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A ultima locura de Mel Gibson

25.04.2006
 
A ultima locura de Mel Gibson


 O mais novo candidato em loucos é o americano Mel Gibson, que se encontra no México rodando a saga Apocalypto, prevista para estrear nos Estados Unidos em agosto. Pelos padrões do cinema americano, o épico centrado no período de derrocada da civilização maia, que floresceu há três mil anos no território hoje ocupado por Belize, Guatemala, Honduras e sul do México, ainda não explodiu o orçamento. Especula-se que a produção não ultrapasse os previstos US$ 50 milhões, um quarto do que custou King Kong.

 Só que essa fortuna toda está saindo completamente dos bolsos de Mel Gibson e de sua produtora, a Icon.Estivesse encabeçando o elenco, o diretor de Coração valente (1995) e A paixão de Cristo (2004) poderia ficar mais seguro em relação ao retorno de bilheteria. Mas, em defesa do realismo, Mel Gibson escalou apenas atores desconhecidos. Alguns sem ter sequer entrado numa sala de cinema. O papel principal, por exemplo, está a cargo do texano Rudy Youngblood, 25 anos, filho do cruzamento de três etnias ameríndias – comanche (americana), cree (canadense) e yaqui (mexicana). Ele interpreta Jaguar Paw, um guerreiro que escapa de um sacrifício aos deuses (no período enfocado pelo filme, passado no século X, era comum oferecer vítimas humanas em troca de boas colheitas) escondendo-se nas florestas da atual Península de Yucatán, no México. Mel Gibson nem cogitou de fazer parte do elenco. “Minhas unhas serão o máximo que as pessoas verão de mim no filme”, declarou o diretor, que ficou conhecido pela ficção científica Mad Max e pela comédia policial Máquina mortífera.

 Mel Gibson dirige anônimos no filme bancado do próprio bolso,ao custo de US$ 50 milhões. Gerardo Tacarena (à dir.) faz um guerreiro que persegue o herói fugitivo .Mas Gibson não parece estar tão preocupado a ponto de roer os dedos. Prova disso foi a brincadeira que fez no trailer do filme, um dos mais acessados da internet depois de O código Da Vinci. Numa cena mostrando a casta superior maia em trajes cerimoniais, Gibson aparece enfiado em jeans e camisa de flanela xadrez, com uma longa barba de rancheiro. Detalhe: traz nos dedos algo que passaria por um cigarrinho de marijuana. A brincadeira ao estilo irreverente de Alfred Hitchcock só pode ser conferida quadro a quadro, pois dura alguns segundos. Ao falar sobre a ousada decisão em relação ao elenco anônimo, Gibson preferiu a seriedade. “Acho que a história vai ficar mais clara e verossímil com atores desconhecidos. É uma escolha proposital em razão da pouca familiaridade com o período enfocado.”

Outra ousadia de Apocalypto é a língua usada na trama. Ao contrário da maioria dos filmes históricos de Hollywood, sempre falados em inglês (sejam eles passados durante a Guerra de Tróia, seja nos tempos de Alexandre, o Grande), a superprodução de Mel Gibson escolheu o dialeto maia yucatec.É aquela língua que ele falou na mais recente entrega do Oscar, em março, no clipe em que se entrevistavam possíveis apresentadores da cerimônia. Gibson já havia radicalizado antes, em A paixão de Cristo, ao colocar cristãos e judeus dialogando em latim, hebreu e aramaico, obrigando a platéia americana a ler legendas, coisa que ela detesta. Isso não afastou o público: o filme rendeu US$ 1 bilhão, e é o mais lucrativo da história na sua classificação indicativa de idade.

Para o sucesso de A paixão de Cristo, contou muito a polêmica em torno da suposta responsabilidade dos judeus na condenação de Jesus e a violência quase sadomasoquista do martírio sofrido por Ele nas mãos dos romanos. No que diz respeito às cenas sanguinolentas, material não vai faltar em Apocalypto. Fala-se até numa seqüência em que uma pantera estraçalha um cidadão maia. Já a polêmica vai ficar restrita aos meios eruditos, pois a condenação da intolerância religiosa dos maias não ecoa tanto nos dias de hoje. Richard Hansen, especialista em cultura maia da Idaho State University, nos EUA, e consultor do filme, garante que essa é de longe a melhor abordagem já feita sobre o tema.

Ao que se sabe, Gibson mergulhou no Popol Vuh, espécie de bíblia maia, para escrever o roteiro. Mas prefere descrever o épico pré-colombiano como “uma história universal de um homem, obrigado a superar grandes obstáculos, e sua mulher, seu filho, seu pai e sua comunidade”. O título Apocalypto vem do grego e quer dizer “revelação” ou “novo começo”. Mas as más línguas já estão dizendo que tudo não passa de um pretexto para falar da decadência do império americano. “Esse filme é uma viagem antropológica. Meu objetivo ao mergulhar nessa civilização é refletir sobre nós mesmos”, afirma o diretor. Mel Gibson não é assim tão louco.
 
 


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