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Cores – Palavras – Formas

27.05.2008
 
Cores – Palavras – Formas

Muitas vezes conhece-se a obra de um pintor, mais ou menos bem, mas pouco sabemos da sua vida: com que idade foram realizadas estas ou aquelas pinturas, em que ambiente e em que contexto viveu? Há um vazio. Outras vezes, mal se conhecem as obras, conhece-se apenas uma ou duas pinturas, sem nenhuma noção do caminho percorrido pelo artista; não há passado: obra e autor surgem entre outros artistas, para ilustrar uma corrente de arte ou um estilo. Há um desconforto: é quase um artista anónimo. Raramente se tem um conhecimento paralelo e simultâneo da obra e do seu autor. Se por um lado, este conhecimento é gratificante e esclarecedor, por outro lado, pode ser pertubador e desvalorizador, para a obra ou para o artista.

Na presente situação, conheço António Sobral e a sua obra, na circunstância de uma feliz simultaneidade. É um conhecimento pouco vulgar, porque acompanho e presencio António Sobral no seu pensar e fazer. Os seus desenhos/escritos ou quase escritos vão surgindo à minha observação naturalmente distante das linhas, das cores ou das palavras, mas próxima do ritmo, da acção e do pensamento. Vejo António Sobral abstraído, num lugar público, de gente alheia às artes e às letras, concentrado na sua “escrita”, a lápis de cor, a esferográfica, expressando uma poética de homem culto e atento à vida.

A sua mesa de café era e é o lugar onde as múltiplas ondas de vozes, de música “rap”, de telemóvel, não entram. Havia e há uma espécie de vácuo, onde António Sobral se concentra e se descobre, desenho a desenho. Os estudos e pequenos esquissos, feitos em folhas de papel de blocos que vai coleccionando, são páginas de um diário gráfico e de escritos íntimos. Há nestas páginas uma profunda complementaridade entre as imagens e as frases escritas: são páginas soltas, uma espécie de “livro d’horas”, onde a sua personalidade se apresenta e se representa.

É nos espaços públicos, onde vejo António Sobral a desenhar/escrever, alheando-se de tudo, que se encontra o seu oásis espacial e temporal. Este acto de se expressar através da meditação provoca a intemporalidade e acentua a consciência do ser. A pintura/desenho/escrita de António Sobral apresenta características de um artista citadino, com conteúdos, por vezes, literários. Os conhecimentos, a sua cultura, estão visíveis nos trabalhos através de metáforas e de elementos simbólicos; estes elementos são conjugados com a invisibilidade de factores perceptíveis nas mensagens que muitos títulos das obras revelam: Orfeu, Kronos, Penélope, Êxtase, Lúcifer, Vôo Solitário...

São títulos que precisam de uma componente visual, riscada, colorida a pastel seco, acrílico ou a tinta-da-china.

Estes trabalhos, que nos tocam, são pinturas quase íntimas, pinturas de autor (se é possível dizer assim), porque estão fora dos contextos habituais da pintura dos pintores. Este conjunto de obras é constituído por auto-retratos, que vou conhecendo, ao vê-lo escrevendo e desenhando, no seu espaço “reservado”, muito para além da pequena mesa de um café de Lisboa.

Prof. Lima Carvalho


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