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O pensamento precursor de Fidelino de Figueiredo

26.05.2008
 
Pages: 123
O pensamento precursor de Fidelino de Figueiredo

Adelto Gonçalves (*)

I

Fidelino de Figueiredo (1889-1967) foi um intelectual de ponta da cultura portuguesa no século XX que, nos últimos tempos, andava um pouco esquecido. Foi para tirá-lo de um injusto limbo que veio à luz Fidelino de Figueiredo e a crítica da teoria literária positivista, de José Cândido de Oliveira Martins, professor da Universidade Católica Portuguesa, de Braga, publicado pelo Instituto Piaget, de Lisboa. Poucos intelectuais portugueses e brasileiros terão tido a sorte de receber a respeito de sua obra um estudo tão alentado quanto este de Oliveira Martins a respeito de Fidelino de Figueiredo.

Autor de A épica portuguesa no século XVI (Lisboa, IN-CM, 7ª ed., 1987), História de literatura clássica, História da literatura romântica e História da literatura realista, entre outros livros de uma obra extensa e significativa, Fidelino cedo distanciou-se do Positivismo dogmático de Teófilo Braga (1843-1924), que então dominava o cenário literário português, e do filologismo erudito de Carolina Michaëlis de Vasconcelos ((1851-1925).

Leitor de Benedetto Croce (1866-1952), de quem traduziu e prefaciou em 1914 o livro Breviário da Estética, Fidelino rompeu com o modelo da razão positivista, “assente no determinismo mecanicista dos fatores biológicos, sociais e históricos, na acumulação elefantíaca de fatos e numa estéril erudição”, como afirma o professor Vitor Aguiar e Silva, da Universidade do Minho, no prefácio que escreveu para esta obra que, originariamente, constituiu a tese de doutoramento que o professor Oliveira Martins apresentou em 2003 à Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa.

II

Ainda jovem, Fidelino fundou e dirigiu a Sociedade Portuguesa de Estudos Históricos e a Revista de História, que circulou em Portugal de 1912 a 1928. Exilando-se na Espanha em finais da década de 20 por razões políticas, foi contratado como professor de Literatura pela Universidade Central de Madri. Já na década de 30, depois de anistiado e de regresso a Portugal, celebrizou-se nas atividades de conferencista e professor convidado de Literatura em várias universidades européias e norte-americanas. Espírito cosmopolita, ensinou também na Universidade da Califórnia (Berkeley), na Universidade Nacional do México e, no começo da década de 1960, na então recém-criada Universidade do Brasil, em Brasília.

Em 1938, contratado pela Universidade de São Paulo (USP), criada em 1934, Fidelino tornou-se professor de Literatura Luso-Brasileira da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que ficava à Rua Maria Antônia, na área central de São Paulo. Em 1948, iria criar anexo à cadeira de Literatura Portuguesa, que substituíra a de Literatura Luso-Brasileira, o Instituto de Literatura, embrião do atual Centro de Estudos Portugueses (CEP) da USP, experiência que iria repetir na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro. Desse núcleo, nasceria um dinâmico grupo de discípulos, entre os quais se contam prestigiados docentes e investigadores, como Antônio Soares Amora, Cleonice Berardinelli, Segismundo Spina, Carlos de Assis Pereira, Massaud Moisés e outros.

Além dos vários cursos de graduação e pós-gradução, dirigiu e colaborou ativamente na Revista de Letras (1938-1954), da USP. Doente, em 1966, deixou as funções docentes no Brasil, regressando definitivamente a Portugal, à sua morada de Alvalade, em Lisboa.

III

Para escrever este sólido estudo do pensamento e da obra de Fidelino de Figueiredo, Oliveira Martins pesquisou exaustivamente a bibliografia ativa do autor, beneficiando-se ainda de informações colhidas com ex-alunos do mestre português, especialmente em São Paulo, onde pôde manter-se com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Pôde, assim, pesquisar assiduamente na biblioteca que Fidelino doou à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e que, hoje, constitui a parte essencial do acervo do CEP.

Diz o professor Aguiar e Silva que um dos grandes méritos -- que não são poucos -- desta tese consiste na análise, a partir dos textos de Fidelino, “de questões fulcrais da teoria da literatura da primeira metade do século XX e de algumas problemáticas nucleares, sob o ponto de vista histórico-literário, comparativista e antropológico, da literatura portuguesa”.

Nesse sentido, é de lembrar que Fidelino foi um dos primeiros historiadores a usar o conceito de Pré-Romantismo aplicado à evolução da Literatura Portuguesa, que assimilou a partir da leitura dos livros de Paul van Tieghem (1871-1948) -- aliás, com quem se correspondia --, especialmente Le Préromantisme. Études d´Histoire Littéraire (1924-1947) no amplo contexto da literatura européia, que, por sua vez, referiu-se especificamente a Filinto Elísio (1834-1819) e Bocage (1765-1805) como imitadores da poesia noturna e sepulcral de Edward Young (1683-1765).

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