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"A Era do Doutor", uma caricatura demasiado fiel?

24.11.2016
 

A morte anunciada da blogosfera e o florescer das redes sociais deu à luz um popular fenómeno em rede, nasceu no Facebook, dá pelo nome de Jovem Conservador de Direita e tomou de assalto a rede social, já com mais de 30.000 seguidores na sua página oficial estreou-se agora em livro com "A Era do Doutor" (272pp.; 16,60€; Saída de Emergência, 2016), sub-titulado "Retrato do Génio que Vai Salvar Portugal" caricatura na perfeição a actual direita portuguesa e até alguma da esquerda dita radical.

Flávio Gonçalves

Dei pela existência do Jovem Conservador de Direita quando notei que muitos militantes de direita partilhavam os seus textos, na altura julguei tratar-se de uma espécie de página de jovens entusiastas do "Observador", actual porta-voz da direita liberal. Notei também que muitos activistas de esquerda se davam ao trabalho de comentar violenta e selvaticamente algumas das suas afirmações, só tendo finalmente uma tarde desocupada é que me debrucei mais demoradamente sobre o fenómeno e compreendei que, afinal, se tratava de uma página satírica criada e animada, dizem, por um comediante de esquerda.

Ora bem, pegando no volume de "A Era do Doutor" compreendi perfeitamente a confusão dos activistas tanto à direita como à esquerda, a caricatura que efectua da direita portuguesa ligada ao Partido Popular e ao Partido Social-Democrata é de uma atroz fidelidade (recorde-se que como colaborador do semanário "O Diabo" e dirigente 'jotinha', aquando da transição da Juventude Centrista - Gerações Populares de Manuel Monteiro para a Juventude Popular de Paulo Portas, convivi assiduamente com a nova geração da direita lusa). Tanta que muitos deles não se aperceberam que a [página] Jovem Conservador de Direita era uma espécie de "Inimigo Público" das redes sociais, alto tão deprimente como hilariante.

A obra, ilustrada por Gui Castro Felga, retrata o dia-a-dia e as ambições Goldman Sachsianas de um pobre "jovem de direita, branco, heterossexual e de boas famílias", as menções frequentes à Sacoor Brothers e à Hugo Boss creio não terem qualquer patrocínio, mas bem podiam ter. Ao longo destas quase 300 páginas escritas pelos estagiários do Dr. Jovem Conservador de Direita (pois ele próprio, obviamente, não tem tempo para coisas parvas como escrever livros, mas é como se o tivesse escrito) testemunhamos a sua luta para livrar Portugal do jugo iminente de uma esquerda que tem como modelo a Coreia do Norte (do PS ao BE passando, obviamente, pelo PCP) e que nos quer colocar a todos, portugueses, a uma dieta de carne de cão. Curiosamente, esta esquerda tem também uma qualquer obsessão por Cheetos e é constituída exclusivamente por drogados...

A primeira parte é a que mais fidedigna me pareceu, sendo o Jovem Conservador de Direita um não tão jovem progressista de esquerda creio que talvez não se tenha apercebido de quão fiel é a caricatura que retrata, os primeiros três capítulos tratam de ideologia, economia e lutas sociais. Ainda não recuperados, segue-se o ultraje de uns quantos "contos infantis de direita" e uma talvez exagerada obsessão pelo Dr. Nuno Melo, eurodeputado do CDS/PP, e a árdua luta do Dr. Jovem Conservador de Direita para salvar o seu sobrinho dirigente da Juventude Popular do escombro humano (drogado, poliamoroso e bissexual) em que se tornou após a sua passagem pelo programa Erasmus.

Há muito tempo que não me ria tanto com um livro de sátira, embora por vezes a aproximação demasiado fiel à realidade política da direita aqui caricaturada - que nos governou durante quatro desastrosos anos - me tenha deixado mais apreensivo após um curto período de reflexão. Leitura obrigatória para militantes tanto de esquerda como de direita, mesmo que não tenham sentido de humor.

 


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