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‘Versus’, a utopia impressa

23.01.2008
 
Pages: 123
‘Versus’, a utopia impressa

Adelto Gonçalves (*)

I

Foi um sonho que durou quatro anos e 33 edições. Essa é a história de Versus, jornal de cultura, que lançado em São Paulo, em outubro de 1975, por iniciativa do jornalista Marcos Faerman (1944-1999), foi uma experiência única de jornalismo alternativo no Brasil, ao enfocar questões literárias, poéticas, épicas e sociais da história brasileira e da América Latina. No último ano de sua existência, ao deixar de lado a visão onírica que era marca de seu fundador, o jornal partiu para uma posição política mais radical em relação à realidade brasileira, até fenecer, em agosto de 1979, antes mesmo da abertura política e da queda do regime militar (1964-1985).

Para resgatar boa parte dessa história, Omar L.de Barros Filho, o Matico, repórter e editor de Versus e, hoje, diretor de redação do site www.viapolitica.com.br e diretor da Laser Press Comunicação, em Porto Alegre, reuniu em Versus: páginas da utopia alguns dos mais significativos textos publicados pelo jornal. Na apresentação que escreveu para esta antologia, lembra que Faerman costumava dizer que Versus nascera sob o signo da tristeza provocada pela morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões dos cárceres da ditadura, em outubro de 1975.

Faerman, o Marcão, era repórter especial do Jornal da Tarde, praticamente, desde a fundação desse diário em 1966 do grupo S.A.O Estado de S. Paulo e, embora recebesse um bom salário para a época, não era homem de posses. Despojado, não fazia planos a longo prazo, como comprar um imóvel para a família ou mesmo um automóvel. Em troca do sonho de criar um jornal de cultura, passou a dispor a maior parte de seu salário para sustentar a publicação.

Além de escrever boa parte das reportagens, artigos e entrevistas, Faerman valeu-se de uma legião de amigos que fizera por todo o Brasil e América Latina. Aliás, a idéia de publicar Versus nascera depois de uma entrevista que fizera com o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de Las venas abiertas de America Latina, que, à época, dirigia em Buenos Aires a revista cultural Crisis. A ligação de Marcão com a esquerda intelectual argentina era tanta que, em 1988-1989, ele lançou em São Paulo a Crisis brasileira, que teve vida curta.

II

Nos anos 70, essa aproximação com a América Latina não era bem vista pela esquerda tradicional, que entendia aquilo como alienante. Mas o que estava por trás dessa oposição era mesmo o radicalismo de uma gente, que não lia muito e repetia o que ouvira de antigos comunistas. Uma gente stalinista, fora da realidade, que analisava o mundo e a vida de acordo com fórmulas prontas de um marxismo subdesenvolvido, mas que o que queria era mesmo chegar ao poder para se locupletar, como a história recente tem mostrado.

O Versus, um jornal de artes, idéias e aventuras, feito de idealismo -- o que aquela gente nunca teve --, não merecia esse preconceito, até porque publicava textos de pensadores de esquerda latino-americanos, como Mariátegui, Ernesto Cardenal e outros.

O Versus preocupava-se também com a cultura indígena, as lendas e as tradições de povos que haviam sido vítimas do genocídio lento que fora a colonização do Brasil e da América. E não só: durante um bom tempo, o jornal tornou-se um porta-voz solitário das reivindicações do movimento negro brasileiro, a uma época em que as pessoas “desapareciam” de um dia para o outro tanto aqui como na Argentina, Uruguai, Chile e demais países latino-americanos.

A antologia organizada por Matico reflete tudo isso, como se vê numa reportagem em que o repórter Renan Antunes de Oliveira chega a Montevidéu disposto a saber das autoridades do regime militar uruguaio o paradeiro da brasileira Flávia Schilling. Ou em outra, de autoria de Wagner Carelli, em que o repórter percorre os cemitérios do Chile em busca das histórias dos mortos de setembro de 1974, as vítimas do golpe militar comandado pelo sanguinário Pinochet.

Da antologia constam reportagens assinadas por nomes como os argentinos Rodolfo Walsh -- uma dos primeiras vítimas fatais da ditadura argentina --, Tomáz Eloy Martínez e Diana Bellessi e o uruguaio Eduardo Galeano. Sem contar que réune alguns dos melhores textos do jornalismo brasileiro, como Carlos Rangel, Caco Barcelos, Luiz Egyto, Arnaldo Jabor, Hélio Goldsztein e Licínio de Azevedo (que, depois, foi para Moçambique), além de nomes consagrados da cultura brasileira como Mário Pedrosa, Lívio Xavier, Plínio Marcos, Augusto Boal, Nélida Piñon e Abdias Nascimento, bem como do pessoal da redação, como Faerman, Matico, Vitor Vieira, Jorge Pinheiro, entre outros. E grandes entrevistas de perguntas-e-respostas com Michel Foucault e Gianfresco Guarnieri. São textos que não perderam o sabor.

III

Em formato tablóide, 52 páginas, o primeiro número de Versus tirou 12 mil exemplares e foi mesmo distribuído de mão em mão, em bancas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras poucas cidades. Logo, grupos para-militares de direita começariam a ameaçar os donos das bancas que aceitassem vender Versus. Mas isso não impediu que o jornal começasse a despertar o interesse de leitores que estavam cansados da grande imprensa que, com raras exceções, mostrava-se servil aos interesses da ditadura.

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