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Uma palavra de ordem a serviço da extrema-direita

22.05.2016
 

Aos verdadeiros integrantes da direita brasileira interessa grandemente que se caracterize como próprias da esquerda as posturas assumidas por grande parcela dos apoiadores do PT, da presidente da República e da palavra de ordem segundo a qual "Não Vai Ter Golpe". (1) Os petistas e seus apoiadores caracterizam como golpista o processo de impeachment , absolutamente legal, movido contra a presidente da República, a qual, afrontando a Constituição e o Superior Tribunal Federal foi uma das primeiras pessoas a levantar a desqualificada hipótese de que estaria sendo vítima de um golpe político.

Iraci del Nero da Costa *

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Dessa forma, associa-se a "esquerda" com a ignorância das leis e da Constituição do país, com a luta política sem princípios, com a total falta de formação ideológica solidamente lastreada, com a corrupção e o crime que visam ao roubo puro e simples, com a exploração do patrimônio nacional, com dádivas ilegais destinadas ao financiamento partidário ou com o mero enriquecimento pessoal ilícito calcado em propinas. Como sabido, as ocorrências conhecidas como "mensalão" e "petrolão" assim como as demais ações em curso no âmbito da "Operação Lava Jato" evidenciaram de maneira insofismável o comprometimento criminoso de altos dirigentes do PT bem como de integrantes de outros partidos e de altos dirigentes empresariais.

Assim sendo, os reacionários veem transferir-se para a "esquerda" as seculares maneiras de agir dos adeptos da direita, formas estas enraizadas em várias eras históricas e que, presentes nos mais diversos rincões do planeta, conheceram seu ponto culminante no nazi-fascismo.

Camufla-se desse modo a história verdadeira da rendição aos moldes direitistas do PT capitaneado que foi por seu líder máximo Luiz Inácio da Silva e seus apaniguados; conjunto este o qual, em seu nascedouro postou-se contra a ditadura então vigente e apoiou-se em ideais trabalhistas de esquerda, mas que, tão logo conseguiu chegar ao poder central da Nação, abandonou suas pretensões iniciais e curvou-se inteiramente à depravação aplicando golpes típicos da direita contra os interesses nacionais, depredando as empresas públicas, aparelhando o governo e entregando-se à corrupção, ao roubo e às alianças espúrias com os representantes maiores da velha oligarquia coronelística e patrimonialista. A esta altura é importante reconhecer-se que para um sujeito ou agrupamento político ser realmente de esquerda não lhes basta "pensar-se" ou "dizer-se" de esquerda. Efetivamente, como apontado acima, depois de galgar o poder central o PT - ampliando dramaticamente os desvios que já se esboçavam no plano de suas administrações municipais - praticamente deixou de lado as tradicionais bandeiras da esquerda concentrando-se na distribuição de benefícios também aos mais pobres, necessários reconheça-se, mas que, de fato, sobretudo depois do episódio do mensalão, transformaram-se num autêntico Coronelismo de Estado visando a angariar votos. (2)

O fenômeno político aqui evidenciado revela-se profundamente deletério pois desvirtua perante os olhos da população nacional e internacional a real formação ideológica da esquerda teoricamente sadia e efetivamente associada aos interesses da massa trabalhadora brasileira. Tenha-se presente, ademais, que tal fenômeno não é promovido conscientemente pelas forças políticas de direita, trata-se de algo que se dá espontaneamente, muito embora beneficie largamente, como demonstrado acima, o aludido pensamento conservador existente entre nós.

É preciso reconhecer, por fim, que nas críticas ao PT e ao governo presidido por Dilma Rousseff fazem-se presentes, também, personagens da direita e até mesmo da extrema-direita; no entanto tais elementos não atuam de maneira orgânica nem apresentam reivindicações ou programas dirigidos contra os interesses da massa trabalhadora. Compõem, de fato, uma parcela das camadas médias descontentes com os políticos e os Partidos em geral, com a existência de uma prática generalizada de conchavos e de trocas de favores por meio da corrupção assim como com a condução emprestada à economia pelo governo central.Considere-se, ademais, que tais camadas médias não estão paranoicamente preocupadas com a ascensão dos mais pobres que as molestariam com sua presença desabonadora com respeito aos "bons modos". Quanto aos empresários deve-se ter em conta que se movem por verem seus interesses fortemente impactados pela recessão a que o país foi levado, sobretudo, pelos desacertos da presidência da República.   

 

NOTAS

1. Sem comprometê-lo com meus eventuais enganos agradeço ao Prof. Julio Manuel Pires por suas críticas e sugestões.

2. Aqui vão alguns exemplos: não foram apresentados projetos para tornar mais progressiva a estrutura tributária (introdução de uma adequada taxação dos lucros auferidos pelos detentores de capital, das distintas alíquotas concernentes aos diversos patamares de ganhos a serem considerados pelo Imposto de Renda assim como das heranças e de quaisquer formas de legados patrimoniais ou financeiros) nem houve preocupação especial com o sistema previdenciário e as leis trabalhistas.

 

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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