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Novas perspectivas de leitura

22.06.2010
 
Pages: 12
Novas perspectivas de leitura

Adelto Gonçalves (*)

I

Textos literários provocam reações diferentes em diferentes leitores e, por essa possibilidade de “diferença”, para a teoria da recepção, esses textos sempre são dinâmicos, gerando um movimento complexo que se desdobra no tempo. Essa frase de Pedro Lyra, retirada por Robson Coelho Tinoco de Literatura e Ideologia (Petrópolis, Vozes, 1995), explica bem não só o que é a chamada estética da recepção como define na medida certa aquilo que se pode chamar de mistério da linguagem, ou seja, a capacidade que têm certos textos de atravessar os anos e os séculos, sempre apreciados por gerações de leitores.

Em 2006, quando este pesquisador foi convidado a escrever o prefácio para um livro de Contos, de Machado de Assis (1839-1908), que seria publicado em edição russo-portuguesa pela Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, com o apoio da Embaixada do Brasil em Moscou, o que lhe veio à mente foi que os brasileiros nunca deixaram de ler Dostoievski (1821-1881), muitas vezes, em traduções de segunda mão, do francês para o português.

E mais importante: sempre o entenderam, pois imaginavam o que teria sido a São Petersburgo oitocentista e as personagens que nela se movimentavam. Sendo assim, não haveria por que temer a recepção de Machado de Assis na Rússia porque, afinal, o leitor russo, de alguma maneira, haveria de imaginar o que teria sido o Rio de Janeiro oitocentista e entender muito bem as personagens machadianas que nela se movimentaram.

É que o romance como o conto sempre existe em três planos, como certa vez, num final de tarde de janeiro de 1990, no Café Samoa, em Barcelona, expôs a este pesquisador o escritor catalão Eduardo Mendoza: como o autor o imagina antes de escrevê-lo; depois, quando está escrito; e, por fim, quando o leitor abre o livro. Ao acabar de ler o romance (ou o conto), o leitor termina também de reescrevê-lo à sua maneira porque, afinal, imagina coisas que não conhece nem nunca poderá conhecê-las porque perdidas no tempo, tal como a São Petersburgo dostoievskiana ou o Rio de Janeiro machadiano.

Esses episódios (re)imaginados, de acordo com a capacidade de cada leitor, que são o produto final do processo criativo iniciado pelo escritor, constituem o mistério da linguagem, um estranho fenômeno há muito estudado, mas nunca suficientemente desvendado, apesar de todo o esforço da chamada teoria da recepção ou “estética da recepção”, a mais jovem e mais importante manifestação da hermenêutica, oriunda da Alemanha.

II

A que vêm estas reflexões e lembranças? Vêm a propósito do livro Leitor real e teoria da recepção: travessias contemporâneas (Vinhedo-SP, Editora Horizonte, 2010), de Robson Coelho Tinoco, em que o autor, num primeiro momento, reúne estudiosos renomados na esfera da estética da recepção para, em seguida, apresentar análises críticas de obras de Machado de Assis, Aluísio Azevedo (1857-1913), Guimarães Rosa (1908-1967), Gustave Flaubert (1821-1880), Charles Baudelaire (1821-1867) e Murilo Mendes (1901-1975). E o faz com muito fôlego e criticidade ao analisar obras literárias cujos enredos nem sempre saltam facilmente aos olhos do leitor, como observa Ezequiel Theodoro da Silva na apresentação.

Num dos ensaios da primeira parte do livro, “A semiologia da teoria da recepção no destino (atual) do texto moderno”, Tinoco observa que a leitura (de um texto jornalístico, de um romance, de um poema etc.), que não é uma atividade meramente cumulativa, não se dá por meio de movimento linear progressivo.

“Lê-se simultaneamente imaginando e inferindo, recordando e prevendo, tentando, conscientemente ou não, apreender todos os níveis textuais de informação – poética, gramatical, lexical, semântica”, diz, lembrando que na análise de Wolfgang Iser, integrante da Escola de Constança e, ao lado de Hans Robert Jauss (1921-1997), o maior expoente da estética da recepção, lêem-se também as “estratégias textuais” a partir dos “repertórios” das experiências de vida e cultura de cada leitor. “Assim”, explica Tinoco, “é natural que nossas inferências iniciais, acerca do que vai sendo lido, gerem um conjunto de referências para a interpretação e compreensão do que vem a seguir, que bem pode demonstrar, como incorretos, as inferências e entendimentos originais”.

Na conclusão desse ensaio, Tinoco vai mais além, ao observar que a teoria da recepção estabelece a troca (recepção) de informações (entre autor e leitor), “concluindo um sentido duplo de análise – o da obra manifestando ao mundo externo sua mensagem literária e o das experiências de mundo e vida, próprias de cada pessoa (leitor), compondo os grupos sociais de uma determinada sociedade”.

III

Especialista na obra de Murilo Mendes e autor de Murilo Mendes: poesia de liberdade em pânico (Brasília, Editora da Universidade de Brasília-UnB, 2007), Tinoco incluiu neste livro o ensaio “Murilo Mendes: a recepção aplicada a um estudo poético. A construção de uma poética inovadora”, que constitui um resumo crítico da análise desenvolvida em seu livro.

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