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Cunha e o assaltante português

25.10.2015
 
Cunha e o assaltante português. 23135.jpeg

Quando eu era criança, e isso já faz uma eternidade relativa, as piadas de português eram muito populares, e costumávamos contar a mesma piada muitas vezes. Quando reclamavam informando que já conheciam aquela que alguém começara a contar, o contador rebatia dizendo que havia criado um novo final.

Fernando Soares Campos

O problema eram as piadas infames, aquelas que o contador puxa o riso para que os ouvintes entendam que ele terminou de contar. Esse era o caso da piada do assaltante português. 

Diz que o assaltante português entrou no banco, rendeu o caixa e exigiu todo o dinheiro ali disponível. O caixa esvaziou as gavetas, entregou tudo, um grande volume de cédulas, que não coube na sacola que o assaltante levou. Ele, então, acondicionou o que pôde na sacola, em seguida empurrou o resto de volta para o caixa e, entregando-lhe um bilhete, ordenou: "Deposite o resto na minha conta. O número está aí".

Pois é o que parece que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) fez.

Cunha é acusado de extorquir empresa sul-coreana do Grupo Samsung, uma das maiores corporações transnacionais do mundo, quando esta atuava em parceria com a japonesa Mitsui, outro grupo empresarial entre as gigantes no cenário mundial.

A Diretoria Internacional da Petrobras, sob a influência do PMDB de Cunha, negociava a compra de dois navios-sonda diretamente com a Mitsui. Esta, por sua vez, encomendou equipamentos à Samsung Heavy Industries. No total, a transação alcança a estratosférica quantia de US$ 1,2 bilhão (um bilhão e duzentos milhões de dólares).

Usando prerrogativas parlamentares, Cunha teria pressionado o representante da Samsung no Brasil, o empresário Júlio Camargo, ameaçando criar obstáculos ao fechamento dos negócios, caso os fornecedores não lhe pagassem vultosa propina. Isso está registrado em vídeo de depoimento de Camargo, preso na Operação Lava Jato, da Polícia Federal, ao Juiz Sérgio Moro, sob a condição de delação premiada. Vídeo

 

O procurador-geral da República (PRG), Rodrigo Janot, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) denúncia contra o deputado achacador Eduardo Cunha, hoje presidente da Câmara dos Deputados.

Segundo apurações de Janot, Cunha recebeu um total de US$ 40 milhões (quarenta milhões de dólares) de propina, simplesmente para não dificultar os contratos da Petrobrás com a Mitsui/Samsung Heavy Industries, na transação de fornecimento de navios-sonda à estatal.

A PGR identificou várias operações de lavagem de dinheiro, grande parte em remessas ao exterior, também o uso de dinheiro vivo, simulação de contratos de consultoria, com emissão de notas fiscais frias, até mesmo transferências para uma igreja evangélica, à qual Cunha é vinculado, sob a forma de "doações religiosas".

Ainda de acordo com a denúncia do PGR, o maior volume da propina paga pela Samsung foi depositada no exterior, em contas indicadas pelo lobista Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema de corrupção, preso na Operação Lava Jato e delator sob acordo firmado na Justiça.

Pouco antes desses fatos se tornarem públicos, com todos esses detalhes, principalmente através das internáuticas redes sociais, amigos e confrades de Cunha teceram elogios ao parceiro, defenderam-no com veementes argumentos, inocentando-o das acusações iniciais, tudo ainda na fase de especulações, fundadas apenas nas palavras de delatores, antes de o Ministério Público da Suíça ter enviado à Justiça brasileira toda a documentação comprobatória fornecida por um banco (não identificado para o público) daquele país.  

O "pastor evangélico" Silas Malafaia, em entrevista a programa da TVeja, afirmou: "Eduardo Cunha é um cara inteligentíssimo! Alguém pode não saber, mas como eu o conheço um pouco, ele é um cara de um Q.I., vamos falar do antigo Q.I., ele é um gênio! Se os estudiosos classificarem esse cara, ele é um gênio! A maneira da acusação é muito infantil! A acusação é muito ridícula, pra o nível do cara. O nível da inteligência e da capacidade do cara". Vídeo

 

Estabelecendo a relação Cunha/bandido português

Não se pode conceber que um elemento com muitos anos de experiência no submundo da corrupção política tenha a petulância de chantagear e achacar empresas do porte de Mitsui e Samsung, acossando, pressionando suas representações e diretorias, incomodando, perturbando-os insistentemente, conforme Júlio Camargo relatou à Justiça, e, depois de tudo isso, o espertalhão aceita que os achacados corruptores escolham a instituição bancária em que depositaria a propina extorquida sob violenta ameaça.

Evidente que não foi o lobista Fernando Baiano quem indicou a instituição bancária em que os constrangidos corruptores depositaram a propina. Certamente não. É muito provável que os próprios achacados tenham providenciado o pagamento da propina num banco em que eles tenham facilidade de movimentação de valores, interesses financeiros e muita influência, talvez até acionária.

E, por tudo isso, creio que, na primeira oportunidade que teve, o senhor "Mitsam" ligou para o diretor do banco suíço e falou:

- Pode entlegar aquele santagista balato às autolidades blasileilas. Si?! Quelo vê como ele faz na hola do tigle bebê água.

E Cunha foi acometido de "Síndrome de Maluf": jura que nunca teve conta no exterior, garante que não é dono de um só centavo de toda aquela fortuna. 

Ilustração: AIPC - Atrocious International Piracy of Cartoons

 


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