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A religião faz mal ás pessoas

24.10.2017
 
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O conflito entre palestinos e judeus é basicamente político. Israel não aceita a existência de um estado palestino que englobe as terras que ocupa desde 1967.

Mas, o conflito é também exacerbado pelas posições religiosas opostas dos dois lados. Em seu livro "Deus, um Delírio" (The God Delusion), o autor, Richard Dawkins dá um exemplo de como, nesse caso, a religião contribui para ampliar as diferenças entre os dois povos.

Em 2006, o psicólogo israelense Georges Tamarin realizou um teste para saber como as crianças de hoje reagem diante das narrativas bíblicas. Mais de mil crianças israelenses, entre 8 e 14 anos, ouviram o relato da batalha de Jericó, contido no chamado Livro de Josué:

"Disse Josué ao povo: gritai, porque o Senhor vos tem dado a cidade. Porém a cidade será anátema ao Senhor, ela e tudo quanto houver nela. Toda a prata, e o ouro, e os vasos de metal e de ferro são consagrados ao Senhor; irão ao tesouro do Senhor. E tudo quando havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo e ao jumento. Tão somente a prata, e o ouro e os vasos de metal e de ferro deram para o tesouro da casa do Senhor."

Tamarin perguntou às crianças se elas achavam que Josué e os israelitas agiram bem ou não. Do total, 66% deram aprovação completa, 26% reprovação total e 8%, aprovação parcial. Entre os que aprovaram a ação, as explicações mais típicas foram:

"Deus prometera esta terra a eles. Se eles não tivessem agido dessa maneira ou não tivessem matado ninguém, haveria o perigo de que os filhos de Israel fossem assimilados pelos Góis"; "Josué agiu certo porque Deus mandou que ele exterminasse o povo para que as tribos de Israel não fossem assimiladas entre eles e aprendessem seus maus hábitos"; "o povo que morava na terra era de uma religião diferente, e quando Josué os matou ele varreu a religião deles da face da terra"

Entre os que reprovaram, houve explicações como estas para a posição que assumiram:

 "Acho que foi ruim, já que os árabes são impuros e se alguém entra numa terra impura também fica impuro e amaldiçoado como eles"; "acho que Josué não agiu bem, porque eles podiam ter poupado os animais para eles mesmos"; "acho que ele podia ter deixado os bens de Jericó, porque se eles não fossem destruídos,poderiam ter ficado para os israelitas."

Para um grupo diferente de 168 crianças israelenses, foi contada a mesma história, só mudando os nomes de Josué para um hipotético general chinês chamado Lin e de Israel por um reino chinês de 3 mil anos atrás. Dessa vez, o resultado foi que apenas 7% aprovaram o procedimento do general chinês e 75% o reprovaram.

A pesquisa do psicólogo israelense mostra que os caminhos que possam levar a um entendimento na Palestina são muito difíceis e que o ensino religioso, principalmente aquele fundamentalista, está formando gerações comprometidas com a guerra e não com a paz.

Caso o mesmo teste tivesse sido aplicado às crianças palestinas é bem possível que o resultado fosse parecido, o que mostra até que ponto a religião serve para separar os povos e levá-los muitas vezes à guerra. Por trás dos conflitos entre católicos e protestantes na Irlanda, entre xiitas e sunitas nos países árabes e mesmo nos Balcãs, aparece uma questão religiosa, ainda que ela não seja sempre a causa fundamental para que eles existam. Nesses casos, ela serve para identificar as partes oponentes, aumentar a carga de ódio entre elas e levantar uma bandeira moral para justificar a matança dos pretensos inimigos.

 Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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