Pravda.ru

Sociedade » Cultura

Fernando Pessoa e a política

23.10.2007
 
Pages: 12

Por isso, De Cusatis considera ingênua e inútil a tentativa de alguns críticos de defender Pessoa da acusação de fascismo e salazarismo. Não o podia ser fascista nem salazarista, diz o crítico, devido à respectiva natureza dos dois regimes, substancialmente de “massa”, de caráter católico-romano e portador de uma “autodisciplina dos espíritos” que ele não podia de forma alguma aceitar.

Há 24 anos, trilhei por essas mesmas sendas que o professor De Cusatis andou em busca do âmago do pensamento pessoano, como pode constatar quem percorrer a bibliografia deste livro. Revisitando o que escrevi àquela época, descubro que o professor chegou a conclusões semelhantes: se Pessoa não nutria simpatias pela ditadura salazarista, advogava, por outro lado, outra espécie de regime forte, mas com Estado mínimo, sem a intervenção estatal na vida do indivíduo e sem a coação partidária.

Quem o definiu com precisão foi o professor Raúl Morodo, catedrático de Direito Constitucional na Universidade Complutense de Madrid e ex-embaixador da Espanha em Portugal, que o considerou “um anarquista utópico de direita”, como lembra De Cusatis. Uma definição que já serviu para explicar também o pensamento do antropólogo brasileiro Gilberto Freyre.

Se o meu ensaio que saiu em 1986 num livro editado pela Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro, com os vencedores do Prêmio Fernando Pessoa e foi lido pelo professor De Cusatis na Biblioteca Nacional de Lisboa, serviu para alguma coisa, fico-lhe grato.

Serviu também para que o escritor Antonio Tabucchi, do alto de sua empáfia, tentasse desqualificar o trabalho do professor De Cusatis num artigo publicado no Corriere della Sera, de Roma, a 31/5/2001, acusando-o de se basear em estudiosos menores e desconhecidos (“un certo Edoardo Frias o un ignoto brasiliano, Adelto Gonçalves”), entre outros ataques.

Por trás de tudo, sabe-se agora, o que estava em jogo eram questiúnculas paroquiais, além de um certo despeito de Tabucchi, que, provavelmente, imagina que seja o único italiano autorizado a escrever sobre Pessoa. Tanto que a publicação do artigo no Corriere della Sera deu-se uns meses antes dos concursos a catedrático a que o professor De Cusatis se submeteu na Itália, com a mulher do próprio Tabucchi, Maria José de Lancastre, como integrante do júri. Por questões de foro íntimo, De Cusatis preferiu até agora não contestar as acusações de Tabucchi, mas chegou a deixar a resposta pronta.

________________________

ESOTERISMO, MITOGENIA E REALISMO POLÍTICO EM FERNANDO PESSO A, de Brunello de Cusatis. Porto, Edições Caixotim, 79 págs., 2005. E-mail: edicoescaixotim@caixotim.pt

________________________

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

Pages: 12

Loading. Please wait...

Fotos popular