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Arquitetos e engenheiros: origens

25.09.2007
 
Pages: 12
Arquitetos e engenheiros: origens

Adelto Gonçalves (*)

Durante muitos anos, arquitetura e engenharia significaram a mesma coisa. Para tentar estabelecer quando essa ruptura se deu no mundo lusófono, o historiador e arquiteto Nireu Oliveira Cavalcanti atirou-se mais uma vez aos arquivos do Brasil e de Portugal em busca de documentos que pudessem dar as pistas do início dessa ruptura do conteúdo global da arquitetura civil, encontrando esses indícios no século XVIII, quando a matéria passou a ser estudada em dois cursos autônomos: arquitetura civil e engenharia civil ou politécnica.

O resultado é este Arquitetos e engenheiros: sonho de entidade desde 1798, publicado pelo Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), obra sobre a mentalidade técnica-científica e artística comum a arquitetos e engenheiros no final do século XVIII.

A base para esse estudo está num manuscrito de autoria do arquiteto das Obras Reais, o português José Manoel de Carvalho e Medeiros, escrito em 1798, que faz parte do acervo da Biblioteca do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa. Filho do arquiteto Eugênio dos Santos e Carvalho, um dos membros da equipe do engenheiro Manoel da Maia, responsável pelos projetos de reconstrução de Lisboa, destruída em parte pelo terremoto de novembro de 1755, Negreiros era neto de Eugênio dos Santos, arquiteto e pintor, que exerceu importante função na Casa do Infantado do Grão Piorado do Crato.

No documento, Negreiros faz uma proposta pioneira de criação de uma entidade de classe — laica e não uma irmandade como seria próprio à época —, que congregasse os profissionais vinculados à concepção e realização de obras de arquitetura, engenharia, paisagismo e de fortificações. O documento foi transcrito em sua íntegra e atualizada sua grafia e pontuação, para melhor entendimento pelos leitores de nosso tempo.

Cavalcanti faz ainda interessante contextualização histórica sobre as origens dos profissionais arquitetos e engenheiros, indo buscar nos escritos de Marcus Vitruvius, arquiteto romano (século I antes de Cristo) autor do livro Da Arquitetura, considerada a obra fonte dos ensinamentos da arquitetura ocidental, a raiz da formação dos profissionais no reino de Portugal e de suas colônias.

Embasado em pesquisa histórica e documental, Cavalcanti mostra como e com quem estudavam os arquitetos, engenheiros, mestres-de-obras e outros profissionais da área. E recupera também o acervo bibliográfico usado por essas pessoas no Brasil colonial e as formas de controle do seu exercício e o surgimento das primeiras organizações de classe que congregavam pessoas interessadas na ciência e arte da arquitetura e da engenharia.

Complementando o estudo, foram anexados ao livro sete documentos muito ricos de informações referentes à história da educação, da ciência e da tecnologia em Portugal e no Brasil, especialmente, no Rio de Janeiro. Destacam-se os anexos A e B: o primeiro, com uma relação dos alunos da Academia Militar do Rio de Janeiro, em 1798, e suas minuciosas informações acadêmicas sobre cada um deles; e o segundo, com a relação de 94 engenheiros e arquitetos que serviam à monarquia portuguesa, discriminando, além de dados biográficos, onde estudou e o que estudou.

Um pormenor interessante trazido à luz por esse documento é que mais de 80% dos engenheiros militares estudaram arquitetura civil, o que explica a razão desses profissionais serem os projetistas das belas igrejas, palácios e traçados de muitas cidades que tiveram origem no período colonial. Cavalcanti ressalta, porém, que é no século XIX que decorre a diferenciação do trabalho do arquiteto, em função da amplitude de sua intervenção projetual, surgindo, assim, o arquiteto urbanista. “Conseqüentemente, a matéria urbanismo se insere, gradativamente, nos cursos de arquitetura”, acrescenta.

Como destaca o arquiteto Hélio Brasil no prefácio, o trabalho de Cavalcanti é uma importante contribuição para que as novas gerações de arquitetos e engenheiros brasileiros tomem conhecimento de sua origem, que se situa muito antes da realização dos profissionais da primeira metade do século XX, quando o presidente Getúlio Vargas assinou o decreto que criou o sistema Confea-Crea, isto é, o convívio entre engenheiros e arquitetos. Hoje, afirma Brasil, talvez a separação seja inevitável, ou, quem sabe, desejável. Mas há problemas maiores a discutir do que a separação das duas categorias, diz, ressaltando a concorrência de escritórios estrangeiros, que invadem o espaço do profissional brasileiro, e a ausência de investimentos nas áreas públicas, além da debilidade dos cursos e daqueles que trabalham na área acadêmica.

Embora suscite estas questões, este livro não interessa apenas a engenheiros e arquitetos, mas a historiadores em geral e a todo bom leitor da História comum do mundo de fala portuguesa, que, com certeza, já conhece o trabalho desenvolvido por Nireu Cavalcanti, um arquiteto com alma profunda de pesquisador, autor de livros imprescindíveis para quem quer, de fato, conhecer não só a história do Rio de Janeiro colonial como a do século XVIII português.

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