Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Retrato de Machado de Assis quando jovem

25.08.2009
 
Pages: 123
Retrato de Machado de Assis quando jovem

Adelto Gonçalves (*)

I

Depois de quase quatro décadas, A juventude de Machado de Assis (1839-1870): ensaio de biografia intelectual (La jeunesse de Machado de Assis (1839-1870: essai de biographie intellectuelle), do professor Jean-Michel Massa (1930), finalmente, ganhou uma segunda edição revista, em publicação da Editora Unesp (Universidade Estadual Paulista), de São Paulo. Que tenha sido necessário esperar tanto tempo por isso é apenas um reflexo do descaso com que as tarefas que realmente contam para a cultura brasileira são ainda tratadas num jovem país que parece condenado a nunca ter o devido respeito por seu passado.

Um descaso – para dizer o mínimo – que talvez explique por que o professor Massa não se atirou à ingente missão de escrever o que seria a segunda parte deste livro – os anos de maturidade do maior escritor brasileiro (1871-1908) que, provavelmente, resultariam em vários volumes, tal a superabundância de materiais referentes à atividade de Machado de Assis (1839-1908).

Tivesse sido este um país mais maduro nas últimas décadas, certamente, por meio de suas instituições mais veneráveis, teria encontrando uma maneira de oferecer ao professor Massa as condições e a infra-estrutura necessária para que se atirasse à aventura de desbravar em arquivos públicos e particulares coleções, não raro incompletas e fragmentadas, que possam ainda guardar rastros de um trabalho intelectual que durou mais de meio século. Como nada disso se deu, corre-se ainda o risco de que muitos desses papéis esquecidos tenham sofrido a irreparável ação corrosiva do tempo, ficando irremediavelmente perdidos.

Publicada em 1971 pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, e desde então considerada um clássico dos estudos machadianos, esta obra é resultado de uma tese de doutorado que o professor Massa apresentou em 1969 à Faculdade de Letras da Universidade Rennes, de Haute Bretagne, e incluía uma segunda parte (tese complementar), que é o ensaio Machado de Assis tradutor, publicado em 2008 pela Editora Crisálida, de Belo Horizonte, acrescido de um apêndice em que o pesquisador transcreveu e anotou duas traduções inéditas de Machado de Assis: “Os burgueses de Paris” e “Tributos da mocidade”. Juntamente com uma terceira peça traduzida, “Forca por forca”, esses textos formam o corpo do livro Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis, lançado também em meados de 2009 também pela Crisálida.

II

Massa estudou profundamente, em viagens seguidas ao Brasil, jornais e revistas que publicaram colaborações da época dos anos verdes do escritor brasileiro, além de exumar autores secundários – hoje, praticamente, esquecidos – para recompor a paisagem literária do Rio de Janeiro e de São Paulo, quando o autor não tinha ainda adquirido grande notoriedade nos meios cultos.

Na primeira parte da obra, o biógrafo procura reconstituir – não sem muitas dificuldades – as árvores genealógicas do escritor, o que lhe exigiu, inclusive, viagens aos Açores para levantar a procedência do lado materno de Machado de Assis. E concluir que toda a família materna do escritor – procedente da ilha de São Miguel – era de tez tão clara quanto a dos Assis escura. “Eram pessoas simples, pobres, talvez bastante pobres mesmo, como se era pobre então nessa terra de emigração. Eram, sem dúvida, iletrados, como a maioria das pessoas do conhecimento deles”, diz.

Já o lado paterno descendia de escravos nascidos no Morro do Livramento. O pai de Machado de Assis, Francisco José, sabia ler e escrever e interessava-se por adquirir mais conhecimentos, como prova o fato de ter assinado o Almanaque Laemmert, em 1846-47, diz Massa. A respeito da mãe do escritor, Maria Leopoldina, o professor contesta Gondim da Fonseca (1899-1977), que teria exagerado bastante a sua cultura e influência sobre o filho, lembrando que quase todos os açorianos que emigraram para o Brasil eram analfabetos. Se serve para alguma coisa, este articulista pode acrescentar que, pelo lado materno, é descendente de açorianos da ilha de São Miguel que emigraram para o porto de Santos já no começo da segunda metade do século XIX – e todos eram analfabetos. Seus descendentes diretos seguiriam analfabetos ou semialfabetizados.

Ao reconstituir a infância de Machado de Assis, Massa contesta ainda Lúcia Miguel Pereira (1901-1959) e outros biógrafos que repetiram a sua afirmação segundo a qual o escritor teria sido gago e epiléptico. “Nada disso aparece por meio de nossos cotejos e pesquisas”, garante. Segundo o biógrafo, Machado de Assis, que ficou órfão aos 10 anos, viveu até então numa chácara do Morro do Livramento em meio a agregados de uma família de proprietários, como era comum na sociedade patriarcal. “Não sofreu fome, e foi querido durante os primeiros anos por uma madrinha idosa”, diz Massa, para quem o escritor recebeu da sociedade patriarcal “mais benefícios do que motivos de amargura”.

III

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular