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Queermuseu. A volta da Idade das Trevas

23.09.2017
 
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O fechamento de uma exposição patrocinada pelo banco Santander, em Porto Alegre, revela mais uma vez que estamos num rumo incerto. A "Patrulha Ideológica" volta com muito mais força do que nos anos da ditadura militar ou quando depois do fim da ditadura militar, época em que era preciso pensar direito o que se iria cantar, falar ou publicar. Agora, com a massificação das opiniões face ao poder das mídias sociais a "Patrulha Ideológica" vem com a força de uma pandemia. O que vemos, vivenciamos e sofremos é que, muitas das vezes ou na maior parte do tem o obscurantismo tem ganhado espaço, poder e vitória.

Jolivaldo Freitas

Gosto não se discute é uma afirmação já banal, mas que traz embutida toda a sua verdade. Mas, o patrulhamento que agora é amalgamado pelo poder da internet, com grupos de pensamento atrasado se unindo e adquirindo poder de veto, seja por massificação da opinião ou pelo poder do arregimentar e partir para a ação coletiva presencial.

A Queermuseu foi aberta ao público no dia 15 de agosto. Toda sua proposição visava a exploração da diversidade de expressão de gênero. Tinha o conceito do diferente na cultura e na arte em várias fases da produção da arte. Seu modelo é único e aglutinava mais de 270 peças de quase 90 artistas que criaram suas obras "diferentes" e "diversas" desde o século passado até os dias atuais.

Enquanto as obras estavam diluídas, esparsas em coleções particulares e públicas, e não faziam um conjunto, não chamaram a atenção para sua ótica sobre as diferenças sexuais ou filosóficas. A partir do momento que virou uma exposição coletiva adquiriu conotação de coisa do diabo, do belzebu.

A ação de grupos retrógrados voltou a atingir a chamada liberdade de expressão que passou a considerar que a exposição era uma apologia à pornografia, pedofilia e outras observações. Claro que a liberdade de expressão não pode ir de encontro à Constituição, às leis, mas liberdade é liberdade e se você não gosta da obra, da arte, simplesmente ignora e critica. Mas, chegar ao ponto de obrigar ao fechamento de uma galeria, museu ou seja lá que espaço seja, porque você ficou chocado é... chocante.

Vai quem quer. Não vá. Fica claro que as pessoas que obrigaram ao Santander a camuflar a exposição jamais estiveram num bom museu. Imagine essas pessoas indo visitar o Museu do Vaticano, onde boa parte das obras representam a convivência entre adultos, crianças, velhos, mulheres, feios, bonitos, aleijões, nas mais desatinadas posturas. Onde o nu impera. Se for num museu como o de Reina Sofia vai ficar chocado com a arte exposta composta por grandes ícones. Se for no Museu do Prado vai querer tocar fogo nas obras de Bosch, El Greco, Goya, Tintoreto, Caravaggio, Velázques e tantos outros que fizeram com sua arte o ser humano diferente dos animais.

O que estamos vivendo neste período do novo patrulhamento ideológico é um claro processo de opressão. Estão ganhando no grito contra o humanismo e contra a vivência ou convivência culta. Os ignorantes estão ganhando no grito. O obscurantismo está vencendo de novo. As trevas da Idade Média pairam sobre a arte e o pensamento. O Santander acovardou-se quando jogou um pano preto sobre os quadros.

Jolivaldo.freitas@yahoo.com.br

 


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