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Stalin, o poeta e as escolhas da vida (I parte)

25.08.2008
 
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Stalin, o poeta e as escolhas da vida (I parte)

"Considero as diferenças de classes contrárias à Justiça." (Albert Einstein, numa declaração pessoal de seu credo.)

"Os russos provaram que seu único objetivo é realmente a melhora da situação do povo russo." (Albert Einstein em sua recusa, em 1934, de assinar uma petição condenando o assassínio de prisioneiros políticos por Josef Stalin.)

"Qualquer governo é nocivo se abrigar dentro de si a tendência de deteriorar-se em tirania. O perigo ... é mais agudo num país em que o governo tenha autoridade não apenas sobre as forças armadas mas também sobre todos os canais de educação e informação, bem como sobre a existência de todo cidadão em particular." (Albert Einstein num discurso a cientistas russos apoiando os ideais democráticos socialistas e criticando o capitalismo desabrido.)

Por Gaither Stewart

(Roma) Resolvi empreender esta viagem de volta à época de Josef Stalin a partir da estátua de seis metros de altura do escritor revolucionário Vladimir Mayakovsky. Postada numa praça a cerca de uma milha do Kremlin de Moscou, as torres do qual quase podem ser parcialmente avistadas da famosa Praça Triumphalnaya, comumente conhecida como Praça Mayakovskaya, a estátua do poeta parece solitária no rebuliço da moderna Moscou.

Esta viagem, por assim dizer, passa por sobre o corpo do "poeta da revolução" e prossegue pela complexidade e as ciladas das escolhas disponíveis na vida, as escolhas artísticas do poeta e as escolhas político-ideológicas do ditador. O objetivo final desta viagem é sugerir uma reavaliação do papel histórico de Josef Stalin, líder da Rússia Soviética durante os 30 anos que se seguiram à morte de Vladimir Lênin, o Vozhd (líder) de uma revolução que mudou irreversivelmente a natureza da Rússia retrógrada e levou a revolução para muito além de suas fronteiras.

Primeiro, porém, o poeta Vladimir Mayakovsky.

O poeta cubo-futurista da Revolução Russa, admirado, prestigiado e promovido por Stalin e por alguns dos líderes revolucionários russos, objeto de desconfiança e de crítica da parte de outros, aparentemente deu um tiro em si próprio em seu escritório num dia de abril de 1930 em Moscou. A morte dele acabou tornando-se objeto de especulação por parte tanto de historiadores quanto de escritores de histórias de mistério e suspense: suicídio ou homicídio? Ambas as versões são tentadoras e verossímeis: ou ele cometeu suicídio devido a desilusão com a revolução, ou foi assassinado por Stalin. Ou talvez se tratasse de alguma questão mais prosaica de sua vida amorosa.

Mayakovsky mudou-se, em 1906, com sua família, para Moscou, vindo da Geórgia (Gruzia), onde tanto ele quanto Stalin haviam nascido, ele russo, Stalin georgiano. Corre que ele era membro do Partido Bolchevique com 14 anos de idade, mensageiro e distribuidor de panfletos, razão pela qual teria sido preso antes da Revolução. Diz-se que escreveu seu primeiro poema na solitária da Prisão de Butyrki (Moscou) quando tinha 16 anos.

Então, enquanto estudante de arte, publicou, em 1912, juntamente com um grupo de pintores avant-garde, um manifesto futurista intitulado "Um Tapa no Rosto do Gosto do Público" que demandava que escritores anteriores, como Aleksander Pushkin e Lev Tolstoy, deixassem de ser lidos. O ardoroso excêntrico Mayakovsky tornou-se o astro e a lenda do período revolucionário devido a sua voz estrondeante, leitura empolgante, talento de apresentador e a idéia revolucionária em sua obra.

…peguem pedras, bombas, facas, o que puderem, e aqueles de vocês que não tiverem mãos
usem a testa. Marchem, ó vocês famintos
Arqueados,
Macilentos, sujos, sarnentos
Marchem!
Durante o golpe bolchevique em Petrogrado, marinheiros vermelhos marcharam para o Palácio de Inverno recitando um dos slogans de Mayakovsky: Comam abacaxis, mastiguem codornas, o último dia de vocês está chegando, burgueses!

Marcha da Esquerda, seu poema de 1918 acerca da coragem, disciplina e otimismo proletários daqueles engajados na luta contra a contra-revolução, era típica de sua poesia lírica, clara e simples, completamente inteligível para as massas e admirada por Lenin e logo por Stalin. Um jornal escreveu, à época, que quando a voz forte e poderosa dele ressoava por toda a praça, enquanto ele lia a Marcha da Esquerda, toda a praça repetia seus versos:

'A Comuna nunca será derrotada.
Esquerda!
Esquerda!
Esquerda!
'
Quem está marchando fora da cadência?
Esquerda!
Esquerda!
Esquerda!'

O poeta da Revolução desdenhava da instituição oficial da Cultura Proletária, Proletkult. Produzindo pôsteres e placares e slogans para o governo revolucionário, ele veio a acreditar que encarnava a Revolução. Em seus muitos filmes, nenhum deles realmente bem-sucedido, e em sua excelente poesia, seu tema principal era o proletariado. Ele viajou pelo mundo de Paris ao México (para visitar o comunista Diego Rivera) e aos Estados Unidos, onde leu suas obras revolucionárias. Num dos poemas ele se gaba do espanto e alarme que seu passaporte soviético vermelho criou no mundo daqueles dias, quando as autoridades de imigração tocavam-no como se fosse uma bomba.

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