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Lêdo Ivo e João Cabral: uma visão geral

23.09.2012
 
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Glauber de Oliveira     

Difícil é falar das coisas. Melhor sempre é estar calado. Contudo como as necessidades da vida são grandes, e viver precisa ser uma permanência e não uma dissolução, é deixada a condição de silêncio para tentar fazer alguma coisa. Vem-se aqui falar de dois poetas. Dois contemporâneos. Um alagoano, o outro pernambucano. João Cabral de Melo Neto e Lêdo Ivo. Para começar este texto, precisa-se dizer que estes dois estão intimamente ligados desde a mais jovem idade. Não há como querer fazer este trabalho sem recordar esta questão tão importante. Logo este trabalho, pode-se dizer, não deixa de ser incompleto. Quanto mais nos guardamos em nós mesmos, mais senhores de nós, então ficamos. Fazer qualquer coisa é sempre arriscar-se e dessa forma está-se aqui para a batalha. Passemos propriamente para o desenvolvimento da questão.

Analisar-se-á um livro de cada poeta. Os livros são "Educação Pela Pedra" (1966) de João Cabral e "Estação Central" (1964) de Lêdo Ivo. Esse trabalho tem um objetivo maior muito especial: quer-se colocar a mesma altura o poeta João Cabral Melo Neto e o poeta Lêdo Ivo. Por que essa equiparação? Ao que parece o pernambucano goza de um prestígio muito elevado. Internacionalmente e nacionalmente é dono de uma seleta de prêmios honrosa e, conforme comentário feito pelo atual crítico literário do programa 'Metrópolis" Manuel da Costa Pinto, estaria equiparado até mesmo a Drummond.

Não pode se saber até que ponto a conclusão deste crítico é segura, talvez até por se tratar de um crítico jovem (e também por não se conhecer bem a obra dele), mas como a condição do mesmo é de muita visibilidade, esta afirmação deve ser relevada e talvez até mesmo possa ter algum aval das universidades brasileiras. Adiante fale-se agora do poeta alagoano. Lêdo Ivo sempre teve uma rivalidade com João Cabral, se se pode assim dizer. Pode-se lembrar, por exemplo, o fato de que seu livro 'Acontecimento do Soneto" (1948) foi escrito a partir de um desafio que João Cabral lhe colocou. O poeta alagoano, vendo-se os livros anteriores ao citado, sempre foi um poeta de pouca contenção, por mais que se encontrem nestes mesmos alguns poemas metrificados (já com os sonetos, por exemplo) talvez fruto inicial da querela entre o mesmo e João Cabral. Dito isto diga-se que se o alagoano não vive a mesma glória do pernambucano, no entanto vem colhendo algumas loas nacionais e internacionais (recebeu até um artigo do professor Adelto Gonçalves, doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo, sugerindo dar-se a ele o Prêmio Nobel).

            Conforme conversa tida com a professora Luzilá Gonçalves Ferreira, seu nome parece ter alguma difusão no Sul, não se sabe, no entanto, se Sul extremo ou Sudeste, e provavelmente em Alagoas, seu estado natal, onde deve ter algum aproveitamento acadêmico (por sinal diga-se que da Universidade Federal de Alagoas ganhou o título de Doutor "Honoris Causa"). No entanto, no mesmo estado, não se possa deixar de citar a importância de um nome que, conforme ele mesmo disse, junto com Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, forma a maior tríade de poetas modernos do Brasil. Trata-se de Jorge de Lima. Agora se passará para a apreciação conjunta, e cotejo, das obras escolhidas dos dois poetas.

     "Estação Central" e "Educação Pela Pedra" são livros escritos quase ao mesmo tempo. Compreendem produções dos autores ocorridas de, no "Estação Central", 

de 1961 e 1964 e, no 'Educação Pela Pedra", de 1962 a 1965. Parece muito conveniente esta lembrança das datas porque mostra uma aproximação cronológica de produção dos mesmos. No mais adentre-se à obra de cada autor. O que se vai fazer é analisar cada um dos livros e em seguida cotejá-los.

                 Fale-se primeiramente de 'Estação Central" que foi lançado antes, em seguida se falará de 'Educação Pela Pedra". "Estação Central" é um livro dividido em três partes: 'A Cartilha", "América" e "Chegamento do Varão". O livro é de remate bem diversificado. Encontrar-se-á no mesmo a produção mais variada. Uma grande variedade de metros, poemas em prosa, versos livres... e muitas outras coisas que se poderiam citar, conforme se faça uma avaliação mais detalhada do livro.

                 O que se pode dizer é que Lêdo Ivo é um escritor. É um homem de grande cultura literária. Seus textos, e não só os seus poemas, são carregados do pecúlio cultural que ele conquistou. Como já se referiram a ele vários autores, ele é um homem inteligente. Pode-se recordar Guimarães Rosa que, não se fará a citação do texto imaculadamente, dizia que ele devia pôr em sua casa uma placa escrito 'Vende-se inteligência".

            Outro comentário importante é o do crítico literário paulista Sérgio Milliet que ao analisar um dos seus livros de poesia, onde este mesmo já vinha analisando toda obra do autor e percebendo que gradualmente ocorria uma pluralização de suas possibilidades poéticas, disse o crítico que o alagoano era, mais do que qualquer coisa, múltiplo. E acredita-se que numa tentativa de simplificar o todo numa parte da obra do autor, o livro escolhido para análise talvez satisfaça isso. Por leituras mais recentes e de obras mais atuais do poeta sabe-se que ele acrescentou outras estéticas em sua obra, mas de qualquer forma pela variabilidade de possibilidades poéticas contidas neste livro, não se pode deixar de atestar sua condição de múltiplo. Seguindo, deve-se dizer que esta multiplicidade é realmente muito rica. As possibilidades de produção dele são realmente intermináveis. Como se está analisando apenas um livro, discorre-se apenas sobre ele e assim podem-se destacar as mais variadas estéticas. Um poema, por exemplo, como 'A Terra é redonda". Este poema é de uma força vocabular, ao que parece, impressionante. Além disso pode-se dizer que Lêdo Ivo é um poeta-filólogo. Em corroboração a isso se diga que o autor alagoano é um exímio conhecedor da língua portuguesa a ponto de se indispor com os mais simplórios erros que possam ser cometidos nela e isso está documentado em entrevista que deu ao jornalista Geneton Moraes Neto.

     Para continuação desta redação faz-se necessária a recordação de um desenvolvimento teórico sobre poesia desenvolvido pelo autor destas linhas. Esse desenvolvimento está presente na sua monografia para conclusão do curso de bacharelado em ciências sociais na Universidade Federal de Pernambuco (2004). Nesta monografia se discorre sobre um pensamento constante sobre o acontecimento poético, a ponto do autor, em suas perquirições, ter chegado a algumas conclusões que até o momento lhe parecem satisfatórias. Neste trabalho estão determinados três níveis do acontecimento poético. Os três níveis são: primeiro, o descritivo e psicológico, que é o mais fraco; segundo, o metafórico que é o intermediário; e por último, o místico-mitológico-religioso que é o mais esbanjatório.

            Estas conclusões estão intimamente ligadas aos quatro anos universitários feitos por quem escreve estas linhas e que são decorrências de seu contato com a poesia, a exegese literária, a filosofia e a religiões orientais e ocidentais. São conclusões muito abrangentes, pois conforme se tem uma visão a mais ampla possível do acontecimento da vida, onde a poesia tem um lugar muito especial, inevitavelmente a tentativa de teorização da mesma é muito delimitadora. Não se pode deixar de recordar a sentença de Goethe tão conveniente: "Cinza é toda teoria, mas verde é a cor da árvore da vida". Foram recordados todos estes níveis poéticos como forma de tentar situar os poemas de Lêdo Ivo dentro deles. A mesma coisa será feita por ocasião das considerações que posteriormente serão feitas em torno da poesia de João Cabral de Melo Neto.

            Admitida esta teoria como pode se situar dentro dela a poesia de Lêdo Ivo? No livro que foi escolhido apresenta-se uma poesia que basicamente está entre o primeiro e o segundo níveis. Como exemplo do segundo nível poético, diga-se que um poema como "O Rato do Campo e o Rato da Cidade" é uma fábula e sendo uma fábula é uma alegoria e sendo assim trabalha com tropos, figurações da realidade cotidiana. Num poema como "Outono em Washington" tem-se o que se pode chamar de paralelismo. Trata-se de um belo poema sobre a fusão da urbanidade e da natureza na contemporaneidade. É forte a lembrança dos animais e que, na obra como um todo, de Lêdo Ivo se faz muito presente.

            Tem um pouco da observação do comportamento humano também e que estão apresentados em sua quinta estrofe que é aqui citada: "uma tempestade de corn-flakes/ cai sobre as moças em flor que vão/ aos psiquiatras perguntar como / lidar com as máquinas do amor." Outro aspecto que deve ser considerado é da relação do poeta com Deus, a especulação sobre o divino nele é muito forte e está presente mesmo em obras mais recentes. Citem-se dois exemplos. A última estrofe de "Aos Corretores de Filadélfia" ("A América pôs a minha vida no seguro./ Mas quem me segurará contra a eternidade?/ Não quero ser imortal./ Que minha alma cremada não alcance os anjos.") e a última estrofe de "Em San Francisco da Califórnia" ("Como então não me sentir eterno/ se toda a baía fervilhava/ de pássaros e águas").  O livro também possui poemas narrativos como "As Velhinhas de Chicago". Além disso, lembre-se a seção "Chegamento do Varão" que simplesmente por ser uma louvação a seu filho, por si só deve ser considerada. Como ilustração recorde-se o poema "O montepio" que não pode ser ignorado. O livro é predominantemente feito na forma impessoal, por mais que algumas vezes o autor faça poemas em primeira pessoa. Admitindo talvez que se possa fazer uma análise mais longa e detalhada, no entanto basicamente é o que temos no livro "Estação Central" de Lêdo Ivo. 

                 Passando agora à obra do poeta João Cabral de Melo Neto, pode-se dizer inicialmente que, no livro escolhido, prepondera o hendecassílabo. No entanto deve-se dizer que a característica mais significativa de João Cabral é que seu trabalho de eclosão poética é muito maquinado, é muito cerebralizado. Não é de mais lembrar que, segundo confissão feita por Lêdo Ivo, a criação de João Cabral era muito angustiante, por sinal até lhe causava muita dor de cabeça.

            Diferentemente da criação em Lêdo Ivo que é feita com muita alegria, é mais espontânea. Todavia não se deixe de enfatizar que, ao dizer espontânea, não se está querendo dizer que é pueril, pois, como é preciso saber, conhecida a biografia do poeta, não há como deixar de admitir sua condição de culto desde a mais primeva idade. Por isso se seus textos são de rápida execução, não obstante são fartos de conhecimento literário. Falando um pouco do livro de João Cabral denota-se que a característica principal é o que se poderia chamar de uma metáfora curta. É uma metáfora que não é uma analogia, por exemplo. Não é algo discorrido, é mais uma manufatura, um artesanato.

            Na verdade o que ele faz é uma espécie de circunlóquio, onde forçada a escrita, vai-se chegando a uma centelha poética. Mas, de qualquer forma, deixa-se a impressão que é tudo feito a muito custo. Só para citar alguns exemplos, há de se encontrar metáforas curtas como luz-balão, livro-cisterna ou jornal-rio. Elas são um remate de uma insistente manufatura e talvez daí é que ele possa ser considerado um bom poeta. No mais, esta é a característica contínua do livro. É difícil não deixar de sentir em João Cabral que seu acontecimento poético é uma prospecção, é como se ele tivesse joeirando o trigo, acredita-se.

            Conforme depoimento do mesmo em documentário exibido pela TV Cultura, já há muito tempo, e que infelizmente não se recorda o nome, seu objetivo sempre foi fazer uma poesia que não fosse, e aqui se parafraseará sua analogia, um carro percorrendo uma pista lisa, mas sim uma um pista talvez esburacada ou mesmo cheia de obstáculos. Enfim a poesia do pernambucano é mais uma construção do que uma criação, não é uma epifania, não é até mesmo uma inspiração. Nos livros produzidos mais próximos da sua morte, infelizmente menos conhecidos por quem aqui escreve, não se pode dizer que o autor continuou o que o caracterizou até o livro "Educação pela Pedra", mas, até em conversa tida com o poeta Lêdo Ivo, este mesmo confirmou que a tendência a uma unilateralidade estética, o que o alagoano chamou de algo obsessivo, parece mesmo ser a tona principal da sua produção.

            No entanto não se deixe de lembrar sua poesia mais participativa ou engajada que com a outra comporiam o que ele chamou de "Duas Águas", título de uma das suas reuniões de poemas. A partir deste comentário, por mais que o livro não seja analisado aqui, dá-se vazão a lembrar o poema dramático em João Cabral, que está bem ilustrado com o seu auto "Morte e Vida Severina". Para não deixar de comparar, por mais que também, não se esteja falando deste livro aqui, Lêdo Ivo também tem um poema dramático que é "Calabar". Forma de apresentar característica poética importante e que está presente nos dois. De resto há intransigência por uma poesia impessoal e que, talvez, ilustre a dedicatória do livro. Dedicada a Manuel Bandeira, poeta mais confessional, e se referindo ao seu livro como antilira.

                 Por fim como foi dito inicialmente a pretensão maior era situar os dois autores à mesma altura, inclusive por questões de biografia, pois os mesmos têm uma vida muito em comum, até mesmo na idade. No entanto o alagoano Lêdo Ivo tem hoje 88 anos. João Cabral faleceu em 1999. Quer-se crer que a compatibilização dos dois é conveniente e por mais que não se tenha analisado a obra toda dos dois, tem-se a impressão que, pelo acúmulo de leituras que o autor destas linhas tem da obra de cada um, a equiparação lhe soa válida. É verdade que muita coisa ficou de fora, afinal são poetas com obras de várias décadas e é impossível falar de tudo por mais que se queira. Enfim foi uma tentativa de um autor ainda jovem e que por sentir esta menorização do poeta Lêdo Ivo frente ao seu contemporâneo João Cabral de Melo Neto, realizou este texto com o substrato cultural que ele desenvolveu até hoje.

             Como já se dizia no começo deste texto é muito arriscado falar das coisas, é sempre estar em diálogo com o erro ou com a falta, mas como continuar vivendo parece ser uma coisa imperiosa, tenta-se aqui fazer algo satisfatório. Era possível fazer uma avaliação mais alongada, mas ao que parece, em linhas gerais, o que se pretendia falar de cada autor, foi, em essência, apresentado.

 

P.S.: Nestes tempos atuais, onde vai ficando cada vez mais difícil mensurar ou dizer o que são as coisas, uma impressão não se pode deixar de ser citada. Ao ler o último poema do livro 'Educação pela pedra", "Para a Feira do Livro", sua segunda parte suscitou uma idéia. Parece que poesia, pelo menos para o dia de hoje, é aquilo que realmente lhe toca. Logo mesmo a coisa mais prosaica pode ser poética. Na última parte do poema citado ocorre um paradoxo que não passou em branco. Cite-se a parte: "Silencioso: quer fechado ou aberto/ inclusive o que grita dentro; anônimo:/ só expõe o lombo, posto na estante,/ que apaga em pardo todos os lombos;/ modesto: só se abre se alguém o abre,/ e tanto o oposto do quadro na parede,/ aberto a vida toda, quanto da música,/  viva apenas enquanto voam suas redes./ Mas apesar disso e apesar de paciente/ (deixa-se ler onde queiram), severo:/ exige que lhe extraiam, o interroguem;/ e jamais exala: fechado, mesmo aberto. Essa impressão também ocorreu da leitura do livro de Lêdo Ivo, mas foi mais forte neste poema. É verdade que é de pouca significação, pois, afinal de contas, os poemas mais metafóricos ou fabulatórios continuam ainda a ser os maiores poemas.  E isso evoca uma observação de Mário de Andrade, contida em um dos 'Diários Críticos" de Sérgio Milliet: a poesia pode estar em tudo, na retórica, na eloqüência... Por mais que o educado em Genebra tenha aceitado a sentença com hesitação. 

     

 

 


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