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"Novos quilombos..."

22.08.2006
 
"Novos quilombos..."

Fugidos de seus senhores, ex-escravos formavam, no insensível período colonial do Brasil, grupamentos de resistência à escravidão, que a história registrou como "quilombos". Os quilombolas instituíram seus líderes ou reis tribais como na organização social africana. O "dos palmares", liderado por Zumbi (1680), que inclusive comandou a resistência contra as tropas portuguesas, era o mais famoso.

Elias Mattar Assad


Naquela época, escravo era considerado "coisa", inclusive passível de compra, venda, empréstimo e submetido a tratamentos desumanos e degradantes. O dono do escravo alimentava-o para que enfrentasse o trabalho e não adoecesse. Igualmente, dava-lhe vestes para que não se apresentasse publicamente nu. Dava habitação ao escravo, ainda que coletiva. Tinha interesse em que ele reproduzisse para o aumento de seu patrimônio. Enfim, um escravo saudável e vestido era sinônimo de posses do dono. Os "rebeldes" eram submetidos ao pelourinho sem direito a dignidade e o dono podia tudo...


Hoje, o pelourinho é outro. As senzalas são as favelas, com a diferença de não existir "senhorio" mantenedor. Os castigos são ministrados pelos "homens da lei" e pelos "fora-da-lei" (poderes de vida e morte). O apossamento se faz mediante um pequeno pagamento em dinheiro, em cenas que ultrapassam os limites de qualquer imaginação. A escravidão contemporânea, por exclusão social e mascarada, é mais abominável que a velha coativa...


Décadas de insensibilidades propiciaram, entre nós, o surgimento de novos e mais fortes "quilombos de todas as etnias". Temos o "quilombo dos sem terras", "sem teto", "dos moradores de rua", "dos sem trabalho", "da rocinha", "dos encarcerados", "quilombo do CV", "PCC", entre tantos outros, e cada qual com seus líderes, ideologias e exigências.

Um desses "quilombos contemporâneos" de São Paulo, recentemente, do seu modo exigiu e obteve uma espécie de "direito de resposta" em uma rede de televisão... Esta, desesperada, consultou previamente seus gurus, atendeu a ordem e, em seguida, mobilizou entidades representativas na confecção de um oportuno e sóbrio manifesto intitulado: "Basta à violência".


Preocupados com a insensibilidade nacional generalizada, os subscritores da Carta Brasil 2006 de direitos humanos, nela incluíram: "Devem ser deflagrados mecanismos visando à proteção da honra, imagem, intimidade, presunção de inocência das pessoas prematuramente mencionadas ou envolvidas em situações de anti-sociabilidade contra o sensacionalismo de certos programas jornalísticos que, na contramão do jornalismo investigativo e imparcial, só fazem escarnecer a desgraça alheia e estimular a paranóia coletiva, enquanto conferem notoriedade indesejável a criminosos... Os meios de comunicação social não podem se converter em usinas do medo..." Que tal começar esse "basta à violência", pelo resgate do autêntico e clássico jornalismo comprometido com a verdade e com a ciência, onde os comunicadores portavam-se como magistrados e as conclusões sobre os temas abordados ficavam por conta do leitor ou telespectador? O caos é bom para os ruins...


(Elias Mattar Assad é Presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas - eliasmattarassad.com.br)


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