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Para enriquecer os estudos queirozianos

25.05.2009
 
Pages: 123
Para enriquecer os estudos queirozianos

A imagem que ficou de Ramalho Ortigão (1836-1915) foi a que Eça de Queiroz (1845-1900) nos legou: um amigo devoto dos tempos do Colégio da Lapa, do Porto, um professor de francês nove anos mais velho e companheiro leal nas diatribes que ambos escreviam para As Farpas, opúsculos de capa alaranjada que começaram a aparecer nas bancas e quiosques de Lisboa a 17 de junho de 1871 e que contaram com a colaboração de Eça pelo menos até o número de setembro-outubro de 1872, quando o escritor partiu como cônsul para as Antilhas espanholas.

Adelto Gonçalves (*)

I

A imagem que ficou de Ramalho Ortigão (1836-1915) foi a que Eça de Queiroz (1845-1900) nos legou: um amigo devoto dos tempos do Colégio da Lapa, do Porto, um professor de francês nove anos mais velho e companheiro leal nas diatribes que ambos escreviam para As Farpas, opúsculos de capa alaranjada que começaram a aparecer nas bancas e quiosques de Lisboa a 17 de junho de 1871 e que contaram com a colaboração de Eça pelo menos até o número de setembro-outubro de 1872, quando o escritor partiu como cônsul para as Antilhas espanholas. Agora, porém, A.Campos Matos, grande queiroziano, vem nos mostrar um outro personagem, de caráter duvidoso, de aspecto melífluo, que depois da morte de Eça teve um comportamento pouco edificante.

Dono de vasta obra sobre a produção queiroziana, na qual se destacam os dois volumes do Dicionário de Eça de Queiroz (Lisboa: Caminho, 2ª ed., 2000) e a Fotobiografia de Eça de Queiroz (Lisboa: Livros Horizonte, 2008), Campos Matos acaba de lançar Eça de Queiroz-Ramalho Ortigão: retrato da “ramalhal” figura (Lisboa: Livros Horizonte, 2009) em que mostra, com rigor de pesquisa, que, embora tenha sobrevivido 15 anos a Eça, Ramalho teve um papel discreto e diminuto na publicação da obra póstuma do amigo, limitando-se à revisão das últimas páginas de A cidade e as serras. Fez também a revisão de O mistério da estrada de Sintra em 1902, mas praticou tantas falsetas e teve tantas atitudes discutíveis e atrabiliárias que melhor teria sido se nada fizesse. Sem contar que ainda tentou reclamar para si a autoria principal do romance, atribuindo a Eça um papel secundário.

Parece que a memória do amigo que ficara para a posteridade o incomodava, a tal ponto que faz recordar um caso mais antigo de relacionamento ambíguo e tumultuado entre dois intelectuais, o de João Agostinho de Macedo (1761-1831) e Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805). Como se sabe, incomodado com a crescente fama póstuma de Bocage, Macedo, por despeito, teria feito desaparecer muitos originais do vate setubalense, depois de convencer a irmã do poeta a lhe ceder o espólio de manuscritos a pretexto de organizá-lo para a publicação.

De Eça, o que a correspondência levantada por Campos Matos mostra é a imagem de um amigo leal, que se sentia à vontade para confessar tudo o que lhe preocupava a alma. Basta dizer que, em gratidão, Eça de fez de Ramalho seu padrinho de casamento e padrinho de seus filhos. Já Ramalho... Para Campos Matos, há razões de sobra para se pensar que Eça pode ter se enganado na apreciação que sempre fez de seu pretenso amigo.

Isso fica claro em doze cartas exumadas por Campos Matos em que Ramalho mostra uma indisfarçável indiferença perante a morte do amigo, mais preocupado que estava em usufruir por aqueles dias os prazeres de uma viagem pela Itália. Ao receber em Veneza a notícia da morte de Eça, “continuou impávido a passear de gôndola”, tendo-se instalado depois em Florença, de onde escreveu cartas para a posteridade, enquanto o brasileiro Eduardo Prado (1860-1901) regressava apressadamente a Paris para socorrer a família do amigo.

Já em relação ao espólio literário de Eça o comportamento de Ramalho foi o mais irresponsável possível. Fez a discutível revisão de A cidade e as serras e não atribuiu nenhuma importância ao resto. Só em 1924, depois de sua morte, José Vasco Ortigão, seu filho, morando no Rio de Janeiro, tratou de enviar para o filho de Eça em Lisboa o material inédito que lhe ficara do pai que incluía cinco cartas inéditas de Fradique Mendes (personagem inventado por Eça e Ramalho), o romance A capital (com cerca de 100 páginas impressas e corrigidas pelo próprio autor) e ainda O conde de Abranhos.

Mas, além da negligência inacreditável com que tratou a obra póstuma de Eça e de seus comentários dúbios a respeito da obra queiroziana, pior ainda foi o seu comportamento sibilino e desonesto marcado por tentativas de apropriação da autoria de romances conjuntos. Quem até aqui sempre teve Ramalho como uma figura impoluta e possa alimentar alguma dúvida que leia as doze cartas publicadas na íntegra por Campos Matos. Com certeza, vai se decepcionar com a “ramalhal figura”, epíteto que lhe atribuíram porque, do alto de seu 1m80 mostrava um porte ereto e sobranceiro, ombros largos, sempre bem trajado, loquaz e espalhafatoso de gestos.

II

Outro livro imperdível do queiroziano Campos Matos é A guerrilha literária: Eça de Queiroz-Camilo Castelo Branco (Lisboa: Parceria A.M.Pereira, 2008) em que recupera divergências e afinidades entre os dois escritores. Embora Camilo Castelo Branco (1825-1890) tenha ficado famoso por suas polêmicas furibundas, eufemisticamente chamadas de “polêmicas à portuguesa”, com Eça o que houve foram algumas escaramuças, sem a rudeza típica das intervenções públicas do escritor, tendo prevalecido “a cortesia, a mesura, o reconhecimento prudente das qualidades do adversário”, nas palavras de Campos Matos.

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