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Por que a economia chinesa está em surto

26.08.2015
 
Por que a economia chinesa está em surto. 22807.jpeg

Um dos principais especialistas em economia chinesa - [professor de economia] Michael Pettis - tem longo, mas interessantíssimo ensaio, no qual argumenta que a China está soprando para encher uma gigantesca bolha de crédito, para assim escapar da queda global.

Pettis exibe relatórios e estatísticas da China moderna, é claro. Mas termina com uma comparação imperdível com a antiga Roma:


"Permitam-me copiar [porque chega a ser engraçado] um trecho do Cap. 15 daHistória da Civilização Romana e da Cristandade do início até o ano 325 dC, de Will Durant:
O famoso "pânico" do ano 33 dC ilustra o desenvolvimento e a complexa interdependência dos bancos e do comércio no Império. Augusto havia cunhado e gastado dinheiro a mancheias, conforme a teoria de que a circulação de cada vez mais dinheiro, juros baixos e preços em alta estimulariam os negócios. Estimularam. Mas dado que o processo não poderia durar para sempre, a reação começou, já em 10 aC., quando cessou aquela cunhagem alucinada de moeda. Tiberius saltou para a teoria do extremo oposto, segundo a qual a melhor economia é a mais econômica. Limitou austeramente os gastos do governo, restringiu ainda mais austeramente a emissão de moeda e acumulou 2,7 bilhões de sestércios no Tesouro.

A escassez resultante de meio circulante foi ainda agravada pela drenagem de dinheiro em direção ao oriente, em troca de objetos de luxo. Os preços caíram, os juros subiram, credores despejaram devedores, devedores processaram agiotas, e o empréstimo de dinheiro quase acabou. Para deter a exportação de capitais, o Senado passou a exigir alta porcentagem de todo o dinheiro de cada senador que fosse investido em terra italiana; os senadores então exigiram pagamento do que lhes era devido e executaram hipotecas para levantar dinheiro - e a crise aumentou. Quando o senador Publius Spinther avisou o banco de Balbus & Ollius de que precisava sacar os 30 milhões de sestércios que depositara dois anos antes, para fazer o pagamento a que o obrigava a nova lei, ficou sabendo que horas antes o banco anunciara a bancarrota.

Ao mesmo tempo, a falência de uma empresa de Alexandria, Seuthes & Filho, porque perdera três navios carregados de especiarias caríssimas, e o colapso da conspiração de Malchus em Tiro, levaram a rumores de que os banqueiros romanos Maximus & Vibo estariam falidos, dados seus grandes empréstimos a essas empresas. Quando os depositantes começaram uma 'corrida' aos caixas, o banco fechou as portas. No mesmo dia, horas depois, um banco maior, dos Irmãos Pettius, também suspendeu os pagamentos. Quase imediatamente, chegaram notícias de que grandes bancos haviam quebrado em Lyons, Cartago, Corinto e Bizâncio. Um depois do outro, os bancos de Roma fecharam. Só se conseguia dinheiro a juros muito acima do limite legal.

Até que Tibério conteve a crise, suspendendo a lei do investimento em terras italianas, e distribuindo 100 milhões de cestércios aos bancos, a serem emprestados sem juros por três anos. Os emprestadores privados tiveram logo de baixar seus juros, o dinheiro que se escondera reapareceu, e lentamente a confiança voltou.

Exceto pelos nomes exóticos e pelos "navios carregados de especiarias", essa história soa notavelmente atual, como, de fato, quase todos os relatos históricos de crises financeiras: essas coisas nunca mudam.

Essa história não se aplica integralmente à China hoje, exceto na medida em que mostra como é difícil, para sistemas bancários abarrotados de dinheiro, evitar os empréstimos especulativos; e como o próprio fator de seus empréstimos especulativos cria, na sequência, as condições que podem pôr abaixo a coisa toda.

Hyman Minsky nos falou sobre isso. Nunca houve sistema político ou econômico na história que tenha conseguido evitar as consequências de liquidez excessiva dentro do sistema bancário. Até os Romanos aprenderam isso, e aprenderam do jeito mais difícil, como sempre se aprende."
A bolha de crédito fácil nos EUA começou em 2001. A de Roma, antes do ano 10 aC. Conhecemos os resultados nos dois casos.

Estará a China agora soprando uma gigantesca bolha de crédito que levará a um crashgigante, pouco adiante?

Pettis acha que sim.

Semana passada, o professor de Economia Steve Keen explicou:
[Durante o crash de 2008] a dívida privada [na China] manteve-se efetivamente constante em 100% do PIB.

Tudo mudou depois da crise financeira. Em apenas 6 anos, a dívida privada cresceu mais de 80% acima do PIB [orig. grew by over 80% of GDP] - conforme os números oficiais apresentados ao Banco de Compensações Internacionais embora haja todas as razões para esperar que esse específico número fosse inferior ao atual nível.

Dívida privada na China explodiu ao escapar da Crise Financeira Global

Por que interessaria o nível da dívida privada da China ? Se você acredita na teoria econômica e financeira convencional, absolutamente não interessa - razão pela qual vivo obrigado a repetir (palavrões aqui omitidos) incansavelmente o óbvio: que sim, interessa.
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A partir de 2009, o crescimento no crédito privado entrou em alta rotação, como política deliberada de governo para estimular a economia.

China evitou a Crise Financeira Global, estimulando o crescimento do crédito
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Em 2010, o aumento na dívida privada da China foi equivalente a 35% do PIB. É muito menos que a taxa de crescimento do crédito no Japão e nos EUA antes das respectivas crises: o Japão estourou com apenas um pouco mais de 25% ao ano; e os EUA alcançavam "meros" 15% do PIB ao

A bolha de crédito da China é a maior de todos os tempos

Venho repetindo, já há uma década, que as crises começam quando a taxa de crescimento começa a cair em países pesadamente endividados. A China não estava pesadamente endividada em 2008, razão pela qual pode tomar o caminho do crescimento do crédito, para sair da Crise Financeira Global. Mas agora está mais pesadamente endividada do que os EUA estavam quando a crise deles começou - mesmo confiando nas estatísticas oficiais que com certeza subestimam a situação real - e o momentum da dívida pode bem arrastá-la para além do pico a que chegou o Japão depois do colapso de sua Economia de Bolha, no início dos anos 1990s

China está em vias de alcançar o pico da dívida privada/PIB do Japão

Assim sendo, o que se vê é que a China está passando pela sua primeira crise capitalista total. Até aqui, a resposta chinesa tem sido tentar sustentar o insustentável: transferir a bolha, do setor imobiliário para o mercado de ações, e manter as ações subindo como as metas de produção dos velhos tempos antes da queda da Camarilha dos Quatro. Não é possível. Em algum momento o governo chinês mudará, da posição de gerar uma bolha de crédito, para a posição de tentar conter os efeitos dela. *****

 


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