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A poesia dançarina de Igor Fagundes

26.02.2019
 
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A poesia dançarina de Igor Fagundes

Por Alexandra Vieira de Almeida

 

O poeta e ensaísta Paul Valéry estabeleceu, em um de seus textos teóricos, a diferença entre poesia e prosa, dizendo que esta se compara ao caminhar enquanto aquela se caracteriza pelo dançar. No nono livro de outro poeta e ensaísta, Igor Fagundes, pensamento dança (Penalux, 2018), percebemos o fator "ritmo" como primordial e triunfante em sua construção poética. Nesta obra, as palavras dançam em imagens inusitadas, as quais desafiam a lógica, mas, ao mesmo tempo, trazendo o lógico para uma poesia dançarina que deseja pensar e pensar-se. Fagundes estabelece um novo aprendizado para a dança, que é o universo da poesia, do mesmo modo que propõe para a poesia um novo aprendizado, que é o universo da dança. Para tal, não desune corpo e pensamento, traduzindo-os em um mesmo escopo. Em um dos trechos da fortuna crítica exposta na quartacapa, o ensaísta e professor da UFRRJ Marcos Pasche diz, mencionando o poemário anterior de Igor Fagundes, zero ponto zero, que o autor "desfaz a falha polarização entre lirismo e cerebralismo". Em pensamento dança, o poeta mantém o vigor lírico de seus versos em unidade com a vivacidade intelectual de seu ensaísmo. As três modalidades poéticas definidas por Ezra Pound em ABC of Reading (1934) - a melopeia, a fanopeia e a logopeia - enformam a urdidura de Igor Fagundes, perfazendo o caminho da verdadeira e mais completa poesia, pois todos os elementos (musicais, imagéticos e intelectivos) convergem sem se tripartirem numa trama literária que em nada deixa a desejar aos grandes nomes da poesia universal.

Com 99 poemas, o livro de Igor Fagundes é dividido em três seções: uma introdução em prosa poética ("Ensaio") em que o autor teoriza, tão apolínea quanto dionisiacamente, a sua forma de escrever e pensar a dança; uma segunda parte ("Estreia") com 72 poemas inéditos em torno da temática do dançar, seja no linóleo da estrutura perfeita, seja nos precipícios da liberdade poética; e finalmente, uma terceira parte ("Reestreia"), em que 27 poemas colhidos de livros anteriores (Sete mil tijolos e uma parede inacabada, Por uma gênese do horizonte e Zero ponto zero) são retomados e, com ligeiras alterações, remontados para evidenciar a dança da palavra presente no conjunto de sua obra. O prefácio excepcional de Marcus Vinicius Quiroga revela as matrizes deste novo livro, como, por exemplo, a mencionada força dionisíaca de seu verbo, existente mesmo quando Fagundes escreve textos teóricos, a exemplo do livro Poética na incorporação, de 2016. Se, no sol da razão, Apolo é a claridade do dia, Dionísio é o mistério da noite e das emoções.

Com luxuosa edição em capa dura, pensamento dança apresenta na quartacapa depoimentos belíssimos de grandes nomes da poesia nacional, como Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras, para quem "Igor Fagundes é das maiores 'inteligências poéticas' da literatura brasileira contemporânea". Completam as demais apreciações críticas os escritores Astrid Cabral, Marcos Pasche e Tanussi Cardoso.

Igor Fagundes lembra, por vezes, Augusto dos Anjos quando efetiva uma mistura surpreendente dos esquemas rígidos de metrificação e rímica com uma semântica liberta de amarras e engessamentos, utilizando para tal de palavras supostamente não poéticas. Refloresta, assim, os sentidos desmatados das palavras, tornando-as insólitas e originárias, ora aproximando realidades díspares, ora reunindo a estruturação clássica ao verso libertário. O chiaroescuro desta poesia subverte padrões para se afinar ao jogo dos paradoxos, fazendo convergir em vários de seus poemas palavras sublimes e elevadas com outras de baixo calão; palavras gregas com iorubanas, bem como técnicas e conceitos da dança (como tempo-ritmo, espaço-forma, dinâmica) com técnicas e conceitos literários. O mesmo se diria de Gregório de Matos, que seguia padrões de métrica e rima com emprego de palavras até chulas em uma poesia plural.

Em Pensamento dança, Igor Fagundes lida com desenvoltura com referências míticas e épicas (como a de um Ulisses à procura de Ítaca), bem como dialoga com o sertão rosiano até chegar a problematizações sociais e políticas do contemporâneo, conforme o poema dedicado a Marielle Franco. A dimensão de sua intertextualidade é formidável, indo de João Cabral de Melo Neto (em "Educação pela dança" e "Educação pela parede"), fingindo deveras a dor de Fernando Pessoa, a pedra no caminho de Drummond e as ignorãças de Manoel de Barros. Em todas as apropriações, sobressai o estilo próprio e inconfundível de Fagundes, que também rende homenagens a nomes fundamentais da dança ocidental, como Isadora Duncan, Vaslav Nijinsky, Rudolf Laban, Merce Cunningham e Pina Bausch.

No âmbito da filosofia, Nietzsche é o grande norteador do projeto poético do livro. Conforme no prólogo de Assim Falou Zaratustra, tem-se que "É preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante". Igor Fagundes escreve no poema "Biografia" que "O caos na víscera do poeta escapa/ao tratadístico das teses gélidas/o excesso de ordem cerra em cemitério/o corpo-terremoto da palavra". Neste livro, um pensamento-corpo sai das entranhas do escritor para adquirir luz, cena e vida fora do poeta. Mas este corpo é iluminado pela chama do pensar. O pensamento-dança se torna, no caos, uma estrela dançante. Em Fagundes, o pensamento não está separado do corpo: dança é corpo sendo pensamento, noite e luz, ao mesmo tempo.

O poeta parte do universal ao particular e percorre o nacional. Desde o mito grego, passa pelo Cristianismo, com seu "Jesus dançarino" e chega às danças afro-brasileiras, na força dos terreiros e das capoeiras. Também poetiza situações corriqueiras do corpo, relativas a doenças e seus remédios, desliza por poemas amorosos, eróticos e faz até uma crítica aos três poderes da República numa poética rica e sempre multifacetada, que sabe driblar com destreza todos os matizes do real. Se no livro anterior, Poéticas na incorporação, o ensaísta não perde a voz do poeta, neste pensamento dança o poeta ainda é intencionalmente um ensaísta no poema. Este poeta-ensaísta mistura o lado filosófico de seu trabalho como crítico à tessitura poética de sua verve dionisíaca. Trata-se de uma poesia que é feita de reflexão, de abertura às questões que percorrem a humanidade, mas que não se esquiva a um lirismo concentrado, de versos esplêndidos, precisos e reveladores da perfeição poética. Ao unir filosofia, literatura e dança, Igor Fagundes redescobre e, enfim, reinventa a própria poesia.

 

 

"Pensamento dança", poesia. Autor: Igor Fagundes. Editora Penalux, 194 págs. (capa dura), R$ 50,00.

Disponível em:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/pensamento-danca

E- mail: vendas@editorapenalux.com.br

 

 

  

A resenhista

  

Alexandra Vieira de Almeida é Doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Também é poeta, contista, cronista, crítica literária e ensaísta. Publicou os primeiros livros de poemas em 2011, pela editora Multifoco: "40 poemas" e "Painel". "Oferta" é seu terceiro livro de poemas, pela editora Scortecci. Ganhou alguns prêmios literários. Publica suas poesias em revistas, jornais e alternativos por todo o Brasil. Em 2016 publicou o livro "Dormindo no Verbo", pela Editora Penalux.

 

Contato: alealmeida76@gmail.com

 


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