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O mundo picaresco de Eduardo Mendoza

24.05.2010
 
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O mundo picaresco de Eduardo Mendoza

Adelto Gonçalves (**)

Em 1975, três meses antes da morte do generalíssimo Francisco Franco (1892-1975), a Espanha, entre satisfeita e perplexa, descobria um romance que, por sua originalidade, contrastava com tudo o que se escrevia no país àquela época. Chamava-se La verdad sobre el caso Savolta (Barcelona, Seix-Barral), até hoje não traduzido no Brasil. E seu autor, Eduardo Mendoza (1943), passava a ocupar um lugar no altar reservado às promessas literárias.

Era o momento em que a literatura espanhola, sem medo de reconhecer a influência dos grandes escritores do boom latino-americano, como Gabriel García Márquez (1928), Julio Cortázar (1914-1984) e Mario Vargas Llosa (1936), reciclava-se e passava a apresentar um produto novo, diferente do que se fazia desde o fim da Guerra Civil (1936-1939), cujos expoentes eram Camilo José Cela (1916-2002) e Gonzalo Torrente Ballester (1910-1999). Diante desse panorama, La verdad sobre el caso Savolta representava não só o resgate da tradicional arte de contar histórias como o fim de um período experimentalista, cujo maior representante era Juan Goytisolo (1931).

Trinta e cinco anos depois, Mendoza não é mais uma promessa. É, isso sim, um autor consagrado. La ciudad de los prodígios (Seix-Barral, 1986), seu único livro publicado no Brasil (A cidade dos prodígios, São Paulo, Companhia das Letras, 1987), já vendeu mais de 200 mil exemplares. No total, o autor já deu à luz 17 títulos, tendo vendido cerca de um milhão e meio de exemplares. Só o recente El asombroso viaje de Pomponio Flato (Seix Barral, 2008), que o autor define como uma “novela de humor” ou “de avión”, passou dos 500 mil exemplares. Como seus livros “vendem como churros” – para se repetir aqui uma típica frase mendozina –, ele vive de direitos autorais há três décadas, privilégio reservado a poucos, mesmo na Espanha.

São números que comprovam uma ascensão digna – guardadas as devidas distâncias – de Onofre Bouvila, personagem principal de La ciudad de los prodígios, que sai da miséria para se tornar um dos chamados próceres da Barcelona modernista que, ao final do século XIX, inventava-se a si mesma para se mostrar ao mundo como cidade cosmopolita.

Hoje, além de indiscutível ponto de referência na literatura espanhola, Mendoza, mesmo a contragosto, é leitura obrigatória em programas escolares. Seus romances El misterio de la cripta embrujada (1979) e El laberinto de las aceitunas (1982), embora não alcancem a transcendência de La verdad sobre el caso Savolta e La ciudad de los prodigios, são igualmente renovadores na forma, embora, a exemplo de ambos, resgatem a tradição picaresca e até uma esquecida fórmula cervantina – a de utilizar como paródia uma linguagem anterior à de sua época.

Além de deixar evidente, a partir de seus próprios títulos, a influência do gênero policial – mais especificamente, o romance negro norte-americano –, seus livros resgatam não só a tradição do romance popular como a do romance gótico, ficção romântica que dominou a literatura inglesa durante o final do século XVIII e início do XIX, geralmente ambientada em cenário lúgubre e desolado, no qual se desenrolam enredos de mistério e terror. Naquelas duas obras, é um detetive louco quem “escreve” os livros não no momento em que ocorrem as aventuras, mas na hora em que são contadas.

Para tanto, Mendoza recupera um personagem bem espanhol, o pícaro, uma espécie de Lazarillo de Tormes (1554), romance de autor anônimo. O pícaro de Mendoza repete um truque de Miguel de Cervantes (1547-1616) que, por sua vez, colocou Dom Quixote (1605) a falar um idioma que já não era o de seu tempo, mas um castelhano primitivo, reconstruído com erros e tonterías, o que, hoje, por causa da distância, é difícil de perceber. Assim, o detetive louco de Mendoza escreve um espanhol de paródia, pois procura falar de uma maneira elegante e culta, mas que soa ridícula porque já fora do seu tempo.

Foi esse tipo de literatura descompromissado que tornou Mendoza popular entre os jovens leitores, a ponto de suas noites de autógrafos provocarem filas quilométricas. Desde então, ele investiu cada vez mais nesse tipo de romance descontraído. É o caso de Sin notícias de Gurb (Seix Barral, 1991), extraterrestre que se perde na Barcelona pré-olímpica sem deixar vínculos com seus companheiros e que, para sobreviver, adota a forma humana, a da cantora Marta Sánchez. Só por aqui já se pode imaginar a série de confusões em que se mete o alienígena.

Antes disso, Mendoza havia publicado, em 1989, La isla inaudita, romance bem diferente dos demais. Repetiu a experiência em El año del dilúvio (1992), em que confirma essa preocupação de se renovar, ao reconstituir um episódio vivido nos anos 60 num povoado catalão entre um proprietário rural e chefe político falangista e uma religiosa “cheia de dúvidas e boas intenções”. Dos anos 90 é também Una comedia ligera (1996), romance que obteve em Paris o Prêmio de Melhor Livro Estrangeiro em 1998 em que reproduz uma vivência que teve no ambiente teatral, ao imaginar um famoso comediógrafo, Carlos Prullàs, cujas peças começam a ficar fora de moda, a viver as contrariedades de quem entra no outono davida. É de lembrar que desde 1990 Mendoza vive com a atriz Rosa Novell.

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