", desabafa. Em relação aos conterrâneos, Wagner é categórico ao concluir que "quase não me dão atenção, nem ao menos me agradecem ou me agradam". Perguntado sobre o que é 'agradar', o poeta responde que seriam moedas ou mesmo uma notinha de dez reais, para complementar a sua renda.

Wagner revela ter um projeto cultural que "salvará a humanidade da perdição".

Trata-se do desejo de levar poesias às escolas e locais públicos, como praças e entidades e órgãos governamentais. "Eu queria saber o que é má índole, e ainda não descobri", confessa ele, acrescentando que "a imprensa mostra muita violência na TV e jornais, quando deveria mostrar boas ações e incentivar o fortalecimento da cidadania". Esta é sua missão: espalhar o amor, plantar a semente da solidariedade, falar de ecologia, denunciar os problemas sociais e as injustiças de toda sorte. Enquanto conquista espaço na metrópole, Wagner protesta contra o sistema político e segue sua vida de poeta errante: devagar e sempre.

Em dias de desfiles cívicos, como Dois de Julho e Sete de Setembro, bem como nas caminhadas do Bonfim e outras, ele se veste com uma toga preta, coloca a melhor roupa e sapatos, põe um chapéu de época e sai atrás do cortejo, com um estandarte no qual escreve um poema-desabafo. Suas vestimentas têm vinte, trinta anos de uso, de acordo com o poeta, que se gaba de poder preservar pedaços da vida através de objetos e das roupas.

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