Pravda.ru

Sociedade » Cultura

O paraíso da infância em Eugénio de Andrade

25.02.2009
 
Pages: 123
O paraíso da infância em Eugénio de Andrade

Adelto Gonçalves (*)

I

Um dos maiores poetas do século XX português, Eugénio de Andrade (1923-2005) foi tema da tese de doutoramento em Literatura Comparada “Marcel Proust et Eugénio de Andrade poèts de la réconciliation” apresentada pelo professor, crítico e ensaísta António Oliveira à Universidade do Minho, de Braga, em 2006. Com o objetivo de alcançar públicos mais variados e menos eruditos, o autor acaba de lançar Metáforas obsessivas de Eugénio de Andrade, seleção apurada de textos que constam de sua tese, mas que foram devidamente (re)escritos em linguagem acessível em que deixou de lado a terminologia específica aos estudos literários, por vezes demasiado pedante ou hermética, enfim, acadêmica.

Dono de uma poesia caracterizada por um valor essencialmente musical, Eugénio de Andrade aproximou-se do lirismo primitivo da poesia galego-portuguesa ou, mais recentemente, do Simbolismo de Camilo Pessanha (1867-1926). Como sabe quem já leu Clepsidra, Pessanha não é um poeta de idéias, mas de imagens, ou seja, é um poeta abstrato por excelência, cerebral, essencialmente intelectual, que sempre teve a obsessão pela musicalidade do verso.

Afinal, um dos principais objetos do Simbolismo é insinuar coisas, em vez de formulá-las ostensivamente, procurando produzir, com a poesia, efeitos semelhantes aos da música, na definição precisa do crítico norte-americano Edmund Wilson (1895-1972) que se pode ler em O castelo de Axel. É assim também que se dá em relação a Eugénio de Andrade, um poeta de floração mais recente, mas conformado aos ditames do Simbolismo.

Segundo Oliveira, o tema central da sua poesia é a figuração do homem, não apenas do eu individual, mas integrado num coletivo, que procurou encontrar a partir de sua experiência pessoal de homem social metamorfoseada pelo criador, desenvolvendo “os seus mitos pessoais a fim de expurgar os traumas do seu eu social para criar um mundo de sonho”.

O que cativa na poesia de Eugénio de Andrade, assegura Oliveira, é uma dialética de ritmos, de estruturas e de significados, assim como a harmonia de seus versos. “Essa musicalidade revela o mito, uma vez que, na sua origem, mito e canto formavam um só”, explica, destacando que as palavras mais utilizadas e repetidas pelo poeta são “as que o povo emprega no seu dia-a-dia e que são parte integrante da natureza: pão, água, sol, sal, rio..., ou seja, aquelas palavras que, não estando corrompidas pelos tropos literários, dão naturalidade e frescura à sua poesia”.

II

Em sua tese de doutorado, Oliveira observa que a obra poética eugeniana está povoada de flores, quer como tropos (metáforas, metonímias, comparações ou personificações), quer como símbolos culturais assimilados ao longo de diversas sociedades. Por isso, dedica-lhe um capítulo para analisar a percepção artística dos nomes de flores nos versos do poeta e sua integração na literatura popular portuguesa, lembrando que o seu discurso é herdeiro das tradições populares, inerentes aos Cancioneiros aos Romanceiros, que possuem uma estrutura próxima da poesia oral.

Para o ensaísta, o erotismo é outro tema que a metáfora da flor eugeniana exprime, seguindo uma tradição poética que metaforiza a mulher em flor, se bem que, em muitos poemas, o poeta não seja nada gentil com as mulheres, exceto quando evoca a mãe. Segundo Oliveira, porém, a poesia de Eugénio de Andrade se engrandece mesmo quando se volta para o paraíso da infância, através do qual atinge a plenitude.

Para o crítico, dá impressão de que Eugénio de Andrade “pôs toda a sua infância no bolso e que, tal como um prestidigitador que tira um coelho da cartola, com um simples gesto que lhe advém da realidade, ele retira um pedaço do seu passado numa mistura de presença e ausência, de sonho e de realidade”.

Para o professor, esta transcendência é uma das finalidades da poesia que, a partir de um sentimento de felicidade passada, pode fazer-nos vislumbrar imagens que nos ocasionam um prazer presente. “É que, na verdade, a arte dá à percepção estética o que o mundo apenas pode prefigurar”, diz.

Vais e vens na memória dos dias

onde o amor

cercou a casa de luz matutina.

Às vezes sabíamos de ti pelo aroma

das glicínias escorrendo o muro,

outras pelo rumor do verão rente

ao oiro velho dos plátanos (...)

(Os sulcos da sede: 23)

Citando o crítico espanhol Fernando Cabo Aseguinolaza, Oliveira lembra que a infância evoca não só um tempo passado, mas também reenvia à presença interior do adulto. E observa que, em Eugénio de Andrade, a presença da infância é sensualmente sentida, embora distante (ao mesmo tempo presente e ausente, já que ela continua). Como exemplo, cita estes versos:

(...) A que vive dentro de mim

também voltou; continua a correr

nos meus dias. (...)

A criança voltou. Corre no vento.

(Poesia: 523-524)

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular