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A morte de Dalva

24.05.2017
 
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O professor Armando, de História, estava empolgado, contando aos seus alunos como Leônidas e seus 300 soldados espartanos, haviam resistido aos milhares de persas no desfiladeiro das Termópilas. Contar estes feitos heroicos era a sua especialidade. Ele vivia cada momento da batalha como se fosse uma testemunha presente nos fatos. Nessas horas se desligava de tudo que estivesse em sua volta. A turma já sabia: quando ele afrouxava o nó da gravata, impostava a voz e erguia os braços como se estivesse num comício, era o sinal de que estava possuído pelo helenismo e que os alunos ficavam liberados para tratar de suas próprias questões. 


Quem falou primeiro foi o Eduardo. Ele estava no fundo da sala, cercado pelo seu grupo habitual de amigos. Marcos ficava na frente, lado direito, junto à janela, com a sua turma. No meio dois estavam as meninas, além do Tácito e do Euclides, os dois irmãos gays. Os integrantes de um grupo só falavam com os do outro em casos extremos. Na maior parte das vezes, eram Tácito e Euclides que transmitiam os recados entre as duas facções - um desafio para um jogo de futebol no recreio, o que fazer para trocar o professor de matemática, ou acertar uma falta coletiva no dia seguinte a um feriado. Marcos ouviu apenas uma parte da frase de Eduardo.


- Ela morreu.
- Ela quem? Quem morreu Tácito? 
Quem trouxe a resposta não foi Tácito. Surpreendentemente, o próprio Eduardo se levantou do fundo da sala e para o espanto de toda a turma veio sentar ao lado de Marcos. 
- A Dalva morreu. 
 - A Dalva?


No momento seguinte, a notícia tinha se espalhado por toda a sala.
Até as meninas, com risinhos contidos e um rubor nas faces, cochichavam 
- A Dalva morreu.
A Dalva morreu...Dalva morreu....Dalva morreu... aquele coro de vozes chegou até o Olimpo onde o professor Armando estava no ponto culminante de sua narração, quando Leônidas desafiava os persas que ameaçavam cobrir a luz do sol com suas flechas.
- Melhor, combateremos à sobra...quem morreu?
Dezenas de vozes se elevaram ao mesmo tempo para responder
- A Dalva morreu.


- A Dalva?
O professor Armando baixou os braços, apertou o nó da gravata e começou a repetir com uma voz sumida
- A Dalva morreu...Dalva morreu....Dalva morreu. 
Nesse momento a porta se abriu e Dona Maria, a secretária geral da escola, pôs a sua cara para dentro da sala.
- Quem morreu?


O coro respondeu
- A Dalva
- Quem é a Dalva?
Dona Maria vestia-se de preto desde a morte do marido há 10 anos. Usava uns óculos de vidro fundo de garrafa e ostentava um buço que fazia inveja aos meninos maiores da turma que ambicionavam ter um bigode. Além de trabalhar em dois turnos na escola, ela era coordenadora da catequese na Igreja Matriz.
- Dona Maria, a senhora Dalva de quem estamos pranteando a morte, se dedicava a mais antiga das profissões, explicou o professor Armando.
- O que o senhor quer dizer com isso, professor?


Antes que o professor Armando pudesse responder, Eduardo gritou do fundo da sala.
- Era a dona do Céu Azul, a puta mais antiga da cidade.
Dona Maria ficou vermelha como um pimentão. Por um instante pareceu que iria ter uma explosão de raiva como costumava acontecer quando algum aluno usava palavras que ela considerava inadequadas em uma escola católica, mas simplesmente começou a chorar convulsivamente para o espanto de todos. Só depois de alguns minutos conseguiu se controlar e dizer alguma coisa.
- Vamos então rezar pela alma desta nossa irmã.
Quando ela saiu, finalmente, ficou aberta uma grande discussão na sala. 
 Marcos assegurava que o "nossa irmã" era um eufemismo, fruto do catolicismo de Dona Maria, que costuma perdoar todos os erros dos que morreram. Eduardo, porém, não abria mão de que tinha sido uma confissão: a beata e a puta eram mesmo irmãs.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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